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19/08/2019   19/08/2019 18h45 | A+ A- | 247 visualizações

UFSM homenageia uma referência em defesa da educação

Dermeval Saviani recebeu na quinta, 15, o título ‘Doutor Honoris causa’


Dermeval Saviani, discursando após o recebimento do título 'Doutor Honoris causa'

Quem olha aquele senhor de 75 anos, tom de voz baixo, estatura pequena, pode não imaginar o gigantismo do filósofo e professor Dermeval Saviani, fomentador da teoria histórico-crítica no país. E o que o coloca em um patamar de relevância é a sua história na defesa da educação pública, gratuita, laica e de qualidade neste país, o que se associa ao seu trabalho de formação, ao longo de anos e anos, de educadores de norte a sul do Brasil, imbuídos do mesmo ideal que ele compartilha.

E ao receber na tarde da última quinta, 15, o título de ‘Doutor Honoris causa’ da UFSM, instituição com a qual mantém relações desde a década de 1970, Saviani discursou de forma incisiva, denunciando as mazelas do país, se distanciando daquilo que alguns defendem, que é a “neutralidade”. O professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) assume posição de forma límpida.

Para Dermeval Saviani, o Brasil sofreu um ‘golpe’ em 2016 quando do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Foi um golpe que se deu não pela força das armas, como o que ocorreu em 1964, mas a partir de uma articulação ampla envolvendo os poderes político, jurídico, empresarial e midiático, frisa o docente. A estratégia usada, explica ele, é a mesma que tem sido usada em outros países em que existem governos progressistas: desestabilização política, com apoio da mídia e do judiciário, e depois a destituição.

Ao fazerem a destituição de Dilma Rousseff sem que houvesse de forma clara um crime de responsabilidade como prevê a lei, Saviani avalia que a partir daí abriu-se a porta para diversas outras formas de desrespeito. Para ele, não há meias palavras: vivemos um ‘estado de exceção’. Como forma de reforçar seu entendimento, ele citou a morte do então reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier. Na avaliação de Dermeval Saviani, o suicídio de Cancellier foi uma forma que o professor encontrou de denunciar a “sanha fascista” que acometeu o Brasil. O reitor tirou a própria vida para defender sua dignidade, argumentou Saviani.

Suicídio da democracia

Para o mais recente laureado pela UFSM, a eleição de Jair Messias Bolsonaro a presidente é coroamento do processo iniciado em 2016. Na avaliação de Dermeval Saviani, a eleição de Bolsonaro pela maioria da população apenas demonstra que foram iludidos por falsas promessas e, especialmente, pelo uso de notícias falsas (fake news). O povo, enredado nessa teia de mentiras e falsidades, acabou por votar em seus próprios algozes, votando contra si mesmo, e decretando uma espécie de “suicídio da democracia”, destaca o filósofo.

Fruto dessa aventura política pela qual o país passa, o que temos é um governo tocado por “inexperientes e incompetentes”, o que resulta em retrocessos, em descrédito, e em perda da soberania nacional, frisa Saviani. Em relação às acusações feitas aos professores, de que são doutrinadores, o pesquisador emérito assinala: “nós, do campo progressista, não precisamos doutrinar, basta mostramos a realidade”. Já os do campo conservador, compara, “não tendo argumentos, acabam tendo que se utilizar da doutrinação”.

Defender a civilização

Diante do quadro conjuntural colocado, com ataque às instituições federais de ensino, a seus professores/servidores e estudantes, está colocada uma tarefa urgente aos educadores, segundo Saviani: “defender a civilização contra a barbárie”.

Logo após a fala do ‘Doutor Honoris causa’, o vice-reitor da UFSM, professor Luciano Schuch, fez a saudação em nome da instituição. Para ele, Saviani “deu uma aula de cidadania a todos nós”. E acrescentou que o auditório lotado (Centro de Convenções) demarcava a relevância do educador. O vice-reitor enfatizou o papel da universidade pública e argumentou que a única forma de se construir a democracia no país é através da valorização da escola pública.

Schuch aproveitou a oportunidade para, a exemplo do que fez o reitor Paulo Burmann, semana retrasada durante formatura, responder a um empresário de Santa Catarina que criticou o valor do orçamento da UFSM. “Não podemos aceitar que ‘forasteiros’ (parafraseando o jornalista Marcelo Canellas) venham se instalar em Santa Maria criticando a universidade, que não é apenas da cidade, mas de toda região, de todo o Estado”, asseverou.

Prioridade ao ensino?

Após o discurso de homenageado, Dermeval Saviani também proferiu a conferência que estava prevista, através da qual interrogou se a educação em algum momento já foi prioridade no país. Trazendo dados profundos e históricos, o docente e pesquisador comprovou que, desde a época em que Portugal assumiu a colonização, passando pelo período da independência, em 1822, pelo reinado de Dom Pedro II, pelo início da República, os recursos para o ensino sempre foram escassos.

Em período anterior do golpe de 1964, chegou-se a estabelecer percentuais para investimentos em educação, mas que nunca foram integralmente cumpridos. Já no regime militar, a vinculação orçamentária foi derrubada, para ser reconquistada após a Constituição Federal de 1988. Na década de 1990, após a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), foi apontada a necessidade de um Plano Nacional de Educação (PNE), renovado a cada 10 anos. Já nos anos 2 mil, o percentual de investimento via PNE não foi cumprido integralmente, e os 10% previstos para os próximos 10 anos, com recursos também da exploração do pré-sal, não serão cumpridos. Isso, especialmente a partir da aprovação, ainda durante o governo de Michel Temer (2016-2018), da lei do Teto, que limita os gastos em todas as áreas.

O professor Dermeval Saviani mantém vínculos com a UFSM, especialmente através do Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional e Tecnológica do Colégio Técnico Industrial, e do Kairós (Grupo de Pesquisas e Estudos sobre Trabalho, Educação e Políticas Públicas). Na mesa da solenidade de homenagem, a presença, além do vice-reitor, Luciano Schuch, dos docentes do CTISM, Claudia Barin e Rafael Adaime Pinto, que fizeram falas de agradecimento a contribuição permanente do renomado educador.

Texto e fotos: Fritz R. Nunes

Assessoria de imprensa da Sedufsm

 



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