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04/09/2019   04/09/2019 19h06 | A+ A- | 536 visualizações

Professora da UFSM diz que negar dados científicos incentiva crime ambiental

Soberania na Amazônia se dará através de conservação e preservação, afirma Ana Rovedder


Queimadas na Amazônia seguem o rastro do desmatamento

O interesse de nações estrangeiras em relação à preservação da Amazônia brasileira é legítimo e não afeta a soberania nacional. É um erro afirmar que essa preocupação com a região significaria a internacionalização da floresta, tendo em vista que os serviços ecossistêmicos prestados pela Amazônia repercutem em todo o planeta. A avaliação é da professora Ana Paula Rovedder, do departamento de Ciências Florestais da UFSM, integrante do programa de pós-graduação em ciências florestais e do programa de pós em engenharia agrícola, em entrevista concedida à assessoria de imprensa da Sedufsm.

Para ela, o caminho mais eficiente para se manter a soberania nacional na região amazônica é justamente o fortalecimento de políticas e programas de conservação, o fortalecimento do modo de vida dos povos da floresta e a prevenção às queimadas e ao desmatamento. Ana Paula, que também é membro da Sociedade Brasileira de Restauração Ecológica (Sobre), comenta ainda que “outra pauta que deveria ser foco do atual governo é o combate ao crime organizado na região, que entre 2017 e 2018 voltou aos elevados níveis de 1980”. Para a pesquisadora, atuar nesse sentido é responsabilidade governamental em prol da soberania nacional.

Com esse tipo de atuação, diz a docente, o Brasil poderia “manter a respeitabilidade adquirida, principalmente, porque o país é signatário de diversos acordos internacionais na área ambiental”. No entanto, argumenta Ana Paula, o atual governo tem feito uma rota oposta, fechando postos do Ibama na Amazônia, cortando milhões de reais do orçamento da fiscalização ambiental e comprando brigas diplomáticas com os países financiadores do ‘Fundo Amazônia’.

Níveis de excelência em monitoramento

Questionada sobre o fato de o presidente Jair Bolsonaro e membros de seu governo tentarem minimizar os dados sobre queimadas e desmatamento na Amazônia, desqualificando dados científicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Ana Paula Rovedder considerou que, em termos de monitoramento da Amazônia, o “Brasil tem níveis de excelência”.

Segundo a professora, a estrutura técnico-científica existente no INPE embasou políticas e programas para a região nas últimas décadas. Ela explica que os resultados foram positivos, tanto que de 2001 a 2015 a Amazônia apresentou resultados promissores entre redução de desmatamento e também aumento da cobertura florestal.

De 2016 a 2018, no entanto, os resultados do INPE apontam aumento de perda da floresta, principalmente, devido a queimadas. Em 2019, ressalta Ana Paula, os dados são alarmantes: um aumento de cerca de 70% na perda da cobertura natural nos primeiros oito meses do ano e o triplo de foco de queimadas, considerando a comparação para o mês de agosto.

Para a pesquisadora é importante entender que, quando o governo federal despreza os dados do INPE, na verdade, está desprezando 29 anos de série histórica de dados, além da evolução tecnológica de imagens orbitais e a expertise de pesquisadores altamente capacitados.

Negação científica e crimes ambientais

A docente de Ciências Florestais afirma também que “mesmo sendo legítima a tentativa de se quantificar o desmatamento por outros métodos e algoritmos que não os do INPE, e mesmo que considerássemos plausível a contestação dos sistemas como ‘DETER’ e ‘PRODES’, o discurso governamental, ainda assim, cai por terra. Isso porque pesquisas feitas com imagens orbitais de diferentes sensores, com resolução mais detalhada, com outros algoritmos e por pesquisadores independentes acabam de demonstrar que o desmatamento é ainda maior do que o apresentado pelo INPE. Portanto, diz ela, “a negação de dados científicos deve ser entendida dentro de um contexto de permissividade para crimes ambientais”.

Acompanhe a seguir a íntegra da entrevista com a professora Ana Paula Rovedder, que além de todas as responsabilidades citadas no início desta matéria, também coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Áreas Degradadas da UFSM (Neprade), fundado em 2011 e vinculado ao departamento de Ciências Florestais.



Pergunta- Para contestar que esteja aumentando o desmatamento na Amazônia, o governo Bolsonaro fala que há uma tentativa de novo “colonialismo” em relação ao Brasil. Na condição de docente da área de ciências florestais, como a sra. vê esses argumentos governamentais?

Resposta- Em se tratando da abordagem de soberania nacional, é um erro dizer que o interesse internacional na Amazônia se dá com objetivo de se internacionalizar a região. Os serviços ecossistêmicos prestados pela Amazônia repercutem em todo o planeta. A Amazônia é um grande regulador de correntes de ar, correntes marítimas, rios voadores, massas de umidade que adentram a América do Sul e também chegam à Europa. Isso sem falar do capital natural em forma de biodiversidade, sequestro de carbono, regulagem de recursos pesqueiros, etc. Os países europeus têm conhecimento dessa interdependência, principalmente em um contexto de mudanças climáticas globais e eventos climáticos extremos. Falar em perda da soberania nacional a partir de ajuda ao combate ao fogo, por exemplo, soa como retórica populista ainda mais em que pese que as queimadas parecem estar ligadas, em grande parte, à especulação imobiliária.

Da mesma forma, esse discurso não se sustenta quando é utilizado para atacar os países mantenedores do Fundo Amazônia. Cerca de 60% dos recursos do Fundo ficam com instituições governamentais, dividido entre União, estados e municípios. Para um governo que utiliza o argumento de falta de verbas para fazer cortes milionários em órgãos vitais como IBAMA, CNPq e MEC, abrir mão de mais de 3 bilhões de reais, é contraditório, para dizer o mínimo. O que acontece é que o atual governo quer mudar os objetivos de uso e destiná-lo para indenizar produtores rurais, o que descaracteriza os propósitos instituídos pelo Fundo.

A perda de soberania nacional ocorre no Brasil há décadas, sem precisar mudar-se o mapa da Amazônia ou apelar para teorias conspiratórias. Quando a política neoliberal de FHC privatizou os recursos do subsolo, as reservas de minério, tivemos uma perda de soberania ímpar. Resultados podem ser vistos nas tragédias recentes da Vale e Samarco, nos municípios de Mariana e Brumadinho, na omissão e impunidade que têm sido apontadas em ambos os casos. Novos pacotes de privatização, bem como a retomada de negociações para entrega da Base de Alcântara aos Estados Unidos e as negociações do governo amazonense com lobistas norte-americanos para compra de áreas na Amazônia brasileira, são exemplos de ações efetivas de neocolonialismo e perda de soberania.

A teoria de internacionalização da Amazônia surgiu na década de 1960, durante a Ditadura Militar, e serviu de pretexto para se levar o “progresso” à região (“integrar para não entregar”). O caminho mais eficiente para se manter a soberania nacional na região amazônica é justamente o fortalecimento de políticas e programas de conservação, o fortalecimento do modo de vida dos povos da floresta, a prevenção às queimadas e desmatamento. Além disso, outra pauta que deveria ser foco do atual governo é o combate ao crime organizado na região, que entre 2017 e 2018 voltou aos elevados níveis de 1980. Atuar nesse sentido é responsabilidade governamental em prol da soberania nacional. Com essa estratégia, o Brasil poderia manter a respeitabilidade adquirida, principalmente, porque o país é signatário de diversos acordos internacionais na área ambiental. No entanto, o atual governo tem feito uma rota oposta: fechou postos do Ibama na Amazônia, cortou milhões de reais do orçamento da fiscalização ambiental, comprou brigas diplomáticas com os países financiadores do Fundo Amazônia.

Pergunta- Na tentativa de se defender, o governo do presidente Bolsonaro desqualifica até órgãos estatais de renomada qualidade, como é o caso do INPE. De que forma a sra. avalia essa tentativa de desqualificar a pesquisa científica?

Resposta- Em termos de monitoramento da Amazônia, o Brasil possui níveis de excelência. O INPE possui uma série temporal de dados desde 1988. Isso é muito relevante no que tange ao planejamento territorial e formulação de políticas públicas.  Os dados e cálculos de desmatamento são feitos com base no monitoramento. Toda essa estrutura técnico-científica embasou políticas e programas para a região nas últimas décadas. Os resultados foram positivos: de 2001 a 2015 a Amazônia apresentou resultados promissores entre redução de desmatamento e aumento da cobertura florestal.

De 2016 a 2018, no entanto, os resultados do INPE apontam aumento de perda da floresta, principalmente, devido à queimadas. Em 2019, os dados são alarmantes: um aumento de cerca de 70% na perda da cobertura natural nos primeiros 8 meses do ano e o triplo de foco de queimadas, considerando a comparação para o mês de agosto.

É importante entender, portanto, que quando o governo federal despreza os dados do INPE, na verdade, despreza 29 anos de série histórica de dados, além da evolução tecnológica de imagens orbitais e a expertise de pesquisadores altamente capacitados.

Mesmo sendo legítima a tentativa de se quantificar o desmatamento por outros métodos e algoritmos que não os do INPE, e mesmo que considerássemos plausível a contestação dos sistemas como DETER e PRODES, o discurso governamental, ainda assim, cai por terra. Isso porque pesquisas feitas com imagens orbitais de diferentes sensores, com resolução mais detalhada, com outros algoritmos e por pesquisadores independentes acabam de demonstrar que o desmatamento é ainda maior do que o apresentado pelo INPE. Portanto, a negação de dados científicos deve ser entendida dentro de um contexto de permissividade para crimes ambientais.

A negação desses dados e a desconstrução das políticas e programas de incentivo à pesquisa científica, o desmonte de instituições fundamentais ao desenvolvimento da ciência, como CNPq e CAPES, indicam uma agenda de desmonte acelerada e com sentido bem determinado.

Pergunta- Para além da questão do desmatamento e da degradação ambiental na Amazônia, o que é possível perceber em relação ao Estado brasileiro, relacionando a região em que nós estamos, no sul do Brasil?

Resposta- O desmatamento na Amazônia sempre ocorreu e foi (e ainda é), subsidiado, dentro de uma percepção equivocada de desenvolvimento. Desde o financiamento para avanço da pecuária e agricultura por grandes bancos internacionais, passando pela indústria de calçado e roupas, até as grandes redes de fast food existe um rol imenso de multinacionais que se beneficiam do desmatamento. No final dessa cadeia complexa nossas escolhas cotidianas (o que comemos, o que vestimos, etc). Acontece que a Amazônia é um dos principais hotspots (*) em biodiversidade e serviços ecossistêmicos do mundo. Do ponto de vista econômico, a Amazônia constitui-se em um capital natural incomparável. É mais vantajoso preservar a Amazônia, do que transformá-la em grandes extensões de soja e pecuária, ou qualquer outra atividade econômica. Por exemplo, muitas das massas de umidade que chegam às regiões central e sul do país são oriundas da Amazônia. Isso acontece porque a imensa cobertura vegetal da região produz umidade, que é carregada pelas correntes de ar. São os chamados rios voadores.

Se a floresta amazônica for fortemente reduzida (como está acontecendo) a produção de umidade diminui, os rios voadores desaparecem e o regime de chuvas aqui no RS será reduzido significativamente, com enorme impacto sobre a produção agropecuária, silvicultural, abastecimento hídrico, etc. Por isso, todos que dependem da agropecuária no Sul do Brasil deveriam ser os principais interessados em barrar o avanço no desmatamento. Nossa base de produção agropecuária depende desse serviço ecossistêmico. Basta saber que 80% da agropecuária desenvolvida no Brasil não é irrigada. Nesse cenário e dentro de um contexto de mudanças climáticas globais, teremos quebras de safra frequentes, o que produz um efeito em cascata: maior endividamento e redução de poder aquisitivo, com consequente enfraquecimento do comércio e da prestação de serviços, aumento da inadimplência e do desemprego, gerando aumento da miséria e violência.

O capital natural da Amazônia é insuperável.  Enquanto todo o planeta se beneficia da Amazônia em pé, sua conversão a outros usos beneficia a poucos. Isso porque podemos dizer que a vocação da Amazônia não é a produção de commodities. Quando a floresta é suprimida e substituída por usos intensivos, a produtividade se esgota, aproximadamente, em sete anos. A exuberância de biodiversidade e produção de biomassa nesse bioma é produto da própria floresta, que se recicla continuamente, e da sua relação com o clima. Quando essas áreas se esgotam, os produtores ou os grileiros, simplesmente as abandonam e desmatam outra extensão de terra. A terra abandonada, geralmente fica como passivo ambiental. É obvio que esse sistema é insustentável e prejudica todo o país. Em resumo, quando a Amazônia é desmatada, o lucro é de poucos e se esgota rapidamente.  Mas a conta do desmatamento é alta e é paga por todos.

O que a sociedade precisa entender é que não vivemos isolados. Vivemos em uma grande teia de interdependência. A sociedade humana atual atingiu um potencial de destruição ambiental inédito que, se utilizado, será sua autodestruição.

Em um contexto socioeconômico, os cortes nas verbas para fiscalização ambiental, os cortes em pesquisa científica e ensino terão impacto no futuro do país, aumentando a dependência ao mercado e à tecnologia externa, com aumento de subempregos e gerando menos competitividade.

O ataque às ONGs também não condiz com a realidade. Como toda generalização, serve apenas para aprofundar visões preconceituosas e injustas. Uma grande parcela da adequação ambiental, da capacitação e popularização do conhecimento técnico-cientifico para restauração de ecossistemas e uso sustentável da natureza é feita por ONGs. Há ONGs que dão suporte a populações isoladas e vulneráveis, levando assistência, educação e oportunidades em regiões em que o Estado é omisso.

Analisando o contexto da região sul é importante se libertar de estereótipos idealizados e ilusórios. A região sul conseguiu sim, por muitos anos, captar recursos consideráveis no campo da educação superior e desenvolvimento científico. Com o programa REUNI conseguimos ampliar a rede de ensino superior para o interior do Estado, fomentando desenvolvimento regional, fortalecendo mercado imobiliário, construção civil, comércio em cidades que se encontravam fora do eixo de maior desenvolvimento. Com o desmonte dos programas de ensino superior como ficarão essas cidades e a população que tinha a expectativa de ver seus filhos acessarem o ensino superior público e gratuito? 
 

(*Hotspots- O termo hotspots é utilizado para designar lugares que apresentam uma grande riqueza natural e uma elevada biodiversidade, mas que, no entanto, encontram-se ameaçados de extinção ou que passam por um corrente processo de degradação).
 

Entrevista: Fritz R. Nunes

Fotos: Rede Brasil Atual e Arquivo Pessoal/Facebook

Assessoria de imprensa da Sedufsm

 



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