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11/10/2019   11/10/2019 16h40 | A+ A- | 515 visualizações

Estudantes da UFSM falam sobre motivos de estar em greve

Segmento estudantil iniciou paralisação em defesa da educação pública em 2 de outubro


Defesa da educação pública e contra o Future-se tem estimulado movimento grevista dos acadêmicos

Os cortes impostos à educação pública e a tentativa de implementação do programa Future-se nas universidades têm resultado em mobilização estudantil por todo o país. Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), os estudantes estão em greve desde o dia 2 de outubro e diversas têm sido as atividades realizadas pelas comissões de mobilização e diretórios acadêmicos com o intuito de chamar a atenção da comunidade acadêmica e da sociedade para a luta em defesa da educação.

As mobilizações estudantis ganharam peso a partir de maio, com o anúncio do corte de 30% nas verbas das universidades e institutos federais. Houve protestos em 15 de maio, depois dia 30 de maio, seguidos do dia 14 de junho, 13 e 30 de agosto e a mobilização do dia 7 de setembro. Esta última, além de pautar a defesa da educação, trouxe também a defesa da Amazônia e dos povos indígenas.

Mas a efetivação dos cortes e a diminuição de verbas, resultante do congelamento de investimentos imposto pela Emenda Constitucional 95, aprovada em 2016, agravaram a situação da universidade e ameaçam seu funcionamento. Hoje, a UFSM já vê o reflexo do enxugamento orçamentário: aos poucos, são aplicadas medidas de racionamento que envolvem a redução no consumo de energia, o fim do transporte intracampus, o corte de bolsas e severos comprometimentos à assistência estudantil – o Restaurante Universitário, por exemplo, poderá deixar de oferecer subsídio ao valor das refeições, fazendo com que os estudantes sem benefício socioeconômico tenham que pagar mais de 9 reais pela alimentação.

Esse cenário demandou uma maior mobilização dos estudantes, principais afetados com os cortes e com o desmonte da educação pública. Hoje, milhares de estudantes da UFSM e de outras universidades federais veem o sonho do diploma ameaçado por uma política que promove o sucateamento do ensino superior público e pavimenta o caminho para a privatização das universidades.

Os estudantes da UFSM têm construído, desde 2 de outubro, uma greve e diversas mobilizações que visam a dialogar com a comunidade acadêmica e a sociedade sobre a importância da universidade e a necessidade de mobilização contra os cortes e o programa Future-se. A assessoria de imprensa da Sedufsm ouviu alguns estudantes que têm participado das mobilizações:

Caminho único: o da mobilização

A estudante do 4º semestre de Pedagogia e integrante do Comando Local de Greve, Luize Biscuby, indaga: “Enquanto futura educadora, eu me perguntaria ‘por que não fazer greve e não me mobilizar contra os cortes?’”. Para Luize, não há outro caminho senão a mobilização em defesa da educação. “A gente precisa dar as mãos e reivindicar aquilo que a gente quer enquanto estudante e aquilo que a gente prega enquanto professor, mas, sobretudo, não deixar que os nossos filhos tenham o mesmo futuro que a gente. Não por não quererem, mas por essa ser a única opção deles”, afirmou a futura pedagoga.

O acadêmico Anderson Prestes, que também estuda Pedagogia e integra o Diretório Acadêmico do Centro de Educação, fala sobre a importância da educação como um direito. “Ter acesso à educação é um direito básico do ser humano. É para todo mundo, não para uma camada elitizada apenas. Todo mundo deve ter acesso à educação e ela precisa ser de qualidade”, afirma.

O estudante de Comunicação Social – Relações Públicas, também diretor de combate ao Racismo da União Estadual dos Estudantes do Rio Grande do Sul (UEE – RS), Luiz Gustavo Dartora, enfatiza a necessidade da ação frente aos ataques que a universidade tem sofrido. “Já dizem algumas notícias que o funcionamento da universidade como um todo está em jogo, mas antes disso acontecer, muitos outros estudantes terão que largar seus cursos. Esses estudantes são os que vêm de família pobre, moram na casa do estudante ou nas periferias de Santa Maria, que vêm para a UFSM e só conseguem ficar o dia todo aqui por causa do RU, que já foi anunciado que pode fechar. Estudantes pobres de todo o país que moram aqui na casa do estudante e que se não fosse pela existência dela não conseguiriam acessar a universidade, lembrando também que também já anunciaram que pode sofrer cortes de energia elétrica e já vem tendo blocos onde falta água. O que está em jogo é a permanência de quem é pobre”, comenta Luiz Gustavo.

O estudante ressalta também a importância da mobilização como uma forma de garantir outro futuro para o país. “A educação como um todo é o que pode mudar o mundo, é o futuro, e nesse sentido, a educação pública é a porta de entrada de toda a população, principalmente negra e pobre, nessa mudança. Se nós não defendermos a educação pública, esse povo não vai ter acesso e logo não haverá mudança”, afirma Luiz.

Future-se, projeto perigoso

Em relação à proposta do governo federal de implementar o programa Future-se nas universidades, a estudante de Eletrotécnica no Colégio Técnico Industrial de Santa Maria (CTISM) e coordenadora geral do Diretório Central de Estudantes, Isadora Barrios, afirma que é um projeto questionável. “A proposta de estreitamento de laços das universidades das universidades com a iniciativa privada é extremamente perigosa, visto que abre margem para que a estrutura e os projetos de ensino e pesquisa dos chamados cursos de retorno imediato sejam ordenhados por essas empresas. E cursos de retorno não imediato, como os das áreas humanas, receberão muito pouco investimento, podendo definhar”, colocou Isadora.

A estudante reforça a necessidade de mobilização como uma forma de defender não apenas a educação, mas os direitos da classe trabalhadora. “Se no passado desprendemos nossos esforços para debater e defender melhorias nas instituições públicas de ensino, com a valorização dos professores e implementação de um ensino que fosse inclusivo e socialmente referenciado, hoje, tendo em vista as medidas do atual governo, nos vemos na obrigação de defender a existência delas. Assim, mobilização estudantil nesse momento é extremamente importante por dois pontos. O primeiro deles já citado, para defendermos a manutenção da educação pública enquanto um direito. O segundo é utilizar da greve para a articulação e mobilização com os trabalhadores e trabalhadoras, tendo em vista que essas medidas não afetam só a educação, mas o serviço público como um todo e todas as companhias do estado que ainda têm algum tipo de compromisso com a soberania nacional. Não estar mobilizado nesse momento é permitir que nosso presente e nosso futuro sejam roubados pelo projeto entreguista colocado hoje”, frisa a estudante do CTISM.

Governo que ataca e sucateia universidades

A estudante de Psicologia e integrante do Diretório Acadêmico da Psicologia, Lays Jost, comenta sobre o papel do atual governo na tentativa de sucatear as universidades. “Desde a sua posse, Bolsonaro vem atacando sucessivamente a educação através dos cortes de verbas, na tentativa de deslegitimar as universidades e tudo que elas significam para a sociedade brasileira, e também por meio da apresentação do Programa Future-se”, afirma a estudante. Ela fala também sobre a importância da greve como uma forma de envolver mais pessoas na mobilização estudantil. “A greve vem com o intuito de contrapor o sucateamento da nossa universidade e desenvolver ações para mobilizar todas as categorias em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade”, finaliza Lays.

Ainda não se sabe até quando vai a greve estudantil da UFSM. Embora nem todos os cursos e aulas tenham parado, o momento tem sido importante para que os cursos possam desenvolver ações a fim de discutir a situação da universidade, além de fomentar a construção de espaços que integrem estudantes pela defesa da educação.

Balbúrdia no bairro

No dia 3 de setembro, os estudantes, mesmo abaixo de chuva, estiveram na Praça Saldanha Marinho para protestar e dialogar com a população sobre a situação da UFSM. Neste sábado, 12 de outubro, outro evento, organizado pelas entidades com os demais estudantes, levará as produções da universidade para fora do arco. A segunda edição do ‘Balbúrdia na Praça’, dessa vez terá outro nome: ‘Balbúrdia no bairro'. O evento acontecerá na área verde da Nova Santa Maria, a partir bdas 14h, e pretende integrar a universidade com a periferia da cidade, pautando a luta em defesa da educação e reforçando a universidade como um lugar que deve ser acessado pelo povo.

Uma coisa é certa: a mobilização impulsionada pelos estudantes nas últimas semanas já teve resultados. Foi a partir da demanda de estudantes e técnicos que realizou-se um Conselho Universitário aberto para discutir o Future-se. E foi também graças à mobilização estudantil que foi aprovada, no mesmo Conselho, uma nota que se coloca contrária ao Programa Future-se na UFSM. Agora, a tarefa segue sendo a mobilização articulada às outras categorias para defender as universidades públicas e rejeitar totalmente o programa, além de garantir que as verbas sejam repassadas para a educação.

 

Texto: Lucas Reinehr (estagiário de jornalismo)

Fotos: Lucas Reinehr

Edição: Fritz R. Nunes (Sedufsm)



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