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20/11/2020   20/11/20 22h19 | A+ A- | 194 visualizações

20 de novembro: a consciência negra entre a dor e a potência

Lideranças do movimento negro da cidade avaliam avanços, retrocessos e desafios da luta antirracista no Brasil


Escrever sobre o Dia da Consciência Negra foi uma tarefa ainda mais difícil neste 20 de novembro de 2020. Na pior demonstração de que a luta antirracista é imprescindível, João Alberto Freitas, o Beto, homem negro de 40 anos, lutou pela vida e perdeu a batalha para dois pares de braços brancos que o espancaram e o asfixiaram até a morte. Às vésperas da data mais importante para o movimento negro brasileiro, o estacionamento do Carrefour Passo D’Areia, na zona norte de Porto Alegre, foi palco daquilo que o historiador e professor da Unipampa (campus São Borja), João Heitor Silva Macedo, frisou ser um problema social desde a época da escravidão em nosso país: o racismo estrutural e a legitimação da violência estatal contra corpos negros.

“É lamentável acordarmos, em pleno Dia da Consciência Negra, com mais uma notícia trágica. Reproduziu-se, aqui no Brasil, a mesma tragédia que acometeu George Floyd nos Estados Unidos e que reflete exatamente o problema social brasileiro desde a abolição da escravatura: o racismo estrutural. O que aconteceu nos EUA e o que aconteceu ontem no Rio Grande do Sul são legados da escravidão, de um processo histórico de desumanização das pessoas de origem africana e cor negra. Processo legitimado por um Estado que se silenciou ao longo de toda a histórica republicana e que se silencia até hoje em relação ao genocídio da população negra”, diz o docente, para quem o racismo estrutural afeta negros e negras em diversas esferas – desde a psicológica, debilitando sua saúde mental, até a física, violentando, machucando e executando seus corpos.

Para a professora da rede estadual Maria Rita Py Dutra, esta sexta-feira, 20 de novembro, amanheceu pesada. Em seu facebook, postou: "Hoje para mim seria um dia de celebração. É aniversário da minha filha Tatiana Py Dutra e o Dia da Consciência Negra. Participei de Lives, mesas redondas, palestras e entrevistas. Conversei com professoras/es, estudantes, crianças e jovens. Sentia-me repleta de esperança e fé. Ao acordar, tomei conhecimento do assassinato do irmão João Alberto Silveira Freitas. Foi mais um mergulho na tristeza e dor. Por que pessoas que estão na função de segurança de lojas querem nos eliminar"?.

Candidata a vereadora pelo PCdoB nas últimas eleições municipais, Maria Rita obteve 2.051 votos, número que, embora muito expressivo, não foi suficiente para garantir seu acesso à Câmara de Vereadores. Situação similar foi a de Alice Carvalho, candidata a vereadora pelo PSOL de Santa Maria e campeã de votos à vereança (totalizando 3.371), mas que, devido ao partido não ter atingido o quociente ou vencido a disputa de sobras, também não conseguiu se eleger.

O assassinato de Beto, para Alice, mostra que o 20 de novembro, além de celebração, deve servir à denúncia.

“São sempre os nossos corpos negros que são mutilados e violentados sistematicamente. Mesmo que falemos que vidas negras importam, essa máxima não vale pra branquitude e pra burguesia. Agora o certo a se fazer é boicotar o Carrefour, afinal cenas de descaso e violência nesse supermercado já aconteceram anteriormente. Também é tempo de se solidarizar com a família do João Alberto e, principalmente, lutar ativamente por justiça. Em muitos lugares estão organizando atos, agora é o momento de ecoarmos as vozes contra o racismo e o capitalismo”, diz a jovem de 24 anos, lembrando que na mesma cidade onde ocorreu o crime, quatro mulheres negras e um homem negro foram recentemente eleitos para a Câmara de Vereadores.

No fim da tarde desta sexta-feira, 20, ocorreram manifestações em cidades gaúchas, a exemplo de Porto Alegre e Santa Maria, onde protestos em frente às unidades da rede Carrefour foram registrados. Protestos que pediam justiça para Beto e o fim do racismo estrutural que legitima o assassinato diário de negros e negras.

Cabe lembrar que, em Santa Maria, um crime de racismo não resolvido vem também mobilizando familiares, apoiadores e partidos. É o caso do jovem engenheiro Gustavo Amaral, morto a tiros pela Polícia Militar quando se dirigia para o trabalho. Leia mais aqui.

Na vanguarda da queda de Trump

Donald Trump foi o primeiro presidente norte-americano não reeleito nos últimos 28 anos. Em análises políticas divulgadas após sua derrota para o democrata Joe Biden, era quase unânime a tese de que um dos principais – senão o principal – articulador da derrota do republicano foi o movimento ‘Black Lives Matter’ (Vidas Negras Importam), que, em meio à pandemia, tomou as ruas do país em repúdio ao assassinato de George Floyd.

João Heitor avalia que a força das manifestações norte-americanas repercutiu no Brasil, levando ao aumento significativo de manifestações favoráveis ao movimento negro.

“O movimento negro sempre esteve em atuação, no entanto, a partir do movimento mundial ‘Vidas Negras Importam’, a mídia deu respaldo e visibilidade muito maiores ao movimento negro, o que permitiu um reconhecimento social por parte da população. Várias pessoas esse ano aderiram à luta antirracista e isso possibilitou que nosso cenário legislativo nas esferas municipais desse um retorno significativo em votação. Com certeza precisamos avançar”, pondera o docente da Unipampa. Para ele, a maior representatividade de negros e negras no cenário político tem de vir acompanhada de uma luta por políticas públicas e pelo cumprimento, por exemplo, do Estatuto da Igualdade Racial e da Lei n° 10.639 – que determina a inclusão, nos currículos escolares do ensino fundamental ao médio, da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”.

Para Maria Rita, o aumento da representatividade negra no legislativo foi muito em decorrência de atuações do próprio movimento negro, a exemplo do Movimento Negro Unificado (MNU) e de outros coletivos que levam adianta a defesa de que as pessoas votem em candidatos negros e negras. “Não basta só denunciar o racismo, é preciso ter atitudes antirracistas. O antirracismo se constrói dando emprego, promovendo a igualdade racial. A desigualdade existe em função da pobreza, da miserabilidade e dos baixos salários”, pontua a professora.

Racismo na presidência

Manchetes trágicas seguem acompanhando a história de negros e negras desde a infância. É o caso de Ágatha Félix, 8 anos, morta a tiros enquanto voltava para casa com a mãe. Também de João Pedro Matos Pinto, 14 anos, morto a tiros dentro de casa enquanto jogava vídeo game. Mais recentemente, Miguel Santana da Silva, 5 anos, filho da empregada doméstica Mirtes Santana de Souza, morreu após cair do 9º andar de um edifício de luxo em Recife, enquanto sua mãe tinha de passear com os cachorros da patroa.

Alice Carvalho alerta para o fato de o racismo não ser uma preocupação só das pessoas negras, mas de toda a sociedade, devendo ser abraçado como central. “Toda a sociedade precisa se movimentar para quebrar esses discursos problemáticos, essas práticas tão preconceituosas e, principalmente, para que o Estado dê uma resposta a tudo isso. A inércia do Estado brasileiro demonstra como é necessário o nosso movimento. E apesar de a gente ter avançado bastante, precisamos de muito mais para conseguirmos uma sociedade antirracista e de fato emancipatória para a população negra”, opina.

Dentre os avanços, a mestranda em Psicologia e integrante do Conselho Municipal de Saúde destaca uma tônica de esperança devido ao maior engajamento da sociedade na luta antirracista. “Muitas pessoas acabaram construindo sua consciência negra, reafirmando sua identidade preta de forma positivada, colocando estes debates em seus locais de trabalho, estudo e moradia e se engajando politicamente através de coletivos, movimentos, partidos. Traz essa tônica de esperança pela potência que a gente de certa forma descobriu que realmente tem. E também porque outros setores dos movimentos sociais olharam pra gente com outro viés, entendendo a necessidade de a sociedade inteira se insurgir contra o racismo”, destaca Alice.

Mas nem todos veem em sua negritude um motivo de militância. Sérgio Camargo, presidente da Fundação Palmares, já chamou o movimento negro de ‘escória’ e garantiu que a instituição que preside não daria qualquer tipo de auxílio às manifestações do Dia da Consciência Negra em 2020. Na avaliação de Maria Rita, Camargo tem pele negra mas não se percebe como negro. Embora hoje alinhado à extrema-direita bolsonarista, a professora comenta que ele já deve ter sentido o peso do racismo em alguns momentos de sua vida. Contudo, não construiu sua identidade negra a partir daí.

Maria Rita cita o estudo do psicólogo Ricardo Franklin Ferreira acerca da construção da identidade afro-descendente. Composto por 4 fases, este processo teria como primeira fase a negação da identidade e das raízes africanas, a submissão ao racismo e o sentimento de inferiorização. Há pessoas, contudo, que, despertas por algum episódio específico, revoltante e/ou doloroso de suas vidas, conscientizam-se sobre o racismo e passam a se envolver em ações de mobilização antirracistas.

Para a professora, apesar dos avanços, o movimento negro deve seguir vigilante, especialmente tendo em vista que Jair Bolsonaro está à frente da presidência. “O discurso extremista de Bolsonaro atinge todo esse povo que pensa como ele, que se cuidava antes, e hoje mostra seu discurso racista, machista, xenófobo. O aumento da representatividade negra mostra que as coisas estão mudando, tomara que não seja só agora, em novembro. É preciso caminharmos para uma sociedade mais igualitária”, diz Maria Rita, que conserva especial preocupação com a atuação do Judiciário brasileiro, que não raramente sentencia, encarcera e aprisiona jovens negros, conferindo a estes tratamento diferenciado do concedido a homens brancos e poderosos.

Nem um minuto de sossego

Ao destacar a postura truculenta de Bolsonaro frente aos movimentos sociais e em especial ao movimento negro, João Heitor salienta que este é mais um dentre tantos desafios que o movimento negro sempre esteve acostumado a enfrentar.

“Nós nunca tivemos, na luta racial no Brasil, um momento de tranquilidade. A luta sempre foi dura. Nós, negros e negras, sempre tivemos que enfrentar a estrutura política do Brasil, pois, mesmo mudando a cabeça no sistema federal, temos uma herança histórica no cenário político brasileiro consolidada pelas antigas oligarquias de herança portuguesa e que ainda mantém os valores da colonização na nossa sociedade”, diz João, para quem a educação é um dos carros chefe da luta antirracista.

Para ele, é preciso avançar na construção de estruturas educacionais antirracistas, que vão desde a educação básica até o nível superior.

“Não basta termos cotas para inserção da nossa população negra, indígena e quilombola dentro do ensino superior, se não tivermos, dentro da universidade, uma política efetivamente antirracista. Temos que avançar numa estrutura interna de educação que leve educadores a assumirem a postura de combater o racismo. Estou falando de disciplinas, conteúdos, práticas pedagógicas que sejam contra o racismo. Estou falando de mexermos nas estruturas da modernidade epistêmica que formata os nossos conhecimentos e impõe uma desigualdade social e racial dentro da própria universidade”, propõe o professor.

A negritude e a pandemia

Alice Carvalho destaca que, durante a pandemia, a população negra foi a mais afetada pelas políticas de austeridade e pela crise econômica. Antes mesmo da pandemia, diversos projetos aprovados por Bolsonaro (a exemplo da Reforma da Previdência) ou por governos anteriores (como a Reforma Trabalhista de Michel Temer) aprofundaram a situação de precarização a que negros e negras são submetidos.

“A pandemia escancarou como a falta de acesso à saúde, assistência social, entre outros serviços, prejudicam a população negra. O caminho que o movimento negro deve seguir é continuar na luta antirracista e antibolsonaro. A luta antirracista precisa ser antissistema. Precisamos mudar a estrutura. A luta antirracista é também uma luta anticapitalista porque o sistema econômico, do jeito que nos explora, faz com que o racismo seja item de sustentação e manutenção desse sistema que nos coloca em posição de inferioridade”, defende Alice.  

Ato em Santa Maria

Em meio à maior pandemia dos últimos 100 anos no Brasil, é a segunda vez que o movimento negro de Santa Maria tem de sair às ruas pedindo por justiça e reafirmando que vidas negras importam. A primeira foi em junho, na esteira das mobilizações mundiais por George Floyd, e a segunda foi nesse 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, quando centenas protestaram em frente ao Carrefour da Avenida Rio Branco contra o assassinato de Beto.

A diretoria da Sedufsm repudiou, em nota, o crime bárbaro que tirou a vida de Beto e reafirmou sua posição antirracista.

 

Texto: Bruna Homrich

Fotos: Fritz Nunes e Arquivos Pessoais

Assessoria de Imprensa da Sedufsm

 



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