Reflexões docentes

Falência múltipla da Sociedade

Francisco Estigarribia de Freitas
Professor aposentado do Centro de Educação da UFSM

... O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais. (Brecht, Bertolt. “O Analfabeto Político”).

O leitor certamente conhece a citação acima. Igualmente, num primeiro momento poderá se sentir agredido com a mensagem em pleno século XXI e de forma mais direta, os leitores que são trabalhadores no setor da educação.

Contudo, sob o manto do crivo crítico dos telejornais e de alguns jornais impressos urge reler Brecht na sua integralidade, principalmente, a partir do momento que o legislativo federal apoiado no judiciário desencadeou um golpe no Brasil, apoiado por parte dos donos do capital em defesa do mercado, inclusive, com utilização de documento apócrifo como prova condenatória de réus.

A negociata envolvendo financiamentos e partilhas com partidos, senadores e deputados numa nova conciliação para formar a coalizão governamental tem intensificado a retaliação da Constituição Federal, via sucessivas Emendas Constitucionais propostas por um executivo (no mínimo não representativo e em suspeição) e aprovado por um Legislativo, efetivamente, contaminado fartamente com provas materiais de corrupção.

Concomitante, as ditas reformas necessárias à construção da “agenda positiva ao Brasil” se materializam por Emendas Constitucionais tais, como, EC 20/1998, EC 41/2003, EC 47/1998, PEC 287/ que estão destruindo o Sistema Brasileiro de Proteção Social (Saúde, Seguridade Social, Assistência Social e Previdência Social), bem como, a Lei nº 13.467 de 13 de Julho de 2017 que alterou a relação capital e trabalho. Esta armação jurídica que produz e produzirá efeitos na educação, na saúde, no mundo do trabalho, na segurança entre outras, nunca afetam o capital, basta apenas, analisar os balancetes dos Bancos no Brasil e a tributação das grandes fortunas.

Por sua vez, a grande mídia, o negocio privado e monopolista tem sido fundamental para sedimentar outro Sistema Político: a cleptocracia que admite a corrupção. Para isso desabriga a política enquanto a arte de construir com e para a população ações de governabilidade usando a representação para gestar a coisa publica com a substituição da população pelo capital.

E a cidadania? Bom a pesar da cidadania capenga desde a Constituição Brasileira de 1988, no panorama atual, está sendo desmontada com os diretos ali, minimamente conquistados, sendo substituídos por merecimento e se o mercado reconhecer o merecimento ainda parcela o mesmo.

Então não parece demais voltar a relembrar:

Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada (Costa, Eduardo Alves. No Caminho com Maiakóvski ).

A aproximação de parte dos versos de Brecht e de Costa na contemporaneidade podem projetar alguns critérios, princípios e preocupações a problematizar segmentos sociais que defenderam ou defendem a justiça global; aqueles aderem aos movimentos com liderança centralizadas; ou ainda, os seguidores do nacionalismo a ornar os patriotas com ética na política partidária, bem como, quem concorda com a ação direta e negação da liderança política.

Para quem está em dúvida, desconfiando e crente que os versos citados não têm nada de contemporâneo, pare, escute, pense no que foi a manifestação de velhos jovens e jovens velhos que acabaram com a exposição queer em Porto Alegre. O que pareceu como justificativa: a “blasfêmia”, a “zoofilia”, a “pedofilia”. Pois então: e o que um Banco faz? Eles nos corrompem, corrompem os conceitos, critérios, os princípios, as práticas. Tudo vira uma grande coprofilia e, pior ainda, em divida.

Estamos esperando o quê?! O aumento insuportável da dor estatal e do capital aprofundar ainda mais a falência múltipla da VIDA?


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