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O político parvo

12/05/2014


Por: Nilton Bertoldo


Que pode o ciclope ver com o seu único olho? Um campo peculiar de semivisão que os artistas logo descobrem, para sua tristeza! Tão fraco é o poder de perceber do sujeito comum, que não pode observar duas coisas ao mesmo tempo, ainda que sejam, em realidade, partes de atos que efetua comumente. Tome-se, por exemplo, a voz e o gesto. Atores experimentados sabem que pouca gente, numa plateia típica, compreende o significado do par, quando simultâneo.Veja-se o testemunho de Ina Claire, que, certa vez, observou a Karl Kitchen: “Aprendi, certa feita, uma coisa importante sobre teatro, com Cyril Scott: fazer somente uma coisa de cada vez. Por exemplo, não fale e gesticule ao mesmo tempo, pois a plateia lhe acompanhará o gesto, sem lhe ouvir a voz.” Esta regra foi posta à prova, milhares de vezes. Todos os editores e todos os especialistas em cinema a conhecem. Arthur Brisbane escreveu, certa vez: “Deveis mandar as vossas ideias à mente do leitor como trens de carga, através de túneis. Uma ideia de cada vez! E cada ideia firmemente ligada com as ideias imediatamente anterior e posterior! ”Não é tudo. As coisas ainda são piores! A mesma regra vale para sequências mais longas de atenção. O político parvo não pode apreender duas ou mais ideias, dois ou mais quadros políticos e argumentos no curso de 20 minutos e, quanto maior for a diferença na sua apresentação tanto mais difícil lhe será compreendê-los. Somente uma longa experiência revela esta extraordinária limitação. Até mesmo o indivíduo superior só pode atentar em objetos de extrema simplicidade. Há, aqui, uma grosseira lei de quadrados inversos. Suponha-se que ele olha para uma grande folha de papel, em que vários desenhos, ou outros objetos visuais, se dispõem de certo modo. Ser-lhe-á 4 vezes mais difícil concentrar-se, durante muito tempo, sobre um objeto, enquanto outros estão no seu campo visual, do que lhe seria concentrar-se sobre este mesmo objeto, quando nada mais estivesse presente. Ser-lhe-á 9 vezes mais difícil, se 3 objetos, ao todo, estiverem no papel, 16 vezes se 4 objetos, e assim por diante, - sempre nesta progressão, embora não tão exatamente. O político parvo, cujos processos de atenção são inferiores, está completamente perdido quando tem, diante de si, mais de 3 ou 4 objetos – o clamor das ruas, a Copa do Mundo, as Olimpíadas, as tentativas de calar a imprensa, a bagunça na Venezuela, etc.- no mesmo campo de atenção .O ciclope é tão infeliz quanto ele. Marque-se 3 pontos muito próximos, sobre a folha de papel, e ele perceberá um triângulo. Assinale-se 6 pontos ao acaso – ele nada verá. Encarreguem-no de entregar uma nota ao senhor X – e ele pode entregá-la prontamente. Forneçam-lhe 4 notas e digam-lhe que entregue a pequena a X, a grande a Y, a dobrada em quatro a Z e a verde a P – e, provavelmente, não entregará nenhuma das notas com exatidão! Uma pequena área nos centros óticos do cérebro se incumbe de organizar as coisas já vistas. Consegue-se compreender melhor as percepções estultas quando se observa o que a moléstia faz a essa região: uma curiosa “cegueira cortical’’ se desenvolve no político parvo – e ele vê pormenores, mas não pode ver a estrutura nem o desenho das coisas. Esta semivisão do político parvo se abate como uma praga sobre o povo brasileiro. É ela que, mais do que qualquer outro processo de organização, determina erros práticos em todas as áreas, principalmente na política. Portanto, não é de admirar que os melhores planos fracassem. Esta é a maldição dos ciclopes. Surgirá uma raça que afaste esta maldição? Até agora, não há sinais nesse sentido. (Publicado em A Razão de 09.05.2014)

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