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O corvo da Guanabara e a democracia

30/05/2014


Por: Daniel Arruda Coronel¹ e José Maria Alves da Silva²


No dia 21 deste mês, completam-se trinta e sete anos do falecimento do jornalista, político e ex-governador do estado da Guanabara, Carlos Lacerda, que entrou para a história como algoz dos ex-presidentes Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart. Lacerda ficou popularmente conhecido como o Corvo da Guanabara pela forma contundente como utilizava seu jornal, Tribuna da Imprensa, para lançar acusações e denúncias infundadas contra seus adversários políticos e desafetos. Entre outras “façanhas” dignas do lúgubre epíteto, Lacerda representou papel chave no episódio que culminou no suicídio de Getúlio Vargas. Em conspiração contra Juscelino Kubitschek, chegou a declarar abertamente que: “Juscelino não pode ser candidato; se for candidato não pode ser eleito e se for eleito não pode tomar posse”. De fato, Juscelino foi candidato e foi eleito, mas só tomou posse graças à firme intervenção legalista do Marechal Henrique Teixeira Lott, que acabou frustrando os planos de Lacerda. Contrariado nas suas intenções pelo presidente Jânio Quadros, que apoiara como candidato, Lacerda tornou-se seu opositor mais feroz, valendo-se do posto de governador da Guanabara para lançar iradas acusações contra o ex-aliado. Depois da renúncia de Jânio, tornou-se colaborador ativo na conspiração contra João Goulart, que culminou no golpe de 1964. Não há dúvida que, com sua perspicácia e retórica impecável, Lacerda valeu-se das liberdades democráticas para fazer oposição sectária aos governos de Vargas, Juscelino, Jânio e Jango, especialmente no que esses governos tinham de mais condizente com anseios de emancipação nacional. Por isso é que, juntamente com outros militantes da União Democrática Nacional (UDN), como Eugênio Gudin e Roberto Campos, acabou recebendo a comenda popular de “entreguista”. Na época, pela fama de “americanófilo” que adquiriu, Campos ficou conhecido no meio estudantil como “Bob Fields”. O apoio ao golpe militar acabou redundando numa espécie de “tiro pela culatra”. Lacerda parece ter subestimado o apego dos militares ao poder governante. Quando percebeu o erro e começou dar a eles o mesmo tratamento que costumava dispensar aos representantes civis caiu em desgraça. Foi cassado em seus direitos políticos e condenado ao exílio. Por ironia do destino, desfrutou então a companhia dos três jotas que anteriormente hostilizara: Juscelino, Jânio e Jango. No final de sua vida, tentou articular uma aliança com Juscelino e Goulart com vistas à redemocratização do país. Tornou-se assim pioneiro na construção de um movimento que só iria vingar cerca de vinte anos depois. A história de Carlos Lacerda não só constitui grande exemplo de mau comportamento ético na política como também serve para mostrar o valor da verdadeira democracia. Em ambientes democráticos, o embate político, mesmo que de maneira desleal, como fazia o “corvo da Guanabara”, é possível, embora não desejável; mas em regimes totalitários, a discordância com ideias e dogmas dominantes pode ser trágica, por mais construtiva que seja. Enfim, Lacerda aprendeu tarde demais uma grande lição, sintetizada na famosa máxima de Winston Churchill: “a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais que têm sido experimentadas de tempos em tempos”. (Publicado em A Razão de 30.05.2014)

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