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A glória na política

03/06/2014


Por: Nilton Bertoldo


“A glória é a medida de todas as coisas, a coroa de todas as virtudes.” Este pensamento de Frossart tem levado muitas almas estúpidas a grandes ações e tem custado muito caro a vários governos e a inúmeras nações. A sua dinâmica é terrível. Indivíduos singularmente estultos são presos de excessiva egocentricidade – e, como criaturas voltadas para si mesmas, se lançam a carreiras que levam à glória enquanto, como sujeitos alarves, demonstram raciocínio débil e muitas vezes se atiram a atividades para as quais não são absolutamente inclinadas. Realmente, podem fazer pior: quanto mais incíveis, tanto maior será, provavelmente, a sua ambição. Indiretamente, talvez sem querer, Spengler prestou um serviço à humanidade, trazendo à luz o eterno antagonismo entre o egocêntrico agressivo e o resto do mundo. Acredita em todos, no egomaníaco, no dinomaníaco, no quiromaníaco. Supõe que criaram poderosas culturas, levados pela “crença na sua estrela, que todo homem de ação nato possui, e que é algo completamente diferente da crença na exatidão de um ponto de vista”. Como Nietzsche, Spengler cultua a aristocracia do poder como somente um fraco pode cultuar a força. Mas, no seu culto, ele expõe a nu – inconscientemente, talvez – a ameaça desse poder que adora. Uma e muitas vezes, pinta o triunfo dos intelectuais sobre os aristocratas e o interpreta como a decadência inevitável das sociedades. Para ele, o cume da prosperidade, do esplendor e da dignidade humana foi atingido pelo senhor feudal. A pureza da riqueza está na grande propriedade. A decadência surge quando a riqueza e o poder estão espalhados em todas as classes. A cidade é o câncer da raça e mina toda tradição, que é a “força cósmica da mais alta capacidade”. A cidade, com suas fábricas e lojas e com a exploração do rebanho, é a ruína de um grande Estado. Pois um grande Estado é – diz Spengler – nada mais do que o domínio do sangue melhor. Um pouco mais de observação e de senso comum poderia ter transformado esta hipótese numa preciosa contribuição à ciência social, pois Spengler despreza muitas vezes e não pode ver que a decadência das aristocracias e dos principados inferiores se deve, de certo modo, à estupidez das classes governantes. Muitas das suas grosserias eram egocêntricas. Supunham-se o povo – e a sabedoria devia morrer com eles. Buscaram a glória e o poder impiedosamente – e, assim terminaram impotentes e sem glória. Chamando-se a si mesmos senhores da terra, eram apenas, realmente, crianças a brincar com casas de armar. Os estudos feitos, sob condições de controle, indicam que esta é uma tendência comum. Os espíritos inferiores se sobrepõem a si mesmos mais do que os superiores. Pessoas estúpidas, ignorantes, analfabetas, desqualificadas, criminosas, suspiram para entrar na política, almejando cargos bem remunerados, enquanto outras, competentes, inteligentes, preparadas, qualificadas, são muito astutas para se deixarem apanhar em desventura tão fatal, ou muito modestas para pensarem seriamente nessa possibilidade. Quando o homem ambicioso é um imbecil, ou pior, a sua sede de glória e a sua convicção de onipotência se elevam a temperaturas que dão lugar a conflagrações. Enquadram-se aqui vários políticos de todos os partidos. Considere-se Filipe II da Espanha. Desde o seu tempo, a Espanha perdeu todas as guerras das quais participou. E a glória que brilhou ante os olhos desse homem consciencioso, trabalhador e abstêmio, cujo corpo e cujos hábitos eram os de um monge e cuja mente era a de um burocrata? Era a “gloria in excelsis”, a glória de Deus e da sua Santa Igreja, cujo chefe era ele, Filipe da Espanha. Uma das ambições de Filipe era a de estender e de fortalecer o poder de Roma na guerra selvagem contra os protestantes. Nisto ele parece ter sido terrivelmente pessoal. Comparado com bombásticos furiosos como Mussolini, Filipe parece não ter tido amor à glória. Porém, isso não modifica muitas opiniões sobre ele – a exemplo da que se tem sobre muitos políticos – pois o seu apelo se projetou para o exterior, como em muitos outros ditos beatos. (Publicado em A Razão de 03.06.2014)

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