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O fanatismo na política - II

30/10/2014


Por: Nilton Bertoldo


Para o fanático político, sendo o seu conhecimento positivo de mando relativamente mínimo, significa que o mundo é menos real para ele e, cada vez mais, se torna o seu mundo de sonho. Muitas vezes, tende a tratar esse mundo como trata o seu mundo de sonho; faz do mundo um lugar onde seus desejos infantis se tornam realidade. Outrora, o indivíduo comum não podia brincar assim com o orbe, pois lhe faltava poder político e econômico para fazê-lo. Porém, atualmente, possui, mais ou menos esse poder. Eis por que a política e a moral pública se tornaram o campo de ação de sujeitos ignorantes, obsedados por noções infantilmente simples. Grande parte das leis sob as quais sofrem as republiquetas de bananas da América Latina, entre elas o Brasil, nasceu desses desejos infantis de homens que perderam todo o contato com as realidades maiores.

Ora, o que leva esses fanáticos à ação? Antes demais nada, os medos ou os ódios neles açulados por algo que eles, ou alguém, tomou conhecimento por determinado meio de comunicação: um fragmento de fragmento, em outras palavras! Resulta daí um julgamento fragmentário sobre esse fragmento de fragmento! Se essas pessoas jamais tivessem notícia de negócios perturbadores, não seriam compelidos à ação. Se pudessem ouvir muito sobre tais assuntos e pudessem estudá-los, muitos deles nada fariam ou fariam algo mais sensato. O desastre não se produz pela completa parvoíce nem pela total compreensão, mas pela informação inexata, que, por meio de uma ficção fácil e do hábito, chega a ser considerada exata. O poder desta ficção é, ao mesmo tempo, trágico e ridículo.

Amiúde, ouvem-se distintos cidadãos discorrerem, extemporaneamente, sobre as notícias do dia, em diferentes encontros sociais. Quase sem exceção, essas pessoas – muitas delas alimentam um delicado desprezo por certos informativos midiáticos – aceitam o que leram, viram e ouviram e, em todas as suas observações, evidentemente, admitem que o fragmento que tomaram do fragmento de sua fonte preferida seja, substancialmente, um quadro exato da realidade.

A ignorância emocionalizada, entretanto, não pode explicar mais de uma grande divisão do fanatismo. Todas as espécies de sutilezas do ambiente criam variedades menores – e em nenhum país há mais tenuidades do que no Brasil. O tremendo poder e a imensa voga dos fanatismos na América Latina podem, em grande parte, provir do intenso senso prático e da luta pelo sucesso. Um fanático é um sujeitinho que, incapaz de compreender qualquer ponto de vista que não seja o seu, é poderosamente levado a impor as suas convicções ao mundo. Difere do simples beato por ser impelido a fazer com que todos pratiquem o que ele prega. Este é, simplesmente, um homem de espírito estreito. Um fanático é um homem de ação e assaz  agressivo.

(Publicado em A Razão de 30.10.2014)



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