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O político medroso

07/05/2015


Por: Nilton Bertoldo


O medo é um modo de dominação muito complexa para ser analisado em parcas linhas. Muito mais do que o delicado frenesi da opressiva autoafirmação, o esforço imperfeito para vencer, que produz o medo, causa as piores espécies de parvoíces. Algumas são tão más, que se diz que o político assustado está em pânico e perdeu a cabeça. A descrição é exata, pois o medo é um dos mais terríveis estupefacientes, havendo mesmo quem vai mais longe e lhe atribua grande parte das principais infelicidades da raça, desde o totalitarismo até as neuroses sexuais. Às vezes, a vítima perde todas as coordenações afetivas e se torna tão indefesa como um paralítico. Novamente se dissocia, fixando-se em alguma característica da situação, mais ou menos à maneira de um histérico. Outras vezes se fixa, mas sem dissociação discernível, como fizeram os franceses, desde a Guerra Mundial.

Tão profundo e tão desalentador era o medo que os franceses tinham da Alemanha, que perderam toda a perspectiva e toda a flexibilidade de ação. Pode-se encontrar uma centena de episódios que o demonstram, como o que segue; desde o início de 1931, a Alemanha estava à beira do colapso financeiro – como, hoje, algumas republiquetas de bananas da América Latina: Venezuela, Argentina, Equador, Brasil, etc.; sinais ominosos há muito indicavam a possibilidade do seu completo colapso.

Os políticos franceses conheciam bem a gravidade da situação alemã. Entretanto, quando o Dr. Hans Luther tentou negociar um empréstimo francês com o “premier” Laval, exigiram-lhe uma virtual sujeição política da Alemanha, como condição primária para o auxílio financeiro. Muitos dos maus atos da França, desde 1918, derivaram do medo histérico dos políticos franceses, como ocorre atualmente no Brasil, à custa de muitos políticos medrosos. Estes são singularmente suscetíveis à fixação de ideias e, realmente são, mesmo quando livres de intensas emoções, escravos das suas próprias noções.

Isso implica em certa dissociação das realidades concretas, exatamente o inverso de vários intelectuais, que se fixam sobre os assuntos palpáveis do momento e esquecem os aspectos mais amplos dos problemas. Enquanto aqueles se esforçam para resolver os problemas, adaptando-se rapidamente às novas situações, o político medroso se deixa obsedar por uma ideia e, se o medo e o pânico o afeta, esquece tudo mais além dessa ideia.

(Publicado no Diário de Santa Maria de 1º de maio de 2015)



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