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Jornais criticam agora a política externa brasileira

14/07/2006

Rondon de Castro
Professor do departamento de Ciências da Comunicação da UFSM

A crise do gás, travada entre o Brasil e a Bolívia, trouxe uma mudança no comportamento da imprensa brasileira. Se antes, movida pela surpresa da vitória de um candidato de origem operária, enchiam-se os jornais com material que pretendia tirar o PT (e o próprio presidente da República) da suposta ‘pureza’ que ostentava até então, agora o alvo é o próprio papel de defensor da soberania nacional. O antigo discurso social petista foi solapado com os limitados resultados de uma política social pautada mais para agradar a direita e menos para a promoção de mudanças. Agora, a alça de mira está voltada para a fragilidade de uma política externa de alianças na América do Sul. E não só: de uma tacada são encostados na parede os defensores dos regimes populistas vizinhos do Brasil. A atuação de Evo Morales deu mais motivos à elite proprietária dos veículos de comunicação brasileiros. A política externa do Brasil hoje é o telhado de vidro dos atuais plantonistas do Itamaraty e a tão propalada liderança do Brasil na região nunca esteve tão distante. A raiz disso é que as elites não desejam riscos para seus investimentos. E qualquer governo com pintura de esquerda representa um sério perigo. Porém, desde sua eleição, Lula não tem dado motivos de preocupação, já que sua dinâmica de governo é fazer a “esquerda administrar o capitalismo melhor que a direita”. Paradoxal ou não, a estratégia impediu maiores impactos e, de alguma forma, em meio à estupefação na ausência de grandes ações, atenuou ataques dos jornais. Não é segredo que a mídia está nas mãos de pouco menos de 20 famílias no país, e que estas estão inexoravelmente integradas à elite econômica. Assim sendo, a eleição de um partido de esquerda representa risco ao status quo. No cerne da questão está a possibilidade de um ‘surto estatizante’ pela América. O fato de Lula ter respondido à ‘ofensa’ boliviana com o respeito do Brasil às decisões soberanas daquele país foram entendidas como adesão àquela política. Nada mais grave dentro da lógica capitalista. Igual a isso, somente a reforma agrária... O mais pobre país sul-americano deu à elite brasileira os motivos que comprometem a política externa lulista e atinge profundamente as intenções de uma possível reeleição. E isso interessa à elite. A esquerda desmontou a estrutura de resistência no movimento sindical. Somente assim, com a intenção de premiar a direita pela sua tolerância, Lula conseguiu resultados que a própria direita hesitava impor em áreas como previdência e tributária. A crise do gás abriu a torneira de críticas à política externa do Brasil, um dos únicos e expressivos trunfos do governo petista. E, mesmo que se resolva diplomaticamente, o caso está fadado a ser imortalizado pela imprensa. Nada mais sério com a aproximação das eleições. (A Razão, 15 de maio de 2006)


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