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A meritocracia

23/06/2008

Luiz Carlos Nascimento da Rosa
Professor do departamento de Metodologia do Ensino do CE

Nossos gestores públicos, por incrível que pareça, ainda são capazes de nos surpreender. O bom de suas surpresas é que, ao quererem demonstrar serviço, explicitam, claramente, suas posições políticas e ideológicas. Tornam claro suas posições a respeito da função do Estado na mediação das práticas sociais. O governo do Estado do Rio Grande do Sul e suas “reformas estruturantes” querem fazer economia em cima dos serviços prestados à população. O neoliberalismo, do governo gaúcho, quer imprimir políticas regidas pelas leis do mercado capitalista, para sistematizar e reger as relações de trabalho na Segurança Pública, na Educação e na Saúde. Segundo a Governadora e seus Secretários a saída para a qualificação dos serviços, será garantida através da implantação da chamada “Meritocracia”. Políticas meritocráticas, segundo o governo, irão garantir a revolução no trabalho dos servidores públicos em todas as esferas do Estado. Servidores são compreendidos como partes de uma engrenagem fabril. Uma Delegacia de Polícia, uma Escola e uma Unidade de Saúde deverão ter trabalhadores que assumam a voracidade das leis do mercado competitivo para garantir a elevação de salários e melhores condições de trabalho. Nós que trabalhamos com Educação, sabemos que nossas escolas já reproduzem o modus operandis do Capitalismo no interior da sala de aula e da escola, pois se privilegia, no processo pedagógico de ensino/aprendizagem, a classificação de seres humanos através de notas. Inclusive, salienta-se o merecimento através de diferenças cromáticas. O aluno com nota em azul, tem mérito e é candidato à “vencer na vida”. Aquele que é exposto no mural com nota em vermelho, é um fracassado e está fadado a viver eternamente na base da pirâmide social. A Meritocracia quer imprimir, nos espaços públicos, o trinômio da economia capitalista, quais sejam: eficiência, competitividade e produtividade. As Escolas, os Departamentos de Segurança e as Unidades de Saúde públicas garantirão sua eficiência e produtividade nos serviços prestados à população caso instalem mecanismos de competição. O salário e as condições de trabalho do servidor(da saúde e da segurança) serão definidos pelos números de atendimento e registro de ocorrência. O salário do professor e a qualidade das instalações das escolas serão balizados pelo número de alunos aprovados e melhores classificados nas provas aplicadas pelo Ministério da Educação. Os indicadores quantitativos são por si só, garantias de qualidade? O ensino/aprendizado de valores (tais como solidariedade e afetividade) que são fundamentais nos serviços de Saúde, Educação e Segurança, onde se encaixam nesta luta desenfreada de uma vida fundada pela competição? Educação, Saúde e Segurança Pública trabalham com ser humano e não com mercadorias. Parafraseando Charles Chaplin, podemos afirmar que não somos máquinas, gente é que somos. (Artigo publicado no jornal A Razão no dia 23 de junho de 2008)


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