A comunicação é ação estratégica para enfrentar as emergências climáticas SVG: calendario Publicada em 27/05/2026 SVG: views 110 Visualizações

A emergência climática costuma ser descrita a partir de números: aumento da temperatura média do planeta, frequência de eventos extremos, toneladas de carbono emitidas, cidades atingidas por enchentes ou estiagens. Esses dados são fundamentais. Eles dão dimensão ao problema e ajudam a orientar políticas públicas. Mas a crise climática também é uma crise de comunicação.

Não porque faltem informações. Vivemos, talvez, o momento de maior circulação de informações da história. Ainda assim, muitas pessoas sentem dificuldade em compreender como a emergência climática atravessa a vida cotidiana, modifica territórios, altera relações de trabalho, produz desigualdades e exige formas coletivas de ação. O desafio contemporâneo não é apenas informar sobre o clima. É construir sentidos compartilhados sobre o que estamos vivendo.

Nos últimos anos, vimos se intensificarem fenômenos extremos em diferentes regiões do Brasil. No Rio Grande do Sul, as enchentes de 2024 marcaram profundamente nossas cidades, instituições e famílias. Em situações assim, a comunicação assume um papel decisivo. Ela organiza fluxos de ajuda, orienta deslocamentos, produz memória e conecta pessoas. Mas ela também pode aprofundar distâncias, alimentar desinformação ou reduzir experiências humanas complexas a imagens rápidas de destruição.

Por isso, pensar a comunicação na emergência climática exige ir além da lógica do impacto imediato. Não basta apenas mostrar a tragédia. É preciso compreender os vínculos sociais, os territórios e as experiências cotidianas que dão sentido ao desastre. Quando a cobertura jornalística escuta moradores, trabalhadores, pesquisadores, lideranças comunitárias e movimentos sociais, ela ajuda a produzir algo fundamental em tempos de crise: reconhecimento mútuo.

A emergência climática não afeta todos da mesma forma. Existem populações mais vulneráveis, regiões historicamente negligenciadas e grupos que convivem há muito tempo com precariedades estruturais que se tornam ainda mais graves durante eventos extremos. Nesse contexto, a comunicação tem uma responsabilidade ética importante: tornar visíveis essas desigualdades sem transformar o sofrimento em espetáculo.

Ao mesmo tempo, a comunicação pode contribuir para fortalecer imaginários de futuro. Em muitos debates públicos, a crise climática aparece associada apenas ao medo, à catástrofe ou à sensação de inevitabilidade. Embora a gravidade da situação precise ser reconhecida, também é necessário construir narrativas capazes de mobilizar ação coletiva, solidariedade e compromisso de longo prazo.

Isso significa abrir espaço para experiências locais, práticas de cuidado, iniciativas comunitárias e formas de conhecimento produzidas nos próprios territórios. Muitas vezes, são essas redes cotidianas (os vizinhos, os colegas de trabalho, os vínculos de amor e pertencimento) que sustentam respostas concretas diante da crise. Comunicar também é aproximar essas experiências, permitir circulação de saberes e fortalecer capacidades coletivas de enfrentamento.

As universidades públicas têm um papel central nesse processo. Produzem pesquisa, formam profissionais, constroem extensão universitária e mantêm vínculos com diferentes comunidades. Mas também precisam refletir sobre como dialogam com a sociedade. A produção de conhecimento científico sobre mudanças climáticas é indispensável, porém ela se torna mais potente quando consegue estabelecer pontes com a vida cotidiana das pessoas.

Um dos maiores desafios da comunicação diante da emergência climática talvez seja justamente este: criar condições para que diferentes grupos sociais consigam se reconhecer como parte de um problema comum e, portanto, como parte de soluções possíveis. Nenhuma transformação estrutural acontecerá apenas por meio de dados técnicos ou decisões individuais isoladas. A construção de respostas mais eficientes e humanas depende da capacidade de produzir diálogo, escuta e ação coletiva.

Em nosso trabalho, temos nos esforçado para inserir a comunicação nos planos de contingência, nos protocolos de ação do poder público e nas formas de organização da sociedade civil. Defendemos que políticas públicas voltadas às emergências climáticas precisam considerar a comunicação como elemento estratégico: não apenas como instrumento de divulgação de informações, mas como dimensão fundamental da articulação social, da produção de confiança pública e da construção de respostas coletivas.

Quando a comunicação é tratada apenas como etapa final de um processo, limitada à emissão de alertas ou notas oficiais, perde-se a possibilidade de fortalecer vínculos entre instituições e comunidades antes, durante e depois dos eventos extremos. Comunicar, nesses contextos, também significa criar canais permanentes de escuta, reconhecer saberes locais, produzir informações acessíveis e garantir que diferentes grupos sociais consigam participar das decisões que afetam seus territórios e suas vidas.

Mais do que reagir às catástrofes, é preciso construir capacidades coletivas de prevenção, mobilização e cuidado. E isso depende, necessariamente, de processos comunicacionais consistentes, públicos e democráticos.

(* Docente do Departamento de Ciências da Comunicação, professora do PPG em Comunicação da UFSM. Integra os projetos “Comunicação de Proximidade: memória, resiliência e adaptação social a riscos climáticos” (Proext/Capes) e “Governança e multidimensionalidade dos riscos climáticos: abordagem multidisciplinar em Comunicação de proximidade, Interpretação geopatrimonial e Economia Ecológica aplicada aos Geoparques Unesco no Rio Grande do Sul”- Fapergs).

Sobre o(a) autor(a)

SVG: autor Por Laura Storch
Professora do departamento de Ciências da Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFSM