Trabalhadores: aprender o passado, compreender o presente e mirar o futuro SVG: calendario Publicada em 03/06/2026 SVG: views 90 Visualizações

O mês de maio é o mais propício para refletir sobre a centralidade e a importância do trabalho na sociedade. É do trabalho e da natureza que dependem a produção das imensas e variadas riquezas que satisfazem às necessidades diárias da coletividade humana. Nesse sentido, o primeiro ponto a ser ressaltado é o de que, no mundo, decididamente, os trabalhadores e suas famílias são a maioria.

No Brasil, por exemplo, cuja população é de 213 milhões, se somarmos a quantidade dos trabalhadores dos setores público e privado, a cifra ultrapassa 50 milhões de pessoas. Se acrescentarmos a esse número os mais de 20 milhões de aposentados pagos hoje pelo INSS – ou seja, trabalhadores que, no passado, contribuíram para a previdência e conseguiram se aposentar – o número ultrapassa 70 milhões.

Pensemos, ainda, nos mais de 55 milhões de estudantes – que são trabalhadores em potencial, ou seja, futuros trabalhadores em formação, que adentrarão o mercado de trabalho no momento oportuno – e então teremos 125 milhões de pessoas: um número que já ultrapassa em muito a metade dos brasileiros. Ainda podemos incluir aí os recebedores de pensão ou benefício (por situações que impedem o trabalhador de exercer sua atividade profissional ou por morte do responsável pelo sustento), que abrangem 10 milhões de pessoas, e então chegaremos aos 135 milhões.

Some-se a isso, agora, os quase 40 milhões de trabalhadores informais – que, embora ativos, não gozam de plena proteção trabalhista – e o número se aproxima de 175 milhões de pessoas. Não nos esqueçamos, por fim, dos mais de 9 milhões de desempregados e desalentados (que são força de trabalho de reserva), segundo os números oficiais, e a cifra se eleva: quase 185 milhões de indivíduos. Ainda que algumas das categorias citadas possam se sobrepor, a magnitude dessa população - que vive do trabalho, está na perspectiva de trabalhar ou impedida de fazê-lo - é esmagadora.

A população brasileira é composta, portanto, em sua absoluta maioria, de famílias de trabalhadores. Esses sujeitos, que têm no trabalho o seu meio direto ou indireto de vida, assim como seu horizonte socioeconômico, constituem uma realidade complexa e multifacetada, na qual se entrelaçam questões de classe, cultura, gênero e raça. No mundo todo, possivelmente, os números andam próximos disto - e os dilemas, com certeza, devem ser semelhantes.

Que todas essas pessoas se identifiquem como classe trabalhadora é outra questão. A ideologia dominante – que é, de fato, na maior parte do tempo, a ideologia da classe dominante – se encarrega de formatar a consciência dos trabalhadores a fim de fazer com que não se reconheçam como tais e vejam a si mesmos sob denominações diversas, cada qual mais suspeita que a outra: “funcionários”, “servidores”, “colaboradores”, “membros da equipe”, “parceiros”, “prestadores de serviços” e – sem dúvida, a pior de todas elas - “empreendedores”, usada, não raro, de modo inusitado, para designar os que vendem sua força de trabalho em atividades laborais precarizadas e quase desassistidas de direitos, como motoristas de aplicativos, entregadores etc.

Dessa forma, o conceito forte e historicamente politizado de trabalhador se dilui ou se esconde sob termos extravagantes e mistificadores, cujo sentido impede o sujeito que trabalha de se ver e se reconhecer em seu semelhante, isto é, naquele que ocupa, no exercício do labor diário, uma posição homóloga à sua. As diferenças de renda salarial, infelizmente, tendem ainda a contribuir para a confusão conceitual e a desidentificação.

Certamente, muitas lutas sociais, experiência política e elaboração cultural precisarão ser feitas para superar esse léxico obtuso que impregna a consciência e o discurso da classe trabalhadora. Essas lutas envolvem desafios defensivos, como salário, direitos sociais e trabalhistas, condições de trabalho etc., mas também afirmativos, no sentido de aumentar a participação política direta dos trabalhadores sobre as decisões que afetam o seu trabalho, a sua vida e a da sociedade em geral.

Consultar e se informar sobre a história das lutas da classe trabalhadora pode ser, a esse respeito, bastante elucidador e educativo. Isso significa aprender a respeito de como aqueles que vieram antes de nós – e a quem devemos as conquistas das quais gozamos hoje - se organizaram e se mobilizaram para defender os seus interesses práticos.

Se fizermos isso, talvez nos surpreendamos ao darmo-nos conta da grande força coletiva que temos, da riquíssima experiência que acumulamos, dos muitos obstáculos aparentemente intransponíveis que puderam ser vencidos e, sobretudo, de como toda a sociedade se move quando os trabalhadores, que a constroem e a sustentam sobre seus ombros, decidem se levantar e agir.

 

(Liliana Ferreira é professora do departamento de Fundamentos da Educação da UFSM e coordenadora do Kairós; Demétrio Cherobini é Pós-doutorando em Educação da UFSM e participante do Kairós).

Sobre os(as) autores(as)

SVG: autor Por Liliana Soares Ferreira e Demétrio Cherobini
Professora do departamento de Fundamentos da Educação da UFSM; Pós-Doutorando em Educação na UFSM