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07/01/2022   07/01/2022 18h12m   | A+ A- |   372 visualizações

Especialistas analisam riscos da nova onda de Covid-19 através da Ômicron

Alexandre Schwarzbold e Marcos Lobato alertam sobre vacinação de crianças e manutenção de medidas não farmacológicas

Após a vacinação de jovens a partir de 12 anos, imunização foi travada pelo governo Bolsonaro na faixa de 5 a 11 anos
Após a vacinação de jovens a partir de 12 anos, imunização foi travada pelo governo Bolsonaro na faixa de 5 a 11 anos

No início desta semana, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou uma avaliação em que diz que que a nova variante do novo coronavírus, a Ômicron, pela sua rapidez de contágio, deve se tornar predominante nas regiões em que está presente. Qual o risco para a população, tendo em vista que, pelos dados das últimas semanas, a variante já tem transmissão comunitária no Brasil, inclusive em Santa Maria, conforme divulgaram as autoridades?

Para Marcos Lobato, médico epidemiologista, professor da UFSM e que também atua na esfera pública municipal, já existem evidências que esta predominância ocorrerá, e com rapidez. Porém, destaca ele, dados indicam que a gravidade desta nova onda dependerá da cobertura vacinal. E acrescenta que “países como Portugal, que têm mais de 90% de pessoas com vacinação completa, tem aumento de casos, mas, a grande maioria é de quadros clínicos leves”. O epidemiologista explica que Portugal tem a menor média móvel de mortes entre países da União Europeia, que é a metade da de outros países como Alemanha e França, que têm pouco mais de 70% da população com vacinação completa.

Gráfico: Em novembro, a variante predominante em diversos países ainda era a delta

Alexandre Schwarzbold, médico infectologista, docente da UFSM, diz não ter dúvida de que a Ômicron vai passar a ser dominante, no Brasil, como já o é em diversos países. Segundo o professor, a nova variante tem uma velocidade de transmissão muito mais elevada que a outra variante, a delta, que já era uma variante bastante transmissora. Nesse sentido, comenta que tem certeza que teremos uma nova onda de Covid-19 no país, assim como no hemisfério norte, uma quarta onda. Ressalta, no entanto, que essa “quarta onda” tem características diferentes das anteriores.

Na análise do infectologista, que atua também junto ao setor de pesquisas do Hospital Universitário da UFSM (Husm), o Brasil ainda tem populações suscetíveis, tendo em vista a diversidade do processo vacinal dentro de cada estado, mas, principalmente, entre os estados e regiões. Portanto, avalia Schwarzbold, o país terá um processo de agravamento e hospitalizações nas próximas semanas.

“Há uma tendência de pressão no sistema de saúde, senão pelos quadros graves que vimos no passado, mas pelo excesso de atendimentos em prontos socorros e pronto atendimentos, exatamente pela demanda de pessoas com síndrome gripal”, frisa Alexandre Schwarzbold. “A percepção sobre a gravidade do problema nem sempre existe por parte das pessoas, e isso vai acabar pressionando o sistema”, avalia. Também preocupa o infectologista o provável absenteísmo de muitos profissionais de saúde, exatamente por haver transmissão entre profissionais, e por isso tem que se afastar por uma semana, gerando aumento da carga de trabalho dos demais.

Gráfico: Em janeiro, em países como Inglaterra e França, a Ômicron já é a predominante

Percentual de vacinação e os efeitos da nova variante

No atual estágio de vacinação em que o Brasil se encontra, com um percentual próximo, mas ainda abaixo de 70% da população com as duas doses, quais os riscos da nova variante, a Ômicron, causar estragos?

O médico e professor da UFSM, Marcos Lobato, entende que, além de um aumento de casos, de forma geral, o quadro que se poderá ter no Brasil, com um grande número de pessoas ainda não imunizadas, e com o percentual da terceira dose (reforço) na casa de 13%, é também um aumento de internações e mortes. O número de casos de internações e mortes, na avaliação do epidemiologista, provavelmente se dará na proporção próxima do que ocorreu nos países europeus com a mesma cobertura vacinal que o Brasil.

Pela ótica de Alexandre Schwarzbold, o diferencial em relação às ondas anteriores é justamente a atual fase de cobertura vacinal da população brasileira, que está quase na faixa dos 70%. Portanto, diz ele, em função desse quadro, há diferenças nas transmissões do vírus e também nas formas de manifestação clínica das pessoas que adquirem a doença. “O risco de agravamento é menor, mas não porque a Ômicron é uma variante que impõe menor risco, mas porque as pessoas estão mais protegidas em função da vacina. Essa é a função maior da vacina”, acrescenta o médico e professor da UFSM.

Schwarzbold complementa o raciocínio analisando que as vacinas também contribuem na redução da transmissão (do vírus), mas depende de vacina para vacina. Contudo, explica, os percentuais de redução na transmissão podem chegar de 30% a 40%. “Mesmo com a pessoa vacinada, ela pode infectar e transmitir a nova variante para outra. Mas, essas pessoas tendem a evoluir em uma situação bem mais favorável, sem necessidade de internação grave ou UTI”, destaca o infectologista.

Sendo assim, ressalta Alexandre Schwarzbold, a Ômicron tem essa diferença em relação às variantes anteriores, que é o fato de termos a “grande massa da população vacinada”. Contudo, alerta ele, é preciso observar que, mesmo entre vacinados existem pessoas sem o esquema vacinal completo, e que têm pessoas que já exigem uma dose mais alta, um reforço maior, que são as pessoas com comorbidades, as imunossuprimidas. E essas pessoas ainda são muito suscetíveis, mesmo tendo duas doses da vacina, sublinhou.

Como evitar novo agravamento da pandemia?

Para Marcos Lobato (foto abaixo), as medidas para evitar que a pandemia de Covid-19 volte a ficar crítica, gerando casos graves, alto número de hospitalizações, mortes, com sobrecarga do sistema são as mesmas sugeridas desde o início, em março de 2020: usar máscaras, álcool em gel, higienizar as mãos, evitar aglomerações, ampliar a vacinação, testar bastante e isolar casos e contatos.

Já o médico Alexandre Schwarzbold acrescenta que uma medida importante é manter a percepção e a informação na população de que a variante Ômicron, muito embora pareça não estar hospitalizando muita gente, pode gerar uma pressão no sistema de saúde, inclusive, agravando o quadro de muitas pessoas. “As pessoas devem se resguardar, evitar situações de exposição ao vírus, que leve a uma situação de vulnerabilidade”, aconselha ele. Para o infectologista, evitar aglomerações, festas como as de carnaval, é importante, pois esse tipo de cenário é ideal para que as pessoas se aglomerem sem proteção, se expondo ao vírus.

Para Schwarzbold, não há necessidade do que ele chama de “histeria sanitarista de isolamento completo”. Na avaliação dele, “temos que manter a vida do trabalho, a vida social, mas, procurar ter, em situações como essas, o uso da máscara, mantendo o distanciamento social”. Diz ainda que, devido à alta transmissibilidade da nova variante, é preciso valorizar muito mais o elemento da transmissão respiratória aérea, por isso, tendo cuidado com ambientes fechados, mal ventilados e com pessoas que não são conhecidas.

Importância da imunização de crianças

No atual contexto, de uma nova variante se tornando predominante, qual a importância de as crianças com idades de 5 a 11 anos serem vacinadas?

No entendimento de Alexandre Schwarzbold (foto abaixo), as crianças fazem parte da população que “precisa ser vacinada”. Dentre os motivos, ele cita que elas estão se tornando mais suscetíveis por serem as únicas a não terem sido vacinadas. “Temos visto um aumento de casos no hemisfério norte entre crianças. Inclusive, com caso de mortes. O risco se amplia com o retorno do período escolar, especialmente a partir da nova onda. Portanto, é fundamental que, antes do retorno às escolas, as crianças sejam vacinadas”, enfatiza o infectologista.

Segundo ele, quando se compara com outras doenças imunopreviníveis, hoje, a Covid já é mais comum nas crianças que as outras doenças. “Então, só isso já justificaria a vacinação dessa faixa etária de 5 a 11 anos. Para além disso, as crianças, ao serem vacinadas, podem contribuir para essa imunidade coletiva da população”, frisa o docente.

Sobre a relevância da vacinação, Marcos Lobato elenca, em primeiro lugar, que a vacinação evita novos caso e restringe a circulação do vírus em função do aumento da proteção coletiva. “Mesmo que estas (crianças) transmitam menos que os adultos, ainda existe risco de transmissão”, pondera ele. E acrescenta: “o outro motivo para vacinar é para proteger as próprias crianças”.

O epidemiologista também apresenta dados do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC), que mostram que, até outubro de 2021, mais de 8,3 mil crianças entre 5 e 11 anos internaram, sendo que perto de 100 dessas crianças morreram por Covid-19. Para o CDC, explica Lobato, a Covid-19 está entre as 10 principais causas de óbito em crianças nesta faixa etária. Por outro lado, diz o médico, o CDC se refere quanto a efeitos colaterais graves devido à vacina, que a miocardite ocorreu apenas em pessoas entre 12 e 17 anos. Dentre as crianças e adolescentes de 5 a 17 anos que receberam a vacina, não há relatos de óbitos.

O professor Marcos Lobato fez questão de apresentar os links dos quais ele buscou dados citados na entrevista, que reproduzimos a seguir. Alguns gráficos que constam da matéria também são resultado da pesquisa efetuada por ele.

https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/vaccines/recommendations/children-teens.html

https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/vaccines/recommendations/children-teens.html?CDC_AA_refVal=https%3A%2F%2Fwww.cdc.gov%2Fcoronavirus%2F2019-ncov%2Fvaccines%2Frecommendations%2Fadolescents.html

https://ourworldindata.org/explorers/coronavirus-data-explorer

 

Texto: Fritz R. Nunes
Imagens: EBC, Sedufsm e Sindbancários. Gráficos- arquivo pessoal do prof. Marcos Lobato
Assessoria de imprensa da Sedufsm

 

Fotos da Notícia

Após a vacinação de jovens a partir de 12 anos, imunização foi travada pelo governo Bolsonaro na faixa de 5 a 11 anos Professor Marcos Lobato Em novembro, a variante predominante em diversos países ainda era a delta Neste início de janeiro, em países como Inglaterra e França, a ômicron já é a variante predominante Professor Alexandre Schwarzbold

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