Devemos nos inspirar no senso de coletividade das comunidades indígenas, defende jornalista ambiental
Publicada em
09/06/26
Atualizada em
09/06/26 16h53m
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Paulina Chamorro fala sobre a cobertura das pautas ambientais na edição nº 114 do Ponto de Pauta
Como a população das cidades pode se inspirar na experiência dos povos indígenas para tentar deter o colapso ambiental que a ciência prevê, caso não se consiga evitar os mais graves cenários provocados pelas mudanças climáticas? Para Paulina Chamorro, ativista e jornalista especializada em meio ambiente, com quase três décadas dedicadas à cobertura socioambiental no Brasil e na América Latina, o que as pessoas que vivem em ambientes urbanos precisam aprender com os povos originários e outras comunidades tradicionais é o “senso do coletivo”.
A força da coletividade indígena que se mobiliza por questões que não impactam apenas suas vidas diretamente, mas beneficiam à todas e todos. Como aconteceu recentemente com a defesa do Rio Tapajós, quando cerca de 2 mil indígenas (com participação também de ribeirinhos e pescadores) ocuparam por 32 dias o terminal portuário da Cargill em Santarém (PA). As manifestações e protestos, especialmente dos povos Munduruku, Arapiuns e Tupinambá, levaram o Governo Federal a revogar o Decreto nº 12.600, que incluía o rio no Programa Nacional de Desestatização e o transformava num corredor para grãos, impactando a sua preservação e ameaçando a biodiversidade e a segurança das comunidades. “Não se consegue conceber uma vida quando o rio morre. O rio faz parte da essência das pessoas. É como se pensa (indígenas pensam)”, declara Paulina.
A jornalista já entrevistou as principais lideranças indígenas do país em seu podcast Vozes do Planeta. “Toda vez que escuto a voz de uma liderança indígena, para mim é como se fosse a importância de estar ouvindo o peso do mundo”. O programa se consolidou como referência na área, trazendo também entrevistas com cientistas, ativistas, pesquisadores, artistas e especialistas que ajudam a compreender os desafios do nosso tempo e que dedicam suas vidas à defesa do planeta.
Ir a campo para uma história completa
As entrevistas em estúdio são apenas parte do trabalho, assim como o podcast. Paulina percorre o país visitando os biomas e participando de expedições. E por isso se sente privilegiada. “A diferença de você fazer uma entrevista, às vezes, só do escritório, em que você vai em um assunto específico. Quando você tem a oportunidade de estar em campo convivendo com essas pessoas acaba entendendo muitos elementos, como propósito de vida, desafios diários, o próprio ambiente. Estar em campo é ter a oportunidade de poder contar uma história completa”.
Mas esta presença algumas vezes pode ter um custo muito alto. O Brasil é o quarto país que mais mata ativistas ambientais no mundo. Ser protagonista na defesa ambiental é muitas vezes confrontar interesses de grandes e poderosas empresas, de posseiros e latifundiários. “Fazer jornalismo em campo não é fácil, dependendo de alguns assuntos no Brasil também não é seguro”, alerta Paulina. Embora ela própria nunca tenha passado por uma situação de violência, viu isso acontecer com outros jornalistas e fontes. “Infelizmente, já entrevistei muita gente [que sofreu violência] e algumas delas que foram, inclusive, mortas”, desabafa, contando que colegas que moram em territórios de conflito são extremamente ameaçados, cotidianamente. Os acordos para proteger a vida de pessoas é muito mais lento do que a velocidade em que se vê a violência no campo, explica a jornalista. A saída? “Como muitas das outras coisas que acontecem, a solução é política, e não é só partidária que estou falando. Quando a gente cria um Congresso firme, que incentive a defesa da vida, quando você vê que a questão ambiental não é uma questão partidária, mas sim política.”
Mulheres na Conservação
Por outro lado, as incursões pelo país também levam ao contato com pessoas e histórias que despertam o encantamento. Foi assim que nasceu o projeto multimídia Mulheres na Conservação, em parceria com o fotógrafo João Marcos Rosa, quando ambos perceberam, em 2019, que a “grande maioria” dos projetos de conservação no Brasil foram criados e são realizados por mulheres. O projeto iniciou como websérie, podcast e reportagens para a National Geographic. Em 2023 virou documentário e agora estão produzindo um segundo filme focado no trabalho de mulheres que atuam exclusivamente na Amazônia.
“Estamos num dos países mais biodiversos do mundo e a gente tem o problema de gênero. Os grandes projetos de conservação estão na mão de mulheres, os de longo prazo e sucesso estão sendo tocados por elas. Existia um espaço para ser preenchido na comunicação que serve ao exemplo, para a inspiração. Como a gente pode criar novas gerações que não têm como referência as mulheres que também protegem a natureza, que sobem em árvores para instalar ninhos, que marcam onças, que mergulham para fazer contagem de baleia? Então, a gente entendeu que fazer uma série com mulheres nos mais diferentes biomas poderia ser uma espécie de álbum de figurinhas mesmo, para mostrar não só para as meninas, mas também para meninos para que tenham referências de grandes mulheres na conservação desse país”.
A entrevista completa com a jornalista ambiental Paulina Chamorro pode ser conferida no canal da Sedufsm no Youtube ou no Spotify. Faz parte dos conteúdos especiais produzidos pela seção sindical em maio deste ano e que pautam o mundo vivo, a partir do reconhecimento de que não há dignidade humana sem um ambiente saudável.
Texto: Jefferson Pinheiro
Produção, entrevista e apresentação do Ponto de Pauta: Jefferson Pinheiro
Imagem: Italo de Paula
Assessoria de Imprensa Sedufsm
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