O importante é acreditar SVG: calendario Publicada em 17/12/2025 SVG: views 254 Visualizações

Sempre falei que quando eu tivesse um filho eu não mentiria para ele sobre o Papai Noel. Acho que, para mim, essa história sempre foi mais assustadora do que mágica: sou uma criança nascida e criada em Candelária, nos anos 1980 e lá, nesta década, morava um Papai Noel bem magrinho, que, ao invés de uma barba, usava uma máscara de plástico bem mal feita sobre o rosto. Lembrando, eu até consigo achar graça, mas não era bem esse o sentimento na época. Hoje, as crianças, aquelas que têm o privilégio de ir ao shopping, têm também o privilégio de terem o seu imaginário povoado por um Papai Noel fofinho, sentado em meio a uma decoração bonita, luzes, que tira foto e oferece balas.

Naquela época, o bom velhinho vinha com uma varinha, que não era para bater efetivamente, mas para assustar e conferir quem tinha obedecido de verdade: coisas que só os anos 1980 foram capazes de proporcionar! Era criança correndo para todo lado, chorando, até tomar coragem de ver no que, efetivamente, tinha resultado o seu bom (ou nem tão bom) comportamento. E, por fim, ainda tinha um descompasso bem difícil de entender. A conta não fechava muito bem e não necessariamente era o mais bonzinho, que ganhava o melhor presente.

Assim, além de assustador, eu achava também intrigante. Pensei então que seria melhor deixar meu filho fora dessa história do bom velhinho. Os anos foram passando e resolvi ficar no meio do caminho: contei apenas que se trata de um personagem, uma lenda, mas ele faz lá as cartinhas dele. Bem longas, inclusive. E eu que lute. O fato é que a vida adulta ainda nos apresenta alguns Noéis pouco amistosos, assustadores até, mas a vontade que dá, depois de um ano de rotina apressada, excesso de trabalho, pouco tempo para o descanso e tanta coisa que nos revira os olhos e o estômago é de ter uma figura fofinha para endereçar alguns pedidos.

De qualquer forma, para fazer uma lista basta desejos (ou necessidades), papel e caneta. E isto eu tenho bastante por aqui. Então, segue a minha cartinha. Os pedidos não são brinquedos, muito pelo contrário. 

  1. O primeiro pedido, por exemplo, é seríssimo, mais do que sério é triste. É um pedido amplo, e nele caberiam tantos, que ocupariam a lista toda e muito mais: peço pela vida das mulheres. É um pedido que é quase uma prece, uma reza, que quem acredita, joga para o alto, pela falta de um melhor endereçamento. Vocês também têm se perguntado o que está acontecendo? Na mesma medida em que aumenta o meu receio de abrir uma rede social e me deparar com manchetes, a cada dia, mais inacreditáveis e mais cruéis, aumenta o meu medo de sair na rua sozinha, de me exercitar em espaços públicos, por um único e cabal motivo: ser mulher. Em 2025, mais de 2,7 mil mulheres sofreram tentativas, enquanto 1.075 morreram vítimas de feminicídio. Morreram por serem mulheres. Fora as subnotificações, fora outras formas de violência, fora tudo que cada uma de nós já viveu e que virou trauma, dor e uma memória, que preferíamos como esquecimento.
  2. O segundo pedido é de atenção com as crianças, especialmente com as crianças atípicas. Eu teria tanto para pedir aqui neste tópico, mas quero conseguir falar do meu caso específico para o geral. É evidente que meus pedidos de Natal surgem dos meus próprios sapatos apertados, daquilo que me fere a pele. Mas sei de uma infinidade de famílias que sofrem pela falta de acolhimento, de humanidade, e de políticas públicas. Papai Noel, ou seja lá quem estiver recebendo estes pedidos, zele pelas crianças, zele mais ainda pelas crianças atípicas e amoleça o coração de quem pensa que nunca foi criança.
  3. O terceiro pedido é de tempo compartilhado. Quem é que caiu na balela de que o mundo digital nos aproximaria das pessoas? Quanto tempo a gente demora para estarmos com quem amamos? Quantas mensagens de trabalho e de rotina eu passei na frente antes de perguntar: você está bem? Antes de dizer: estou com saudades, me conta da sua vida. Nos últimos meses, eu criei uma política pessoal: aos domingos eu pergunto nos grupos de whatsapp dos mais chegados “Como estão?”, "Como passaram o final de semana?”. Uma em cada seis pessoas no mundo sofre com solidão. As relações se dão em uma única estrada e decidi caminhar mais pelo encontro e do que na contramão e, pelo menos aos domingos, mas sempre, eu vou continuar querendo saber “está tudo bem com você?”.     
  4. Em quarto, e último lugar, queria pedir um pouco mais de tempo perdido, só passado mesmo, ponteiros que cruzam o relógio sem a pressa de que já estamos atrasados ou que avançaram sobre os compromissos e de que, mesmo com toda a correria, não conseguimos dar conta de tudo. Queria um tempo mais manso, com mais cara de domingos e de férias de verdade. Tempo pra jogar conversa fora. Curioso como escolhemos expressões negativas para o tempo do ócio. Qual será de fato o tempo perdido e qual será de fato a conversa posta fora? 

Falando em tempo, será que ainda cabe mais um pedidinho? Se não der para o Natal, poderia, quem sabe, colocar junto com os desejos de ano novo, entre as uvas, a lentilha e os pulinhos de onda. E se onde passa boi, passa uma boiada, eu vou pedir um, mas que são vários: delicadeza, generosidade, respirar fundo, dançar pelo menos um pouco, aprender uma coisa nova, mais ternura e menos ranço. Ouvir de verdade quando teu filho te pedir: me abraça? forte? Com toda a força que há no meu coração. E, prometo que é o último pedido, coragem para acreditar - não nos Papais Noéis, sejam os bizarros dos anos 1980, sejam os mais gourmet dos anos 2020 - mas na força do pedido e na capacidade do encantamento. Faz tua lista, cruza os dedos, procura uma estrela bem brilhante no céu, aperta os olhinhos, pede e acredita.

 

        

 

Sobre o(a) autor(a)

SVG: autor Por Juliana Petermann
Professora Associada do departamento de Ciências da Comunicação da UFSM

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