Desigualdades de gênero e raça atravessam docência e demandam políticas de apoio e reparação SVG: calendario Publicada em 01/04/26
SVG: atualizacao Atualizada em 01/04/26 21h42m
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Sedufsm promoveu Seminário "Universidade que Queremos" com as docentes Fernanda Staniscuaski (UFRGS) e Ana Luisa Araujo de Oliveira (Univasf)

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Desde 2021, a Plataforma Lattes criou um campo onde é possível registrar os períodos de licença-maternidade e licença adotante, tirando da invisibilidade o fenômeno da maternidade e possibilitando que os ‘buracos’ temporais produtivos sejam explicados e nomeados. A partir de 2023, a Plataforma Sucupira também passou a permitir esse registro.

Ambas as conquistas foram provenientes da mobilização do Parent in Science, grupo de cientistas que discute a parentalidade dentro da academia e ciência brasileiras. A fundadora e coordenadora do movimento, Fernanda Staniscuaski, esteve na UFSM na noite da última terça-feira, 31 de abril, a convite da Sedufsm, para participar da terceira edição do seminário “Universidade que Queremos”.

Ela, que é docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), debateu, ao lado da professora Ana Luisa Araujo de Oliveira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), os impactos de gênero e raça na carreira docente.

Efeito tesoura – Fernanda destacou que as mulheres são a maioria nos cursos de graduação e pós-graduação das universidades brasileiras. Contudo, essa proporção não se mantém quando olhamos para os cargos de topo ou bolsas de produtividade. Há um momento na vida dessas mulheres em que elas ficam para trás, produzem menos e, consequentemente, recebem menos recursos para desenvolver novas pesquisas, ingressando num ciclo vicioso que acaba por alijá-las dos lugares de maior importância e atrasar sua progressão na carreira. Esse momento ocorre, em média, aos 32 anos, que é quando costumam nascer seus primeiros filhos e filhas.

A partir daí, a trajetória profissional dessas mulheres costuma entrar em declínio ou mesmo estagnar, visto que elas passam a ser responsáveis – se não sozinhas, ao menos mais sobrecarregadas – pelo cuidado com as crianças. Para Fernanda, há razões profundas, relacionadas a estereótipos de gênero, que explicam por que a maternagem é excessivamente creditada às mulheres. “Desde pequenas, aprendemos que existem profissões de homem e profissões de mulher”, explica a docente, ressaltando que não é por falta de capacidade ou ambição que poucas mulheres assumem cargos de importância ou bolsas de produtividade após serem mães. É, justamente, porque as responsabilidades com a criação e cuidado dos filhos recaem sobre elas. Dados coletados nos Estados Unidos, mas que certamente têm correspondência no Brasil, diz Fernanda, apontam que, após a chegada do primeiro filho ou filha, 43% das mães abandonam a carreira em ciência, contra 23% dos pais.

Por isso, acrescenta, o Parent in Science busca, principalmente, fomentar políticas de apoio às mulheres, a fim de alcançar um ambiente científico mais justo, igualitário e diverso.

Em novo estudo realizado pelo grupo, em colaboração com Oxford Brookes University, 70% das e dos entrevistados afirmaram não ter conhecimento de qualquer política de apoio à parentalidade em suas instituições. A mesma pesquisa, baseada na análise de currículos Lattes, revelou que o impacto negativo na ocupação de cargos de liderança foi de 51,3% para as mulheres e de 25,2% para os homens.

Racismo institucional 

“É surpreendente a engenharia construída para negar direitos à população negra. E isso tem nome: racismo institucional”. A fala é de Ana Luisa Araujo de Oliveira, docente da Univasf, que dividiu a mesa de debates com Fernanda Staniscuaski. Ela, que foi nomeada no concurso público para docente em julho de 2022, só conseguiu tomar posse cinco meses depois, após judicializar a negativa da universidade.

Ela foi a primeira professora negra a ser empossada na universidade após a aprovação da Lei de Cotas Raciais - Lei nº 12.990/2014, que estabelecia a reserva de 20% das vagas em concursos públicos para provimento de cargos efetivos e empregos públicos às pessoas negras. Posteriormente, a lei foi revogada e, em seu lugar, vigora atualmente a Lei nº 15.142/2025, que amplia para 30% a reserva de vagas, e acrescenta como beneficiárias pessoas pardas, indígenas e quilombolas.

Contudo, 12 anos após a primeira Lei de Cotas nos concursos, há universidades que até hoje não implementaram efetivamente esse direito, alicerçando-se em mecanismos de burla da lei, como não publicidade da norma; fracionamento de elegíveis; fracionamento do cargo por descentralização; fracionamento do cargo por localidade; fracionamento do cargo por editais e fracionamento do cargo por área.

Para combater os mecanismos de racismo institucional que obstaculizam o acesso de negros e negras a cargos públicos, foi criado o Observatório de Ações Afirmativas (Opará). E isso se faz necessário porque hoje, na docência das universidades federais, apenas 12,9% são mulheres negras, frente a 37,61% de homens brancos e 32,37% de mulheres brancas. 

Neila Baldi, diretora da Sedufsm, publicizou um dado alarmante: das 656 vagas docentes efetivas em 10 anos de Lei de Cotas na UFSM, apenas 7 foram ocupadas por docentes cotistas. Isso representa 1% das vagas. Outros dados trazidos pela dirigente dizem respeito aos afastamentos pedidos por docentes mulheres na universidade. Segundo dados da Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas, entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2025, 30 professoras do Magistério Superior solicitaram licença por motivo de doença em pessoa da família. A média de dias em que essas mulheres passaram afastadas foi 39.

Para Neila, é preciso pensar a questão do cuidado para além da licença-maternidade: quando se afastam para cuidar de filhos, filhas ou outras pessoas da família, elas são impactadas em suas carreiras e não há quaisquer políticas compensatórias nesse sentido. "As normas são feitas de homens brancos para homens brancos", critica. 

E quais os caminhos? 

Quando o assunto é parentalidade na ciência, há uma série de políticas de apoio que podem ser implementadas, a exemplo da "cláusula de maternidade", adotada por agências de financiamento e universidades brasileiras para ampliar o intervalo de avaliação dos currículos em, pelo menos, dois anos por filho(a) nascido(a) ou adotado(a) no período avaliado. Outra ação, essa voltada aos concursos públicos, é a adoção de um fator de correção da pontuação para candidatas que comprovem gestação, maternidade e/ou adoção nos últimos seis anos. No que tange à progressão funcional na carreira, há iniciativas, como a da UFRGS, que, no interstício avaliado, reduz as pontuações mínimas e a pontuação total de forma proporcional ao tempo que a/o docente esteve em licença gestante, adotante, paternidade ou tratamento de saúde superior a três meses

Já como ações para o enfrentamento ao racismo institucional e estrutural, Ana Luisa trouxe as seguintes propostas: 

- implementar a lista única de candidatos à reserva de vagas (por tipo de concorrência), de acordo com a classificação no provimento do cargo efetivo (criado por lei);

- implementar bancas examinadoras com diversidade;

- ampliar a transparência em avaliações discricionárias;

- promover letramento racial para integrantes das comissões organizadoras de concurso público; 

- indicação de perfis interdisciplinares, considerando a interdisciplinariedade;

- permitir a posse de candidatos cotistas com mestrado, em caso de ausência de candidatos com doutorado;

- redistribuição e aproveitamento de concursos realizados a partir de instituições que implementam as cotas;

- reparação das vagas que não foram ofertadas ou ocupadas. 

"Universidade que Queremos" - Essa foi a terceira edição do seminário "Universidade e Sociedade". A primeira ocorreu em abril de 2024, com participação da ex-reitora da UFRGS, Wrana Maria Panizzi, e do professor aposentado do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp, Renato Peixoto Dagnino. Já a segunda edição ocorreu em 2025, em parceria com os segmentos de estudantes e técnico-administrativos em educação da UFSM, e contou com a contribuição da professora Márcia Barbosa, reitora da UFRGS. 

O seminário da última terça-feira ocorreu no auditório Wilson Aita, tendo sido transmitido ao vivo pelo canal de Youtube da Sedufsm. Quem perdeu, pode assistir ao debate na íntegra abaixo:

 

 

Texto: Bruna Homrich

Fotos: Nathália Costa

Assessoria de Imprensa da Sedufsm

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