Universidade e Resistência
Publicada em
02/04/2025
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O Estado de exceção produzido pela ditadura que se instaurou no Brasil, em 1964, tornou-se o tutor da vida social, fazendo sua presença acontecer em todos os níveis das organizações civis, políticas, econômicas, educacionais e religiosas.
Viver como aluna de Filosofia, a partir de 1966, e mais tarde, como professora, em 1973, num ambiente universitário, imerso nessa conjuntura de temores e interditos, foi uma experiência singular. Os professores de Filosofia, em sua maioria, padres palotinos, recém-chegados de universidades europeias, eram a expressão de um oásis da inteligência crítica e um exemplo de não submissão aos ordenamentos ditatoriais. Estimulavam bons debates nas aulas e a busca por autores de pensamento avançado, inclusive colocando a Biblioteca de seu Seminário à disposição dos alunos da Universidade.
A reitoria, administradora de um órgão público, cumpria os rituais das ordens e determinações chegadas de Brasília. No prédio central, havia uma sala ocupada por um representante efetivo do governo de exceção, cuja tarefa era cuidar para que o “perigo vermelho” não fosse uma ameaça para a juventude e seus mestres. Era uma Universidade Pública, vigiada e observada, de todas as formas e modos pelo Panóptico militar, protetor da Pátria.
Cabe lembrar, aqui, a frase que ficou famosa publicada num texto clássico de Marx, do século 19, ao analisar o golpe de Estado, praticado por Napoleão III: “A história acontece como tragédia, e se repete como farsa”. A ditadura militar, apoiada por civis, evidenciou essas duas dimensões. Tragédia e farsa alternavam-se, segundo o desejo dos generais de plantão. Para os mais atentos, era visível. Essa realidade, no entanto, nem sempre foi entendida com clareza pela população, nem mesmo pela comunidade universitária, que em alguns setores se deixava seduzir pelo milagre brasileiro e seus desdobramentos como o Projeto Rondon.
Quando temos convicção em princípios e valores, como liberdade e igualdade, a coerência é imprescindível. Daí o não compactuarmos com autoritarismos e perseguições, oriundos de um governo que tomou a República de assalto.
Os anos de chumbo da ditadura foram os mais assustadores, embora na UFSM, houvesse uma espécie de amálgama a serenar as inquietações estudantis, uma vez que os jovens universitários eram considerados disciplinados e estudiosos. O Diretório Central, nesse tempo, sempre foi liderado por estudantes alinhados ao sistema. Um deles presidiu o DCE, tornando-se mais tarde Reitor, cumprindo seu objetivo de projeto de poder, manifestado na ocasião, ao assumir a presidência do Diretório Central.
Se pudermos ficar nos conceitos mais amplos, podemos afirmar que na circunstância do regime militar, em nosso País, a Razão de Estado sempre se sobrepôs à Razão dos saberes científicos, tecnológicos, educacionais, culturais e comunitários. As subjetividades ficaram aprisionadas nos parâmetros institucionais, limitadas pela censura dos donos do poder, circunscritas às determinações do regime imposto.
Ao prestar concurso público de títulos e provas, em 1973, como a segunda mulher a lecionar Filosofia, constatei de perto as discriminações de gênero e escolhas temáticas de minhas aulas. Lecionava Filosofia Moderna e Contemporânea, portanto, não tinha como ignorar os autores desses períodos e os temas abordados. Vivi, nesse tempo, o período mais intimidatório de um gestor, que substituiu o reitor fundador, pelo seu obscurantismo e preconceito. Até hoje soa em minha mente uma frase dita por ele, ao referir-se a um líder docente: “Temos que tirar esse negro comunista da presidência da Associação dos Professores”.
Os meus orientandos de Mestrado não eram alunos vistos com aprovação por parte de alguns colegas, ainda que estudiosos e competentes em seus argumentos. Fizeram, posteriormente, suas carreiras universitárias com brilhantismo.
Ao cumprir meu tempo de trabalho e me aposentar, percebi entre vários colegas um certo alívio, sairia a última mulher, uma vez que minha colega já havia se aposentado. Saí tranquila como entrei, pois não fora beneficiada por nenhuma indicação de autoridades para lecionar filosofia.
Vindo para Porto Alegre, fui selecionada na Unisinos, onde fui acolhida com dignidade e respeito. Continuei orientando mentes jovens e inquietas diante de uma realidade difícil nesses tempos atuais. Tive oportunidade de fazer meu Pós-Doutorado na Sorbonne, onde compreendi de perto o maio de 68 aqui e lá.
Essa espécie de depoimento, em 2025, quando a sombra da intolerância ameaça nosso país, tem a intenção de compartilhar experiências e propor ações éticas e políticas que fortaleçam a generosidade da inteligência resistente, com vistas a uma cultura da paz.
Sobre o(a) autor(a)
Professora aposentada do departamento de Filosofia da UFSM