(Ir)Responsáveis? A Extrema Direita Que Está Entre (Em) Nós SVG: calendario Publicada em 21/10/2026 SVG: views 43 Visualizações

A sociedade brasileira passou grande parte do século XX convivendo com o autoritarismo e com práticas autoritárias em seu cotidiano. Nesse processo, houve movimentos antidemocráticos, ações golpistas e duas ditaduras: o Estado Novo de Getúlio Vargas (1930 a 1945) e o regime civil-militar (1964-1985).

Autores defendem que essa é a característica da sociedade brasileira, pois moldada por legados, “marcas” ou culturas políticas que perpassam o tempo, regimes políticos, mudanças sociais e ciclos econômicos. Isso explica determinados comportamentos e escolhas políticas.

Marilena Chaui por exemplo, destacou que as representações que estruturam a ideia de Brasil e da sociedade brasileira (desde a colonização) se organizam a partir de um mito fundador que naturalizou a desigualdade, a violência social e o autoritarismo (Brasil: mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2007).

Apesar disso, o último regime autoritário findou em meados dos anos 80 a partir da construção de um novo pacto político e de novas coalizões que deram forma e governabilidade à Nova República. Em termos democráticos, o país passou a viver um período de estabilidade. Apesar de crises conjunturais, criou instituições consolidadas, manteve uma economia relativamente estável (sobretudo após o Plano Real em 1994) e, resultado da implementação da Constituição de 1988, melhorou os índices de redução de desigualdades com a efetivação de políticas sociais que equilibraram o acesso à saúde (Sistema Único de Saúde, SUS), à educação, à cultura e a direitos básicos para a população e grupos em situação de vulnerabilidade.

Desde a redemocratização, em nenhum momento, em nenhuma situação e em nenhum governo, a democracia esteve sob ameaça ou em causa, tanto que o arranjo institucional e social que garantiu a Nova República foi suficientemente coeso para: 1 - suportar a pressão popular por eleições diretas e a frustração da derrota no Congresso Nacional da emenda Dante de Oliveira em 1984; 2 - garantir a posse e o mandato de José Sarney como presidente em 1985 (e não de Tancredo Neves, como previsto e acordado); 3 - resistir à grave crise econômica e inflação nos anos 80, resultado, entre outros fatores, do endividamento do país (principalmente junto ao Fundo Monetário Internacional, FMI); 4 - acolher as demandas e mobilizações dos “invisibilizados” no processo da nova Constituição outorgada finalmente em 1988; 5 - manter as eleições presidenciais pelo voto popular em 1989 (mesmo com o risco de Lula ou de Leonel Brizola vencerem); 6 - enfrentar todas as denúncias de corrupção e descrédito no sistema político e minimizar o impacto do confisco dos recursos depositados como economias de grande parte da população no mandato de Fernando Collor de Mello; 7- defender o sistema político mesmo com as gigantescas manifestações de rua na campanha do "Fora Collor" e no impedimento de Collor em 1992; 8 - permitir a implementação do "Plano Real", o arrocho salarial e as privatizações durante os governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso; 9 - suportar a vitória de Lula e sua reeleição; 10 - assegurar as vitórias de Dilma Rousseff  (mesmo com a contestação dos resultados pelo PSDB de Aécio Neves em 2014 com um pedido de "auditoria especial" junto ao Tribunal Superior Eleitoral questionando a segurança e confiabilidade das urnas eletrônicas).

Mas, o pacto conciliatório que viabilizou a transição e sustentou todas as ondas de instabilidades que seguiram não anulou as forças conservadoras e autoritárias. O cenário mudou a partir da segunda década do século XXI, quando um novo tipo de arquétipo político, que poderíamos definir como uma direita populista conservadora extremada, até então inexpressiva,, mas articulada, assumiu posição política relevante e influiu decisivamente na desestabilização não apenas do sistema político mas das estruturas institucionais como um todo.

A “caixa de Pandora” na política foi aberta a partir das “Jornadas de Junho”, ondas de protestos e mobilizações, sendo potencializado com a Operação “Lava Jato” que, ao apurar denúncias de corrupção, criminalizou o conjunto da política institucional. Depois disso, a política adentrou em um liquidificador: impedimento de Dilma Rousseff como presidente da república em 2016; prisão de Lula em 2018 quando liderava as pesquisas eleitorais para presidente; campanha eleitoral e eleição de Jair Bolsonaro para presidente da República também em 2018; bloqueios de estradas e rodovias, acampamentos em frente a quartéis, tentativa de explosão de artefato no aeroporto em Brasília e os atos de vandalismo e depredações também na capital federal no dia da diplomação da chapa Lula-Alckmin, e o 8 de janeiro de 2023 em Brasília, quando apoiadores de Jair Bolsonaro convocados pelas redes sociais (financiados por terceiros), alegando uma suposta fraude nas urnas eletrônicas (sem apresentar nenhum indício ou prova), invadiram, depredaram, danificaram e saquearam os prédios dos três poderes.

Esses elementos estiveram presentes nos resultados do primeiro turno das eleições em 4 de outubro de 2026 com um duplo movimento:, de um lado a opção pelo voto em candidatos identificados no campo da extrema direita e por outro, a negação da política, a alienação, a indiferença e o cansaço que levaram ao índice de 21% de abstenções, ou seja, 33,4 milhões de eleitores (de um total de 158,7 milhões segundo o TSE) que deixaram de comparecer e mais 4,77 % votaram branco ou nulo, (5 milhões de votos).

Em 2026, o Partido Liberal (PL), presidido por Valdemar Costa Neto (denunciado pelo STF em 2007 por crimes como corrupção passiva, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, envolvendo repasses milionários no escândalo do Mensalão e investigado em 2026 pela Polícia Federal por desvio de emendas parlamentares) se tornou o grande representante institucional e porta-voz da oposição ao governo Lula e Partido dos Trabalhadores, da defesa da ética na política e dos valores morais tradicionais, contra a corrupção, com um discurso de realinhamento na política externa e de mudanças na economia.

Além da votação de Flávio Bolsonaro (56.104.503, ou 47% dos votos válidos), o partido ampliou suas cadeiras no Senado (elegeu 19 senadores, contará com uma bancada de 28) e na Câmara Federal (elegeu 121 deputados) com votações expressivas em Nikolas Ferreira (MG) 3.119.318 votos e Lucas Pavanato (SP) com 3.038.438 votos, (Erika Hilton do PSOL-SP, fez 1.596.472 votos e ficou como a terceira candidata à deputada federal mais votada do país).

Candidatos a governos estaduais que apoiam Flávio Bolsonaro venceram em dez pleitos e disputarão o segundo turno em outros cinco estados; na região sul e sudeste, os governos estão com o PL (RJ, RS, SC, PR) ou Republicanos (SP e MG). Dos senadores eleitos do sul e sudeste, somente dois não estão na base de apoio de Lula, Marília Campos do PT de Minas Gerais e Renato Casagrande do PSB do Espírito Santo. Lula segue soberano no Nordeste e o PT elegeu três governadores (Bahia, Ceará e Piauí).

Mas, os resultados demonstram que o governo Lula sofreu uma derrota acachapante. O que explica a emergência da opção pela extrema direita no Brasil? O antipetismo? O descontentamento por conta de expectativas de consumo não satisfeitas? O combate à corrupção?

Os indicadores econômicos são positivos para o governo, apesar das crises internacionais provocadas pelas guerras e pela taxação imposta pela agressiva política econômica dos Estados Unidos. A inflação e o desemprego seguem em baixa. Foram aprovadas medidas com altos índices de apoio popular, com o fim da escala 6x1 na jornada de trabalho e a proibição das apostas online (bets). As denúncias de corrupção, tema recorrente na campanha, não envolvem diretamente o governo, mas citam Flávio Bolsonaro e seus aliados, e mesmo assim são relativizadas. Em Santa Catarina, por exemplo, desde 2020, 30 prefeitos foram presos ou afastados por corrupção (o estado tem 295 municípios), todos ligados a partidos que compõem alianças com o PL, nenhum do PT,  e mesmo assim, o discurso hegemônico no estado é de que o Partido dos Trabalhadores é corrupto (Flávio Bolsonaro fez 66,65% dos votos em SC).

Assim, os votos deram hegemonia à uma direita extremada. Esta ascensão não é fruto de um acidente da história, uma aposta no desconhecido ou no diferente como base de mudança (argumento muito utilizado na vitória de Jair Bolsonaro em 2018). Foram escolhas deliberadas e conscientes por parte da sociedade brasileira e esse movimento do eleitorado em direção a soluções radicalizadas confirmou uma tendência experienciada nas eleições de 2018 e 2022.

O cientista político Jairo Nicolau interpretou esse processo em O Brasil Dobrou à Direita: Uma Radiografia da Eleição de Bolsonaro em 2018 (Rio de Janeiro: Zahar, 2020), e demonstrou a coerência entre os desejos e ansiedades de determinados grupos sociais, seus perfis políticos e suas escolhas eleitorais. Ou seja, a extrema direita não é uma novidade nem uma anomalia no sistema político recente: desde 2013 foi para as ruas, assumiu sua face e seu discurso, conquistou governos e representação parlamentar, ampliou votações e despertou adesões fanáticas e violentas, promoveu discursos de ódio e normalizou ideias antes impensáveis na democracia brasileira (como a ameaça golpista, os ataques às universidades públicas, à ciência, às minorias e ao questionamento do voto feminino).

Os compromissados com a extrema direita, o chamado núcleo duro do bolsonarismo, grupos inicialmente dispersos (anticorrupção, liberais, militaristas e olavistas) mas que agora estão vinculados ideologicamente, representam cerca de 25 a 30% dos eleitores, conforme apontam as pesquisas de Pablo Ortellado (coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP), ou seja, ainda insuficientes para definir uma eleição majoritária. De onde vieram os votos então?

Para compreender a opção pela direita extremada e tentar entender o voto, estabelecendo uma certa racionalidade de escolha, se faz necessário uma leitura de quem é o brasileiro e a brasileira da terceira década do século XXI. Felipe Nunes, da Quaest Pesquisa e Consultoria, demonstra um quadro revelador em Brasil no Espelho: Um Guia Para Entender O Brasil E Os Brasileiros (Rio de Janeiro: Globo Livros, 2025), pesquisa robusta que ouviu 10 mil pessoas em 340 municípios de 26 estados mais Distrito Federal. Os resultados apontaram que a sociedade brasileira é conservadora nos costumes (portanto, resistente à mudanças), punitivista, pois fruto da descrença na justiça e medo da violência (o que acaba beneficiando candidatos que propõem “ordem, autoridade e repressão” como resposta à criminalidade), apegado a valores ligados à religião e à família (mesmo entendendo esta como uma estrutura mais progressista, independente do tipo de arranjo). Acreditam nos papéis de gênero tradicionais (mesmo com todos os avanços em políticas públicas e legislações) e revelaram resistência a políticas de redistribuição de rendas ou cotas, com uma noção muito particular de honestidade e combate à corrupção.

As instituições de fé e força (Igrejas, Polícias Militares e Forças Armadas) têm mais credibilidade e confiabilidade do que as instituições democráticas (partidos, parlamento e STF). A pesquisa aponta ainda que 96% dos entrevistados acreditam que deus está no comando de suas vidas e 86% defendem que a fé vale mais que a ciência. Ou seja, o Brasil é um país de crentes, antes, majoritariamente católicos, mas que mudaram ao longo do tempo já que estamos imersos em uma transição religiosa. No censo de 2000, 74% se declararam católicos, já no censo de 2022 eram 56,7% com 26,9% de neopentecostais (ou evangélicos). Apenas em 2019 foram abertos 6.356 novos templos e o gospel é o segundo gênero musical mais ouvido, superando o samba.

Explica-se, portanto, a prioridade da agenda e das pautas morais nos debates, superando propostas e projetos políticos. Questões como diversidade, criminalização de preconceitos e de desigualdade de gênero, raça e religião, estão presentes e são reconhecidas como importantes no debate público (contempladas em políticas públicas diga-se). Contudo, não foram assimiladas plenamente (nem no mundo do trabalho nem na convivência social), e o preconceito ressurge com força em períodos de crise, de embates e de disputas eleitorais.

Assim, os dados da pesquisa apontam indicativos de como o discurso da extrema direita tem mais aderência mesmo em extratos outrora beneficiados por políticas dos governos petistas, aqueles e aquelas que ascenderam socialmente, mas que creditam seu “sucesso” ao esforço individual ou a dádiva divina, pela lógica da meritocracia ou religião; já as classes médias tradicionais mantém um sentimento de rejeição e ressentimento à mobilidade ascendente dos mais pobres durante os governos petistas.

Pesquisa da Quaest para o jornal O Globo de 16 de fevereiro de 2025 afirma que a classe média tem um sentimento de nostalgia: mais da metade (55%) acredita que o Brasil era melhor “no tempo dos nossos avós”, ou seja, na ditadura civil-militar, assim preferem apostar em uma alternativa autoritária a perder privilégios.

Ao contexto da ascensão da extrema direita soma-se ainda as influências externas com apoios do governo de Donald Trump, Benjamin Netanyahu e Javier Milei e a campanha de propaganda, fake news e desinformação com a participação decisiva das big techs no funcionamento dos algoritmos atuando para favorecer e ampliar o alcance de conteúdos políticos adequados a Flávio Bolsonaro; a Meta, proprietária do Instagram, Facebook e WhatsApp, impõe restrições que prejudicam a distribuição de publicações ligadas à campanha de Lula ao mesmo tempo que amplia a visibilidade do adversário.

Não surpreende também a posição de veículos de comunicação com um histórico de apoio à soluções extremadas, como a Globo e a revista Veja. O mundo do algoritmo, das grandes empresas que controlam a vida virtual, acaba por se materializar em relações concretas. 

A liderança autoritária seduz e de imediato se percebe que o deslocamento dos votos dos partidos de centro e conservadores democráticos (como PSDB, MDB e PDT) para a extrema direita e, por ato contínuo, jogou os partidos de esquerda para defesa de pautas moderadas. Ou seja, mesmo não havendo alusão a temas como reforma agrária, taxação de grandes fortunas, dívida pública, descriminalização do aborto, etc, houve uma radicalização à direita. Quanto mais se aposta na extrema direita, mais o espectro político se amplia à direita, pois não há mais fronteira nítida entre conservadores, reacionários, autoritários e fascistas, não há espaço para uma posição de centro ou uma direita moderada e isso determina caminhos para a decomposição da democracia.

A extrema direita é um perigo em qualquer lugar e em qualquer época; historicamente sempre resultou em um desastre em todos os aspectos, quer nos indicadores econômicos, quer na ampliação da crise social (os mais vulneráveis sendo as primeiras vítimas, literalmente, por ausência de políticas, abandono governamental e punitivismo do estado). Fomenta e se alimenta de crises políticas, descaracteriza o sistema democrático e suas instituições, é violenta, preconceituosa e autoritária. Exemplos não faltam.

No futuro ainda perguntaremos, quem foram os responsáveis? Quem entregou o Brasil ao bolsonarismo?