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A escrita radical de Simone para o segundo sexo

07/07/2021

Veneza Mayora Ronsini
Departamento de Ciências da Comunicação

“O fato de ser um ser humano é infinitamente mais importante do que todas as singularidades que distinguem os seres humanos”.

(Simone de Beauvoir)
 

Ser mulher independente equivale a ser acrobata porque os obstáculos para transcender a luta individual pela independência continuam tão desafiadores quanto compatibilizar casamento e carreira. É chocante constatar que Simone de Beauvoir (1908-1986) tem razão na metáfora da acrobacia, passados 70 anos da publicação de os dois volumes de O Segundo sexo (1949), proclamado hino à liberdade feminina ou livro de cabeceira que competiu com as tradicionais lições teológicas da necessária castidade e natureza passiva da mulher. Sua escrita é um ataque contra a detenção histórica de todos os poderes concretos pelos homens que, em troca, exaltam as qualidades maravilhosas da mulher, pois, assim, não é preciso reconhecê-la como ser humano igual.

As reações à autora (companheira de Jean-Paul Sartre) e ao livro foram violentas na França, à esquerda e à direita, mas nada impediu que ele se tornasse um best-seller e que Simone de Beauvoir, durante décadas, recebesse cartas de mulheres do mundo todo com relatos dramáticos sobre a opressão. Perdeu amizades, como a de Albert Camus, ofendido com o que avaliou como a ridicularização do homem francês. No espaço público, sofreu grosserias em restaurantes quando a acusaram de “lésbica anormal” ou trataram-na de “pequeno-burguesa”.

O tom realista do primeiro (Fatos e Mitos) e do segundo volume (A Experiência Vivida) é amparado em pesquisas, casos clínicos de doenças mentais e estudos que abrangem as dimensões – sexual, psicológica, social, cultural, política – da condição feminina. Na sua escrita objetiva e engajada, ela ataca o mito da feminilidade e o consequente destino tradicional da mulher como um ser destinado ao Outro, insuflado à passividade, ao coquetismo e à maternidade.

A feminilidade é a contraparte da virilidade, essa característica que dá superioridade aos homens e que só pode ser alcançada pela manutenção dos papéis tradicionais na vida privada e pública. Seu argumento é que as mulheres podem ser felizes como seres libertos das atribuições sociais que as reduzem ao segundo sexo. O caminho para a realização pessoal não pode ser trilhado sem independência econômica, ainda que ela, por si só, não garanta alcançar uma situação moral, psicológica e social idêntica à do homem. Podemos indagar se não seria um exagero falar hoje em segundo sexo. Ficando apenas no plano das relações afetivas, é verdade que as condições para a autonomia das mulheres economicamente independentes são mais facilitadas e elas conquistaram relações amorosas mais igualitárias. Entretanto, chega-se à conclusão de que toda a sociedade concorda com a libertação econômica e sexual da mulher, desde que ela continue a principal responsável pelo trabalho doméstico e pelo cuidado dos filhos.

Na prática, homens e mulheres, heterossexuais ou não, manifestam comportamentos tidos como “femininos” e “masculinos”. As evidências sobre a importância do sistema educacional na manutenção das diferenças culturais entre meninos e meninas foram demonstradas de modo irrefutável pela antropóloga Margareth Mead (1901-1978), contemporânea de Beauvoir. No livro Sexo e temperamento, publicado em inglês um ano depois de O segundo sexo, ela sistematiza sua pesquisa de campo (1931-1933) em três sociedades da Nova Guiné. Em uma delas, eles têm a convicção de que o homem é sensível, inseguro, preocupado com a aparência, invejoso e se dedica às atividades cerimoniais e estéticas, enquanto a mulher detém o poder econômico e o encargo da subsistência do grupo. A conclusão é que as qualificações feminino e masculino são determinadas pelo sexo de maneira tão superficial quanto os modos e as modas que sociedades e épocas designam a um ou outro sexo.

O pensamento radical de Simone, entretanto, não é um repúdio ao homem e foi por este motivo que ela retardou sua participação nos movimentos feministas da sua época, como relata na entrevista que concedeu à amiga e líder feminista Alice Schwarzer. Ali, ela afirma que a luta pela igualdade feminina não necessita ser uma recusa a todos os valores e modelos masculinos.

Examinando textos de inúmeras áreas do conhecimento, não deixa dúvidas sobre a longa tradição dos homens como artífices das representações do mundo. A epígrafe do volume I, de Pitágoras, nos faz lembrar que há motivos para celebrar a luta pela igualdade: “Há um princípio bom que criou a ordem, a luz e o homem, e um princípio mau que criou o caos, as trevas e a mulher”.

No Brasil, o texto de Simone soa uma heresia, sobretudo neste contexto político favorável às manifestações belicistas e mortíferas da virilidade, a exemplo de regimes totalitários que extraíram da imagem do homem viril o seu modelo societal. A luta pela igualdade foi juridicamente formalizada, mas os costumes parecem ter parado no tempo. Aqui, diferentemente da sociedade de corte onde o rei não hesitaria em quebrar o nariz da rainha com um murro durante o jantar, caso ela proferisse frases indesejáveis diante dos convidados, o ato seria, talvez, denunciado e punido pela Lei Maria da Penha. Por essas dificuldades adicionais do nosso patriarcado tropical, é possível que relações fraternas entre casais humanos (de qualquer orientação sexual) custem a se concretizar. E espera-se que a luta pela igualdade contenha a utopia de um esporte de combate sem vencedores, pois, para Simone, só deve chegar ao pódio quem estiver disposto a defender a liberdade para todos.


(Texto originalmente publicado no Correio do Povo em junho 2019)




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