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O retorno dos que não foram: notas sobre o Afeganistão e o Talibã

22/09/2021

Francisco de Paula de Souza Mendonça Jr.
Professor do departamento de História e do Programa de Pós-Graduação (PPGH)

Nas últimas semanas, o mundo tem assistido o ressurgimento do domínio do Talibã sobre o Afeganistão, em um misto de indignação, preocupação e incredulidade. O retorno desses extremistas ao poder gera impactos globais e locais, nesse caso particularmente no tocante às mulheres e às minorias. O que esse texto traz são algumas contribuições para que possamos pensar como o Talibã se tornou esse agente político e algumas consequências do seu ressurgimento enquanto centro de um governo que busca se legitimar.


De relevo montanhoso, com paisagens e clima desértico, o território que hoje conhecemos como Afeganistão sempre foi cobiçado por potências estrangeiras pela sua localização estratégica, entre outras coisas. Podemos falar do Império Macedônico de Alexandre o Grande, dos persas e os mongóis de Gengis Khan, entre outros. Destaquemos o período de dominação pelos primeiros Impérios muçulmanos, que trouxeram consigo o Islã, por volta do século VII, religião que permanece hegemônica naquela região até nossos dias. Em 1747, o rei Ahmed Shah Durrani tornou o Afeganistão um estado independente, o que duraria até meados do século XIX. Esse seria o momento no qual os ingleses invadem o Afeganistão, impondo sua presença até 1919, quando os afegãos conseguem reconquistar sua independência. Em um primeiro momento, retornaram ao regime monárquico, mas se tornariam uma república em 1973 por meio de um golpe de estado.


O regime republicano afegão nasceu enfrentando desafios que resultaram em uma guerra civil. O primeiro presidente, Mohammed Daoud Khan, enfrentou a oposição do Partido Democrático do Povo Afegão (PDPA), de esquerda. Essa crise resultou na Revolução de Saur (1978), com a destituição de Khan e a ascensão de Nur Muhammad Taraki ao poder. Taraki tinha um projeto político comunista, que abarcava medidas como reforma agrária, ensino laico e a participação feminina na vida pública. Essas mudanças tiveram impacto negativo em parte das zonas rurais afegãs, principalmente entre grandes proprietários e grupos conservadores, que associavam tais medidas a um ataque ao Islã.


Toda essa instabilidade resultou em mais um golpe de estado, apoiado por uma ala do PDPA, o qual destitui Taraki e fez de Hafizullah Amin presidente do Afeganistão. Amin passou a enfrentar um adversário poderoso: a URSS. Os soviéticos, antigos parceiros dos afegãos, viam dois problemas no novo presidente: uma pretensa aproximação com os EUA e a incapacidade dele controlar os rebeldes vinculados aos grupos islâmicos mais conservadores. Estes passaram a ser conhecidos como mujahidin, que dentro da cultura muçulmana designaria um combatente disposto a sacrificar a própria vida em nome de Allah e da fé islâmica.

No final de 1979, a URSS invadiu o Afeganistão com o objetivo de destituir Amin e elevar ao poder um presidente que fosse seu aliado declarado. Amin foi morto e substituído por Babrak Karmal. Em resposta, os mujahidin declaram um Jihad (Guerra Santa), contra os invasores soviéticos. Esse seria o início de uma sangrenta guerra que duraria dez anos. Os mujahidin foram apoiados pelos EUA, seja com armamento ou mesmo treinamento. A historiografia se divide em duas explicações possíveis para o envolvimento dos norte-americanos: a derrota imediata dos soviéticos ou um prolongamento intencional do conflito, fazendo com que a URSS sofresse um profundo impacto econômico, militar e político. Essa aliança entre os EUA e os mujahidin contra os soviéticos serviu de pano de fundo para Rambo III, por exemplo. De toda forma, quando da retirada dos soviéticos do Afeganistão, eles haviam gastado bilhões de dólares e causado a morte de milhares de seus soldados, sofrendo um inegável e duro golpe.

O resultado para o povo afegão foi ainda mais caro. Milhões de mortos, a infraestrutura do país destruída, e, com o antigo regime republicano esmagado, o caminho ficou livre para que um dos grupos mujahidin se fortalecesse a ponto de se tornar uma força política: nascia o Talibã. Combatendo outros mujahidin, alguns bem mais moderados, instaurou um governo islâmico que unia um forte fundamentalismo religioso com elementos locais xiita, naquele momento liderado por Mohammed Omar. Adeptos de uma leitura radical da tradição islâmica, “os estudantes” – como se pode traduzir talibã e pelo fato da maioria de seus membros ter sido educados em madraças (centros de estudos islâmicos) – são avessos a manifestações culturais que não tenham seus objetivos estritamente alinhados a sua interpretação do Islã. Assim, proibiram coisas como a leitura de certos livros, cinema, televisão, internet, música, artes, previsão do tempo, pipas entre outras coisas. Exemplos dessa política repressiva que chocaram o mundo foram as queimas públicas de livros e a destruição dos milenares Budas de Bamiyan.

Em 2001, a organização chamada Al-Qaeda perpetrou um ataque terrorista que resultou na destruição das torres do World Trade Center, assim como em milhares de mortes. Em resposta, o então presidente dos EUA, George W. Bush Jr., iniciou o que ele chamou de Guerra ao Terror e um dos primeiros alvos foram o Afeganistão e o regime do Talibã, pois esse se recusou a entregar Osama Bin Laden. Em pouco tempo, com a mudança do contexto geopolítico, tal grupo que se originou dos antigos muhajideen – apoiados pelos próprios americanos – estava agora acobertando o maior inimigo dessa nação. Assim, como retaliação os EUA invadiram o Afeganistão em 2001, derrubaram o Talibã do poder e instalaram um novo regime republicano liderado por Hamid Karzai, em 2002. Assim, se iniciou um conturbado período de reestruturação do país, inclusive com nova abertura da vida pública as mulheres.

Apesar de derrotado, o Talibã não desapareceu e se reagrupou no interior afegão, retornando a sua condição inicial. Durante quase duas décadas, eles passaram a agir através de atentados terroristas para minar o poder do governo republicano afegão e atacar os EUA. Com os altos custos econômicos, sociais, militares e políticos da Guerra ao Terror, bem como sua ineficácia, os EUA começaram um lento retroceder em tal estratégia. Uma das consequências foi a desastrosa retirada das tropas americanas do Afeganistão em 2021, repetindo em Cabul cenas que já haviam sido vistas em Saigon. Sem o apoio dos EUA, bem como de outros países ocidentais, o governo afegão viu o avanço do Talibã que em questão de meses tomou conta do país. A retomada do poder pelos radicais foi consolidada pela fuga do presidente eleito afegão, Ashraf Ghani, e pela proclamação de um regime totalitário teocrático, liderado pelo Mulahh Abdul Ghani Baradar. Assim, o país foi declarado pelo Talibã como Emirado Islâmico do Afeganistão.

A população afegã, conhecendo a dureza e o perigo de viver sob o controle dos talibãs, se lançou em profundo desespero, o que resultou nas cenas que foram vistas na mídia internacional: corrida para fugir do país, pessoas que caíam de aviões em pleno voo, mães que jogavam seus bebês por cima de muros fronteiriços para que alguém os levasse em busca de um novo lar. As mulheres já são alvo da repressão, apesar do discurso moderado que afirma o governo talibã: já não podem sair na rua sem a escolta de um homem, estão sendo proibidas de frequentar as escolas e ocupar cargos públicos. Contudo, em uma demonstração de bravura ímpar, são justamente elas que lideram a resistência. Seja ocupando as ruas sob a mira de fuzis, confrontando os radicais, munidas apenas de palavras de ordem, insistindo em ocupar cargos públicos e bancos escolares ou mesmo exibindo coloridos vestidos típicos ao invés do austero chador. O futuro afegão é tão incerto quanto é poderosa a resiliência de seu povo.

 

(* O professor também é membro da Associação Brasileira de Estudos Medievais (ABREM) e  da Cátedra UNESCO-UFMG “Territorialidades e Humanidades: a Globalização das Luzes”).




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