Retroceder não é avançar: é preciso avaliar e aprimorar o Enem/Sisu SVG: calendario Publicada em 02/02/2023 SVG: views 3010 Visualizações

Nas redes sociais e assembleias das entidades têm ocorrido debates sobre a proposta de redução do Enem/Sisu para o ingresso na UFSM. Na universidade, ao contrário, não tivemos espaços oficiais para debater as propostas de mudança no sistema de ingresso. O que se debateu, em alguns momentos, só com os coordenadores de curso, foi o tema da evasão, mas, de forma bastante superficial e culpabilizando os estudantes, cursos e coordenadores pela evasão. Ainda não ocorreu um debate sério e embasado sobre os reais problemas que levam à evasão.

A proposta de volta do Vestibular e do processo seletivo seriado tem sido questionada por muitos membros da comunidade universitária, DCE, Neabi, estudantes indígenas, Sedufsm, Assufsm, Atens, APG, Sinasefe... reunidos em uma linda e diversa assembleia no hall da Reitoria da UFSM no final da tarde de 01/02/23. Quais seriam os reais motivos que levam a um processo de mudança do sistema de ingresso discutido só nos conselhos superiores, de forma online, a toque de caixa, sem debate amplo com a comunidade e sem embasamento robusto para pensar em uma mudança grande como esta.

Pouco sabemos com certeza sobre o que o ingresso pelo Sisu é ou não é responsável pela evasão. O gráfico da evolução da evasão na UFSM de antes e durante a vigência do Sisu mostra pouca coisa, variação entre cerca 16% em 2015 e 2016, 17,5% em 2017 para aproximadamente 19% em 2018, 2019 e 2020 (diferença de cerca de 3%), mesmo após o golpe de 2016, a Lei do Teto de Gastos, os enormes cortes de orçamento e ataques à ciência e à educação durante o governo Bolsonaro e a pandemia. Mesmo com tudo isso, a UFSM continua bem abaixo da média nacional da evasão (entre 20 e 30%). Então, por que mudar oito anos depois de adotar o Sisu sem fazer uma ampla avaliação dos seus impactos positivos e negativos na UFSM?

Agora, algumas coisas sabemos que a adoção do Sisu e a adoção das ações afirmativas (decisões estratégicas de reposicionamento das seleções de ingresso, com vistas à democratização do acesso) incomodam alguns e causaram, por exemplo, certa mudança do perfil dos estudantes da UFSM, hoje tem mais gente negra, indígena, de outros estados... Muitos estudantes têm maiores dificuldade de se adaptar e dar conta do que se espera nos cursos superiores (a leitura abstrata nas Ciências Humanas, por exemplo), pois vêm de famílias de baixo capital cultural (baixa formação escolar, de títulos, de cultura mais ampla). Outras questões: os cursinhos e as escolas particulares de Santa Maria, que cobram fortunas, perderam parte de sua clientela local e regional; a cidade tem uma memória saudosista da semana do vestibular, um megaevento... Alguns têm saudade do que faturavam e reivindicam a sua volta.

Na verdade, as classes altas aqui e em outros países nunca aceitaram dividir pacificamente a universidade com os filhos das classes trabalhadoras. Além de fazer os seus filhos conviverem com setores populares, a democratização do acesso aos cursos superiores faz com que ocorra o fenômeno da “inflação de títulos” (Bourdieu), eles perdem o seu valor na medida que muitos passam a ter acesso. Deixam de ser exclusivos, de acesso limitado. As elites precisam fazer mais e mais investimentos em diferenciação da sua formação (universidades de maior prestígio, intercâmbios no exterior, pós-graduação etc.) para com a dos filhos das classes populares.

Como sociólogo, penso que os problemas na UFSM, na verdade, são outros, mais ligados ao tema da PERMANÊNCIA do que ao ingresso e estes nem estão sendo tratados. Sabemos que somente abrir as portas da universidade para os filhos das classes populares não basta, é preciso criar e aprimorar a assistência estudantil, reformular os currículos, melhor receber e apoiar os estudantes, criar melhores conexões entre a formação e a atuação profissional... Retroceder para formas de ingresso que são caras, realizadas somente em Santa Maria, campis ou cidades próximas não resolve estes problemas e, provavelmente, irá reelitizar a UFSM.

Dar aulas para filhos da elite é fácil, já têm alto capital cultural, o que é difícil e desafiador é formar bons profissionais de classes populares. Penso ser este um papel importante da universidade pública.

Sobre o(a) autor(a)

SVG: autor Por Everton Picolotto
Professor do Departamento de Ciências Sociais da UFSM e membro do Conselho de Representantes da Sedufsm