Voto em partidos que não são partidos: decisão de voto, eleitor mediano e polarização
Publicada em
01/07/2026
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Os fatores que incidem na decisão sobre quem votar integram um conjunto complexo e interligado de elementos que envolvem uma ampla escala que passa, entre outros, por ideologia, personalismo e economia. Até as eleições presidenciais de 2014, a partir de 1989, a decisão de voto tinha como fator explicativo predominante, em parte da literatura da Ciência Política, o voto retrospectivo (Morris Fiorina), voltado para algum tipo de avaliação de base econômica, combinado com o personalismo. Questões de ordem ideológica, embora significativas, ocupavam lugar secundário na explicação para o voto.
Entretanto, desde então, uma série de termos e categorias teóricas ganham espaço para explicar os motivos da decisão eleitoral. Ideologia, valores, nova direita e polarização, agora, mais do que antes, estão entre os fatores explicativos predominantes sobre a decisão de voto. Contexto que remete, em parte, a duas perspectivas diferentes que permeiam o comportamento eleitoral. A primeira envolve algum nível de identificação ideológico-partidária, produzindo lealdades e permanências no voto, o que também pode ter vínculo com a figura de um líder político. A outra combina avaliação individual a partir das condições de bem-estar, como renda, emprego, habitação e acesso a serviços públicos, entre outros, atribuindo responsabilizações para o caso de estar tudo bem, tendendo a votar em candidaturas situacionistas e, em sentido contrário, optando pela oposição.
O voto baseado em identificação ideológico-partidária possibilitava uma previsibilidade, em termos, do resultado eleitoral. Em contrapartida, a avaliação retrospectiva, junto com outros elementos, como o personalismo, poderia favorecer quem estava no governo, o que explicaria as reeleições nas eleições presidenciais, resultando, também, em alguma previsibilidade. Em termos gerais, porém, o peso do eleitorado que não possuía lealdades e identificação partidária (o eleitor mediano, segundo Anthony Downs) e que, portanto, poderia oscilar de uma candidatura de uma coligação liderada pelo PSDB para uma liderada pelo PT adquiriu importância explicativa central. Venceu quem conseguiu atrair o eleitorado independente.
E, como a identificação ideológica não tinha posição preponderante entre os fatores explicativos, entendimentos voltados para a avaliação retrospectiva, envolvendo acesso a políticas, equilíbrio econômico, popularidade, personalismo e carisma estiveram no topo das explicações para o voto. Ou seja, um voto, em grande parte, não partidário e não pré-definido, que dependia de convencimento a partir do que governos faziam e do que a oposição contrapunha.
As eleições presidenciais de 2018 e de 2022, todavia, colocaram a questão em outros termos. Um deles está na formação de entendimentos morais e valorativos, baseados em um ideário como fator explicativo para o voto. Situação que confronta os elementos explicativos para o voto sustentados na avaliação retrospectiva, cuja base tem, em grande parte, relação com questões materiais, vinculadas ao bem-estar e à economia. A complexidade, contudo, está nas dificuldades de estabelecer, com precisão, os limites entre os fatores imateriais e os econômicos entre os dois polos, o ‘Lulismo’ e o ‘Bolsonarismo’, em disputa, enquanto preditores de voto, levando em conta que ambos possuem diferenças profundas entre si.
A eleição de 2026 tende a reproduzir, ao menos em parte, o que se observou nas duas eleições anteriores. Há um percentual significativo do eleitorado que decide o seu voto a partir de algum entendimento prévio consolidado, votando em bloco e pouco aberto à retórica dos adversários. O que se configura como um voto partidário sem ser em um partido. Porém, a possibilidade de que a parte, ainda que eventualmente minoritária, do eleitorado que não está nos polos, decida a eleição é grande, como já ocorreu em 2022. A questão é verificar quem vai conseguir convencer e atrair o eleitorado mediano.
Sobre o(a) autor(a)
Professor de Ciência Política - Departamento de Ciências Sociais da UFSM