O chiaroscuro das Américas: Lula, Trump e Milei diante de uma nova desordem continental SVG: calendario Publicada em 12/08/2026 SVG: views 609 Visualizações

Há algo de Caravaggio na política das Américas neste momento.

Nas telas de Caravaggio, a luz nunca chega delicadamente. Ela invade. Rasga a escuridão, atravessa os rostos, revela músculos, feridas, medo, arrogância. A obra de Caravaggio revolucionou a história da arte ao introduzir o tenebrismo — um contraste radical e teatral entre luz e sombra — e ao retratar figuras sagradas com traços humanos crus, utilizando pessoas comuns, mendigos e prostitutas como modelos.

Em A Vocação de São Mateus, um feixe luminoso entra por uma lateral e transforma uma sala escura em palco de uma decisão. 

Em Davi com a Cabeça de Golias, vitória e tragédia ocupam praticamente o mesmo espaço.

Em A Captura de Cristo, os personagens parecem comprimidos uns contra os outros, como se não houvesse mais lugar para recuar.

Em Medusa, a representação perturbadora do monstro mitológico em um escudo redondo.

É essa a dimensão de luz e sombra que explica da melhor maneira a tensa relação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, Donald Trump e Javier Milei.

Três homens sob uma luz brutal.

Três projetos políticos muito diferentes.

Três personalidades que compreenderam, cada uma à sua maneira, que a política contemporânea deixou de ser apenas administração do poder. Tornou-se também representação, espetáculo, linguagem e confronto.

E, sobretudo, três presidentes que parecem cada vez menos dispostos a permanecer na penumbra.

Nas últimas semanas, a diplomacia das Américas adquiriu uma temperatura incomum. O Brasil negou vistos a integrantes do governo norte-americano em meio à suspeita de que a delegação pretendia questionar a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. A relação com Washington deteriorou-se novamente. Em seguida, vieram novos atritos com Javier Milei e o rebaixamento das relações diplomáticas entre Brasília e Buenos Aires. Finalmente, Washington revogou o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Viotti, num conflito que envolve também a demora brasileira em conceder o agrément ao indicado de Donald Trump para representar os Estados Unidos em Brasília, Daniel Perez.

Isoladamente, cada episódio poderia ser administrado como mais um incidente diplomático.

Juntos, começam a formar uma paisagem.

E é a paisagem que importa.

Porque o problema é maior do que Lula, Trump ou Milei.

O que parece emergir no continente é uma transformação da própria gramática diplomática.

Durante boa parte do século XX, mesmo governos profundamente hostis preservavam uma espécie de liturgia das relações internacionais. Havia expulsões, sanções, notas de protesto, convocação de embaixadores e crises severas. Mas existia também a consciência de que a diplomacia funcionava precisamente porque permitia aos adversários continuar conversando quando já não concordavam sobre quase nada.

Agora, algo diferente acontece.

A política doméstica atravessou as paredes das chancelarias.

A política externa tornou-se uma extensão da batalha política interna.

Nesse triângulo, Donald Trump ocupa uma posição singular. Sua concepção de política internacional sempre esteve menos próxima da diplomacia clássica do que da negociação assimétrica. Países são parceiros, competidores ou obstáculos. Tarifas tornam-se instrumentos de pressão. Vistos tornam-se mensagens. Relações pessoais entre líderes adquirem peso extraordinário.

Trump não inventou a política de poder. Tampouco inventou a coerção econômica norte-americana. Mas conferiu a ambas uma linguagem particularmente pessoal.

Trump gosta de entrar na sala convencido de que possui mais fichas que os demais.

Milei opera de maneira diferente.

Se Trump transforma a diplomacia em negociação, Milei frequentemente a transforma em combate ideológico. Sua linguagem possui algo que seria quase impensável na velha tradição diplomática latino-americana: o adversário externo pode ser tratado como adversário político doméstico.

Lula, nesse universo, não é apenas o presidente do maior parceiro comercial da Argentina.

É também um símbolo.

Representa precisamente aquilo contra o qual Milei construiu parte de sua identidade política: a esquerda latino-americana, o Estado intervencionista, o progressismo e uma determinada tradição política regional.

É por isso que os insultos importam.

Não necessariamente pelo conteúdo — líderes já disseram coisas muito piores uns sobre os outros —, mas porque revelam uma transformação: a fronteira entre o palanque e a chancelaria tornou-se extraordinariamente porosa.

Lula, por sua vez, encontra-se diante de um dilema diferente.

Sua trajetória internacional foi construída sobre uma ideia ambiciosa de autonomia brasileira. Desde seus primeiros governos, o Brasil lulista procurou ampliar relações com o Sul Global, defender o multilateralismo, fortalecer os BRICS e insistir que Brasília não deveria aceitar automaticamente a hierarquia construída pelas grandes potências.

Mas autonomia possui um preço.

Ela funciona confortavelmente enquanto as divergências permanecem administráveis.

O verdadeiro teste aparece quando a potência dominante decide aumentar o custo da divergência.

É exatamente nesse ponto que a relação entre Lula e Trump se torna particularmente interessante.

Não estamos diante apenas de duas personalidades incompatíveis.

Estamos diante de duas concepções distintas sobre hierarquia internacional.

Trump pensa o poder a partir da capacidade de impor custos.

Lula pensa a autonomia a partir da capacidade de resistir a eles.

E entre essas duas concepções encontra-se o Brasil — grande demais para aceitar naturalmente a condição de satélite, mas ainda distante dos recursos materiais de uma grande potência.

Milei completa o triângulo acrescentando uma dimensão ideológica ao conflito.

Washington possui poder.

Brasília reivindica autonomia.

Buenos Aires oferece alinhamento ideológico.

Essa combinação transforma a América do Sul num espaço particularmente sensível às disputas políticas que atravessam o continente.

Há, entretanto, um perigo maior.

Quando presidentes começam a tratar relações diplomáticas como extensões de suas próprias batalhas políticas, instituições podem ser lentamente substituídas por personalidades.

E personalidades são imprevisíveis.

Diplomatas trabalham com ambiguidades.

Presidentes populistas trabalham com audiências.

Diplomatas procuram portas de saída.

Líderes políticos procuram vitórias a qualquer custo. 

Diplomatas sabem que determinadas palavras precisam permanecer não ditas. O vocabulário da diplomacia é cheio de nuances e rico de simbolismos. 

Hoje a política contemporânea descobriu que essas mesmas palavras podem produzir milhões de visualizações.

Essa é a verdadeira ruptura. 

A diplomacia sempre dependeu de alguma distância entre aquilo que um governo pensa e aquilo que um governo diz.

As redes sociais reduziram essa distância quase a zero.

Trump compreendeu isso antes de muitos.

Milei aperfeiçoou a lógica.

E Lula, embora provenha de outra tradição política, precisa agora operar dentro do mesmo ecossistema.

Por isso, seria simplista interpretar o que acontece apenas como uma disputa entre esquerda e direita.

Há algo estrutural em movimento.

A ordem internacional tornou-se mais fragmentada. O multilateralismo perdeu parte de sua capacidade disciplinadora. A competição entre grandes potências retornou ao centro da política mundial. E a América Latina, durante algum tempo considerada periferia relativamente pacífica das grandes disputas estratégicas, volta a descobrir uma velha verdade: nenhuma região permanece indefinidamente fora da política de poder.

É aqui que retornamos a Caravaggio.

Em suas pinturas, a escuridão nunca desaparece completamente.

A luz ilumina apenas uma parte da cena.

É exatamente essa a condição das Américas neste momento.

Mas atrás deles existe uma zona muito maior de sombra.

Nela estão a crise do multilateralismo, a transformação da democracia em campo de disputa internacional, a competição pela influência política na América Latina, o retorno da coerção econômica como instrumento diplomático e a crescente personalização das relações entre Estados.

Os três presidentes são protagonistas.

Mas não são os autores dessa peça barroca. 

São personagens de uma transformação histórica mais profunda.

Caravaggio provavelmente saberia onde colocar a luz.

Iluminaria os três homens.

Deixaria o restante da tela quase negro.

E é justamente na escuridão — e não nos rostos iluminados — que estaria escondida a parte mais importante da história.

Um detalhe perspicaz da obra de Caravaggio talvez ofereça a chave final para compreender essa cena continental. Em Davi com a Cabeça de Golias, o pintor teria dado ao gigante derrotado os seus próprios traços. Caravaggio não escolheu ser Davi, o vencedor. Preferiu colocar-se no rosto ensanguentado de Golias, suspenso pelos cabelos, entre a derrota, a culpa e a morte.

É uma escolha perturbadora.

E profundamente política.

Porque Caravaggio sabia algo que os poderosos preferem esquecer: nenhuma vitória é definitiva. Nenhuma posição de força é eterna. Nenhum império, nenhum presidente e nenhuma hegemonia escapam para sempre da reversibilidade da História.

É nesse ponto que Lula, Trump e Milei deixam de ser apenas três presidentes e se tornam personagens de uma composição maior.

Cada um acredita possuir alguma parte da luz.

Trump, a força da potência.

Lula, a reivindicação da autonomia.

Milei, a intensidade da ruptura ideológica.

Mas o chiaroscuro existe justamente para nos lembrar de que toda luz produz também a sua própria sombra.

E o maior perigo desta nova desordem continental esteja precisamente aí: quando a política externa passa a ser conduzida como espetáculo permanente, quando adversários precisam ser transformados em inimigos, quando a diplomacia cede lugar à humilhação e quando cada gesto internacional precisa produzir vencedores e derrotados, todos começam a disputar o papel de Davi.

Poucos percebem que a História também está pintando Golias.

Nas relações internacionais, a cabeça erguida como troféu hoje pode carregar amanhã os traços de quem celebra a vitória.

Caravaggio compreendeu isso há quatro séculos.

O poder gosta de se imaginar sob a luz.

A História, porém, trabalha também nas sombras.

E, no chiaroscuro das Américas, é justamente ali (onde quase ninguém está olhando) que o próximo quadro esteja sendo pintado.

 

Nota da Sedufsm: chiaroscuro (ou claro-escuro) é uma técnica artística que usa fortes contrastes entre luz e sombra. O termo vem do italiano e significa "claro-escuro". Serve para dar volume, criar tridimensionalidade e trazer clima dramático e/ou teatral para pinturas, fotografias, filmes e peças visuais.