Multicampia, pandemia, integração entre povos, temas destacados em evento do ANDES-SN SVG: calendario Publicada em 12/12/22 18h00m
SVG: atualizacao Atualizada em 13/12/22 15h14m
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II Seminário Internacional aconteceu de 6 a 9 de dezembro, em Foz do Iguaçu (PR)

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Ato público em defesa da educação e integração dos povos, junto à Ponte da Amizade (Foz do Iguaçu)

A defesa da educação pública é uma bandeira empunhada não apenas no Brasil, mas em várias partes do mundo, o que inclui os povos vizinhos ao nosso país. Durante o II Seminário Internacional Educação Superior na América Latina e Caribe e Organização dos/as Trabalhadores/as, I Seminário Multicampia e Fronteira e o I Festival de Arte e Cultura: Sem fronteiras, a arte respira lucha (arte respira luta), entre 6 e 9 de dezembro, em Foz do Iguaçu (PR), um ato de caráter internacional ocorreu junto à Ponte da Amizade, que interliga Brasil e Paraguai. O ato foi em defesa da Educação Pública e também em prol da integração Latino-americana. 

A manifestação aconteceu na manhã de quarta, 7 de dezembro. A Sedufsm esteve representada no evento pelo seu presidente, professor Ascísio Pereira, e mais duas docentes que integravam o Conselho de Representantes da entidade, Belkis Bandeira e Mônica Borba. Durante os dias em que ocorreu o evento, outros aspectos importantes também foram abordados, como por exemplo, a multicampia e os efeitos da pandemia de Covid-19.

Para Rivânia Moura, presidenta do ANDES-SN, a realização do ato junto à Ponte da Amizade reforça que a luta e a resistência fazem parte da história do Sindicato Nacional, reafirmando a necessidade de combater todos ataques aos direitos básicos da população. “Não podemos dormir tranquilos e tranquilas enquanto soubermos que o futuro das nossas crianças e jovens têm sido roubado todos os dias. Tem sido estabelecido, no nosso país, e nos demais países da América Latina, um sistema que privatiza nossos sonhos, privatiza a educação, privatiza a saúde ao dizer que a educação e saúde de qualidade são só para quem pode pagar”, sintetizou Rivânia.

Já segundo Francieli Rebelatto, 2ª secretária do ANDES-SN, a maior parte dos estudantes da Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila), onde aconteceu o evento, são paraguaias e paraguaios, que cruzam a fronteira em busca de educação superior gratuita. Segundo ela, é preciso lutar para uma integração e força entre os países vizinhos.

“Grande parte dos filhos e filhas da classe trabalhadora do Paraguai não têm acesso a universidade pública e gratuita e, por isso, têm cruzado essa fronteira (entre o Brasil e o Paraguai) para buscar construir os seus sonhos, a partir da educação. É importante que possamos sair daqui com o comprometimento de que nós temos que reforçar nossa luta internacionalista”, conclamou. Além disso, Francieli relembrou que a integração internacionalista precisa acontecer em todas as universidades públicas e não somente na Unila

Condições de trabalho e lutas sociais

Uma das mesas importantes do encontro teve como título "Universidade, condições de trabalho e lutas sociais na fronteira", com Andreia Moassab (Unila), Susana Cavalheiro de Jesus (Unipampa) e José Sávio (UFAC e diretor do ANDES-SN). As explanações abordaram as várias particularidades, desafios e problemas das universidades de fronteira e multicampi.

Foram apontadas desde as dificuldades de deslocamento da comunidade acadêmica, especialmente estudantil, e a constante migração de quadros docentes, até as particularidades da relação com povos originários e de outros países, que nem sempre são bem acolhidos nas instituições. As e os participantes relataram ainda a brutalidade da convivência com a violência de grupos criminosos e conservadores, com a forte presença do agronegócio, da mineração que ameaçam a população local e docentes, que desenvolvem projetos de extensão e de pesquisa em defesa dos povos originários, com movimentos sociais ou de temas contrários aos interesses desses grupos.

“Enquanto temos colegas debatendo a inclusão das populações tradicionais, que militam nesse campo da inclusão dessas populações em nossos projetos políticos pedagógicos, há professores que continuam ajudando a fazer projetos de impacto ambiental, construir estradas em terras indígenas. A universidade não está apontada para um rumo da inclusão. Temos uma série de disputas, um quadro de conservadores”, pontuou José Sávio, 2º vice-presidente da Regional Norte I do ANDES-SN. “Estamos diante de uma perspectiva de certa insegurança de como vamos sobreviver em uma região que está em disputada enquanto região de tantas fronteiras”, acrescentou.

Povos Originários e Afrodescendentes

Uma outra mesa de debate importante teve como título: "Universidade e lutas dos povos originários e afrodescendentes", com Camille Chalmers (PAPDA/Haiti), Maria Raimunda (UFF/Brasil) e Senilde Guanaes (UNILA/Brasil). As apresentações trouxeram reflexões profundas sobre a presença dos povos originários e afrodescendentes nas universidades, a necessidade de mudanças estruturais na grade curricular e nas regras e epistemologias das instituições de ensino. 

Foi reforçada ainda, em todas as falas, a necessidade de lutar contra o aprisionamento e elitização da produção de conhecimento nas universidades, assim como contra o apagamento dos sujeitos das comunidades quilombolas, indígenas, ribeirinhas produtores desses conhecimentos e tecnologias.

Foi ressaltada também a importância da integração das lutas entre os povos da América Latina e o Caribe e de criar laços de intercâmbio entre os movimentos dessas regiões, em especial daqueles ligados à educação, e de se aplicar na luta cotidiana a Pedagogia da Revolução.

Camille Chalmers, que é professor da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Estatal do Haiti e coordenador da PAPDA - Plateforme Haïtienne de Plaidoyer pour un Développement Alternatif, destacou que o sistema de opressão e de monopólio de produção de conhecimento e tecnologias e da difusão desses exclui, nega e inferioriza uma grande parte da sociedade mundial.

Ele citou como fraturas a relação do sujeito com o mundo, que resulta no individualismo, a relação entre homens e mulheres, baseada na superexploração das mulheres, da sociedade com a natureza, com o impacto ambiental e dos “civilizados” com os “bárbaros”, que sustenta a exclusão de parcela significativa da população das universidades.

Pandemia e mudanças tecnológicas

Dentro da programação do evento do ANDES-SN na Unila, aconteceu na manhã de quinta, 8 de dezembro, o debate "Universidade, pandemia e mudanças tecnológicas na AL: uma nova forma de exclusão", com as professoras Amanda Moreira (UERJ/Brasil) e Juliana Melim (UFES/Brasil) e os professores Ivan Lopez (UNAM/México) e Javier Blanco (UNC/Argentina).

As falas da mesa abordaram a plataformização do trabalho docente, os impactos na pandemia no aprofundamento da super exploração e precarização do trabalho e do ensino e a expansão da educação e do trabalho remotos. O cenário brasileiro se repete em outros países da América Latina, de acordo com as abordagens realizadas, que expressaram a preocupação com as atuais condições de trabalho e também de organização da categoria docente.

Amanda Moreira lembrou que a educação não fica imune às alterações do mundo do trabalho e destacou que a pandemia criou o cenário perfeito para ampliação da plataformização na Educação. “A precarização [do trabalho docente} é de longa data, mas com a plataformização, a separação entre trabalho e vida deixa de existir. Isso traz aspectos ainda mais avassaladores da precarização”, afirmou, ressaltando ser importante “criar formas de diálogo com a categoria para avançar na mobilização”.

Desafios da multicampia

“Os desafios das universidades públicas multicampi no Brasil”, foi o tema do painel com diversas seções sindicais do ANDES-SN. Milton Pinheiro (Uneb), Kate Lane (UFF), Túlio Lopes (Uemg), Valmiene Farias (Ufam), Claudio Fernández (IFRS), Gilberto Calil (Unioeste) abordaram os desafios para o movimento docente nessas instituições.

As falas apresentaram as experiências de suas seções sindicais na organização da categoria e no enfrentamento às diversas particularidades dessa forma de estruturação de várias universidades federais e estaduais. Trouxeram também as dificuldades internas do movimento sindical de perceber as diferenças das condições de trabalho nos campi centrais e naqueles interiorizados.

As e os palestrantes, bem como demais participantes que trouxeram questionamentos, destacaram a necessidade do ANDES-SN intensificar a luta por melhores condições de trabalho, acesso e permanência estudantil nessas instituições multicampi, bem como de avançar na reflexão de como ampliar e fortalecer a organização da categoria e a participação docentes nos espaços do sindicato, como as assembleias de base.

Milton Pinheiro, que também é vice-presidente do ANDES-SN, ressaltou que a universidade multicampi é um aparelho de perspectiva hegemônica em disputa. “O fazer universitário é rico e é uma contradição em processo, que estimula uma necessidade de entender a região, uma perspectiva de encontrar objetos de pesquisa nas mais diversas regiões e também permite uma perspectiva de docência articulada com as necessidades da comunidade e de uma extensão séria voltada para segmentos populares”, ressaltou.

No entanto, segundo ele, essas características não conseguem se impor em muitas instituições devido à parca autonomia financeira das universidades, que não permite responder a essa contradição em disputa que é uma universidade multicampi. “O olhar do sindicato é da perspectiva da categoria e da organização sindical e da construção de uma universidade, que não é essa que temos no momento”, lembrou o diretor do ANDES-SN.

A professora Valmiene Farias, da Federal do Amazonas, falou da dificuldade de organização sindical, especialmente nesse último período. “Muitos professores têm se tornado alheios à luta. Em nosso sindicato, nos últimos dois anos, estávamos preocupados em sobreviver. E acredito que tenhamos acumulado a luta, nesse ano de 2022, no nosso retorno às ruas para derrotar Bolsonaro”, avaliou.

“É uma tarefa hercúlea retomar questões que são fundamentais para a luta, nesse momento de reorganização da esperança. Precisamos colocar o pé no chão, no otimismo da vontade e no pessimismo da razão” acrescentou, ressaltando o papel estratégico da comunicação. “É necessário trazer os docentes para as assembleias e para a organização sindical”, afirmou.

Arte e cultura

A importância da arte e da cultura como instrumentos de resistência dos povos da América Latina e Caribe e também como ferramenta de luta foram temas do último debate do evento realizado pelo ANDES-SN na Universidade Federal de Integração Latino-Americana, em Foz do Iguaçu (PR), entre os dias 6 e 9 de dezembro.

Uma das mesas deste dia abordou “O papel da arte e da cultura na resistência de nossos povos da América Latina”, com Priscila Rezende, artista visual e performer de Belo Horizonte (MG), Félix Eid, professor de música da Unila e Priscila Duque, artista do carimbó de Belém do Pará (PA).

As falas trouxeram diferentes referências de expressões artísticas e como elas contribuem para denunciar violências e expressar diferentes pautas, resgatar e divulgar saberes e tradições de diferentes povos. Também abordaram os diversos tempos do fazer artístico e as incompatibilidades com o tempo ocidental imposto pelo capitalismo, muitas vezes acelerado, inclusive nas produção de conhecimento dentro das universidades.

Priscila Rezende destacou a importância da arte como instrumento de denúncia das violências da sociedade capitalista, patriarcal, racista, machista, lgbtquiap+fóbica e capacitista. A artista utiliza seu corpo como ferramenta de seu trabalho e cunhou a expressão “corpo combate” para descrever sua obra.

“Eu costumo falar para as pessoas que o meu trabalho é totalmente incômodo, eu sei que assusta muita gente, a intensão é que seja incômodo mesmo”, afirmou Priscila. “A violência ela é atroz, a violência que a gente vive é atroz. O machismo, o racismo, a lgbtfobia são atrozes. Eu acredito que a reação não”, acrescentou, destacando que sua arte traz uma resposta ao racismo e machismo por ela vivenciados. 

Feliz Eid refletiu sobre o silenciamento das expressões artístico-culturais dos povos da América Latina e do Caribe, e salientou a resistência dessas culturas e povos, através da arte. “Os tempos impostos pelas instituições de ensino ‘normal’ nem sempre são compatíveis com a organicidade de tempo dos povos latino-americanos, indígenas e afrodescendentes. Temos que romper com essa estrutura”, afirmou, ressaltando que tem buscado encontrar esse tempo nas atividades de extensão que desenvolve na Unila. 

Priscila Duque trouxe sua vivência com movimentos de esquerda - partidários e sociais – e também com o carimbó, que segundo ela, carrega os saberes do estado do Pará. “O carimbó é o encontro dos povos subalternizados na Amazônia, criminalizados, exterminados em ideia, em afeto e em território na Amazônia. O carimbó é negro e é indígena”, afirmou.



A artista e jornalista destacou a necessidade dos movimentos sociais, sindicais e partidários valorizarem os artistas de resistência e as expressões culturais que não são absorvidas pela indústria cultural. “A esquerda precisa compreender que as ideias, os afetos, os sentimentos, a coesão, os laços com a ancestralidade não estão em panfletos, não estão em carros som, não estão em plenárias, apenas. Eles estão em toda a nossa força. E se a indústria cultural não absorve o artista de resistência, isso significa que ele só tem a vontade dele para existir. E eu percebo que a ampla esquerda também não absorve o artista de resistência. Discute a revolução, a tomada do poder, mas quando faz a sua festa coloca indústria cultural para tocar, quando paga artistas da indústria cultural paga o valor do mercado, e para o artista de resistência paga ajuda de custo, às vezes um lanche, porque ele tem consciência, porque ele é revolucionário”, ressaltou, convidando as e os participantes à reflexão.

Durante toda a sexta-feira (9), ocorreram atividades culturais do Fecult da Unila e, no final do dia, a apresentação dos maracatus Baque Mulher e Alvorada Nova conduziram, num cortejo pelos corredores da universidade, os e as participantes de volta ao auditório onde aconteceu o show de encerramento do evento com Letícia Sabatella e a Caravana Tonteria.



Avaliação 
O evento do ANDES-SN na Unila reuniu o II Seminário Internacional Educação Superior na América Latina e Caribe e Organização dos/as Trabalhadores/as, I Seminário Multicampia e Fronteira e o I Festival de Arte e Cultura: Sem fronteiras, a arte respira lucha (arte respira luta. Luta respira arte), que aconteceram de forma intercalada de 6 a 9 de dezembro.

Ao todo, cerca de 150 docentes de seções sindicais de todo o país, mais de 35 convidadas(os) debatedores(as) e mais de 50 artistas envolvidas(os) nas expressões individuais e coletivas foram recebidos no campus Jardim Universitário, que tem em sua entrara um mural em homenagem à Marielle Franco. A organização do evento envolveu membros da diretoria do ANDES-SN, da Sesunila SSind e também da Adunioeste SSind.  Dentro da programação também foi realizado um ato em defesa da Educação Pública e pela integração Latino-americana, na Ponte da Amizade, que liga o Brasil ao Paraguai.

“Para a Sesunila SSind, e certamente também para a Adunioeste SSind, foi muito importante receber os seminários e o festival, dando encaminhamento à deliberação do Congresso do nosso Sindicato. Realizar essas atividades de formação, debate e arte aqui na fronteira permitiu lançar luz não apenas à nossa realidade, mas também para as contradições e também para as potências dos territórios de fronteira. Pelo que pudemos debater numa das mesas do seminário, há uma estimativa de que temos em zonas de fronteira 12 universidades federais, com 22 campi, e 04 universidades estaduais, com 42 campi”, afirmou Fernando Correa Prado, presidente da Sesunila SSind. e representante da Comissão Local de organização.

 Rivânia Moura, presidenta do ANDES-SN, destacou que a programação recebeu muitos elogios das e dos participantes. Ela reforçou a riqueza imensa de debates, de trocas, de pluralidade de diversidade, de profundidade das discussões, com representação de vários países. “Nós vivenciamos, durante esses dias, debates de muita intensidade e, com certeza, nos fortalecemos muito para as nossas lutas e para os enfrentamentos que nós vamos precisar fazer e continuar fazendo ao longo da história do nosso sindicato”, avaliou. 

Para a presidenta do Sindicato Nacional, foi muito acertada a realização do I Festival de Artes e Cultura do ANDES-SN, que culminou com o Festival de Cultura da Unila. “Foi também um momento de muita troca e de muita diversidade, com a presença de vários artistas que passaram por aqui e que trouxera, em suas apresentações, a responsabilidade que esse Sindicato tem de fazer com que a política respire arte cada vez mais, que a arte continue respirando política e nos alimentando, porque a nossa vida e a nossa luta também é feita de arte, de poesia, de música, de maracatu e de tantas outras expressões culturais que tivemos nesses dias”, lembrou. 

Fonte e imagens: ANDES-SN
Edição: Fritz R. Nunes (Sedufsm)

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