UFSM: dados mostram disparidade de mulheres ocupando cargos de chefia SVG: calendario Publicada em
SVG: atualizacao Atualizada em 08/03/23 19h28m
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Milena Freire avalia causas da desigualdade, já que na soma de docentes e servidoras, mulheres são maioria

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A Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) possui um total de 1.921 docentes em atividade, sendo que desse total, 908 são mulheres e 1.013 são homens. No que se refere aos técnico-administrativos, 1.451 são mulheres e 1.058 são mulheres. Os dados são da Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (Progep).

Também fornecido pela Progep, números mostram que, apesar de as mulheres, no caso de docentes, praticamente se equivalerem ao número de homens, e no caso das técnico-administrativas, a presença de mulheres ser bem superior à de homens, quando se analisa a ocupação dos cargos de chefia na instituição (CD, FG e FCC), o espaço das mulheres é bem inferior em relação ao dos homens.

Quando se olha para os chamados CDs (Cargos de Direção), os números apontam:

 Homens: 65 em CDs

Mulheres: 44 em CDs

Esses dados traduzem, em termos percentuais, que os Cargos de Direção são ocupados em 59,63% por homens e 40,37% por mulheres.

Ao observarmos as chamadas Funções Gratificadas (FGs), os números são equilibrados, mas ainda com vantagem dos homens:

Homens: 237 em FGs

Mulheres: 219 em FGs

Registrando os números na forma percentual, isso significa que homens ocupam 51,97% das FGs e mulheres ocupam 48,03%.

Por último, as chamadas Funções de Coordenação de Curso (FCCs), nas quais a desigualdade na ocupação volta a se acentuar.

Homens: 108 FCCs

Mulheres: 75 FCCs

Traduzindo em termos percentuais, os homens ocupam 59,02% das FCCs enquanto as mulheres ocupam 40,98%.

Antes mesmo de analisar os dados da distribuição dos cargos de chefia, a professora do departamento de Ciências da Comunicação da UFSM, Milena Freire, também integrante do Grupo de Pesquisa “Comunicação, Gênero e Desigualdades”, já chama a atenção para um primeiro diferencial: o número de docentes homens ser maior que o de docentes mulheres. Ela lembra que, conforme dados divulgados pelo IBGE, em 2021, as mulheres são a maioria no ensino superior.

Conforme os números levantados pelo Instituto naquele ano, 21,5% das mulheres completaram a graduação, enquanto apenas 15,6% dos homens atingiram o mesmo objetivo. Já em outro levantamento, o percentual indica que 57% dos estudantes de ensino superior são mulheres.

As barreiras

Na visão de Milena (foto abaixo), as barreiras paras as mulheres na academia são muitas. A começar, pela dificuldade em acessá-la. “O ingresso na carreira acadêmica já é mais dificultado para as mulheres, levando em conta questões de ordem social, histórica, cultural”, assinala a pesquisadora.  Segundo ela, a realidade vivenciada é que as mulheres, não somente no caso da academia, têm que dividir o seu tempo com o trabalho reprodutivo, com a dedicação à família.

Um outro aspecto elencado pela docente é que, após a pandemia de Covid-19, também há registros de um número significativo de mulheres que têm abandonado a carreira acadêmica, especialmente a pesquisa. O fator que tem levado a isso, explica Milena Freire, é a dinâmica dentro das instituições, com a exigência cada vez maior de aumento no ritmo da produtividade. Portanto, diz ela, para além do ingresso na academia, é importante refletir sobre as diversas formas que precisam atuar para se manter dentro da lógica já estabelecida.

Os cargos e as lógicas de gênero

Para entender os motivos pelos quais as mulheres ocupam menos cargos de chefia, mesmo sendo uma instituição em que essas mulheres são maioria (TAEs) ou estão em uma situação de equilíbrio com os homens (professorado), Milena destaca que a manutenção ou permanência nesses espaços também precisa ser analisada a partir de uma lógica de gênero.

Para analisar os dados, a pesquisadora da UFSM usa um conceito das ciências sociais, que é o da “homossocialidade”. Esse conceito, segundo ela, guia muito a lógica do produtivismo acadêmico, mas também a dinâmica dentro das universidades e funciona mais ou menos assim:

- Os homens tendem a facilitar os processos para os próprios homens. Mas, como isso acontece? “Não é de uma maneira direta, de o homem indicar o seu próprio colega”, explica Milena. Na verdade, em termos práticos, isso se dá quando um homem busca “fomentar e estimular lógicas que viabilizam muito mais um determinado tipo de trabalho, beneficiando os homens e não as mulheres”.

Ela cita alguns exemplos práticos: “Quando existe uma jornada de trabalho estendida, com reuniões que entram pela hora do almoço, ou que chegam perto da hora de buscar o filho/a na escola, e as mulheres não podem estar presentes. Isso, obviamente, não está descrito em lugar nenhum”, frisa a docente. Contudo, são formas de agir que acabam desestimulando a participação das mulheres, levando em conta que, até por aspectos culturais, elas se sentem mais responsáveis por diversas tarefas no âmbito privado/familiar.

“Teto de vidro”

Um outro aspecto analisado pela professora é quanto à permanência das mulheres nessas funções de chefia. Quando as mulheres ascendem a funções de mando, de coordenação, de gestão, explica Milena Freire, elas ganham visibilidade e passam a ser mais cobradas que os próprios homens em situações similares. Por isso, ressalta ela, para as mulheres é mais difícil ultrapassar esse “teto de vidro”, ultrapassar determinadas camadas e espaços. Justamente porque existe uma “exigência maior, do quanto essa mulher vai dar conta, o que leva ao desestímulo”, frisa.

“Academia sem paredes”

A pesquisadora cita ainda estudos de uma autora portuguesa, Maria do Mar Pereira, atualmente na Universidade de Warwick (Inglaterra), em que ela se utiliza do conceito “academia sem paredes”. O raciocínio de Maria do Mar é de que a lógica do trabalho docente, do pesquisador e da pesquisadora, ultrapassa o limite do trabalho e invade a esfera privada.

Milena explica que a “academia sem paredes” serve para que se reflita o quanto o trabalho docente, muitas vezes, toma todos os tempos da vida cotidiana. A partir da lógica produtivista, situações como prazos de editais lançados no período de férias, por exemplo, acabam naturalizados.  É a lógica que impele a que nunca se deixe de trabalhar, ressalta.

Esse tipo de prática, complementa a docente, tende a ser mais punitiva para as mulheres. Isso porque, conforme dados estatísticos do Brasil, as mulheres têm horas dedicadas ao trabalho doméstico três vezes maior que o que os homens dedicam. “Essa estatística vem diminuindo, dependendo muito da classe social, mas, ainda assim, o gerenciamento dessas tarefas acaba sempre competindo às mulheres”.

Esse aspecto, destaca Milena, precisa ser levado em conta, pois gera conflitos, e as mulheres acabam preferindo abrir mão da carreira de pesquisadora na medida em que, muitas vezes, não conseguem dar conta desse trabalho que invade a vida privada, ao mesmo que também não conseguem dar conta de diminuir a carga de trabalho doméstico.

Portanto, completa a docente, essa sobrecarga acaba sendo um fator muito expressivo na vida de pesquisadoras que relatam situação de cansaço, estafa. Logo, não se tem como deixar de avaliar que, os cargos de liderança, de gestão, são distribuídos a partir de lógicas que são generificadas e hierarquizadas, mesmo que isso não seja formalmente colocado.

Dessa forma, conclui Milena, é possível afirmar que as dinâmicas da vida acadêmica favorecem muito para que os homens continuem produzindo, para que eles possam se retirar da vida doméstica e se dedicar ao progresso dentro da sua carreira.

 

Texto: Fritz R. Nunes
Arte: Italo de Paula
Foto: Arquivo
Assessoria de imprensa da Sedufsm

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