Democracia e autonomia em pauta no seminário "Universidade que queremos" SVG: calendario Publicada em 04/04/25
SVG: atualizacao Atualizada em 04/04/25 17h27m
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Palestrante Márcia Barbosa, reitora da UFRGS, defende universidade autônoma, diversa e conectada à sociedade

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A tarde desta quinta, 3 de abril, foi marcada por reflexões e provocações sobre o passado, o presente e principalmente o futuro das universidades. A segunda edição do seminário “Universidade que queremos", promovida este ano por Sedufsm, Assufsm, ATENS, Sinasefe e APG-UFSM, contou com a presença da professora Márcia Barbosa, reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

O evento ocorreu no auditório Wilson Aita, no Centro de Tecnologia (CT) do campus da UFSM em Santa Maria. A atividade reuniu docentes, técnico-administrativos em educação, estudantes, integrantes de direções de centro e o reitor da UFSM, Luciano Schuch.

Com uma fala direta e crítica, Márcia abordou os desafios históricos e contemporâneos da universidade pública brasileira, enfatizando a necessidade de uma instituição radicalmente democrática, emancipada e comprometida com a sociedade e o planeta. Em sua exposição, a reitora da UFRGS apontou algumas ações que podem fortalecer as universidades, considerando, inclusive, o possível retorno do que ela chamou de “governo de incompetentes” — tipo de administração que se manifesta por meio do sucateamento das instituições públicas de ensino.

A discussão teve início com a contextualização realizada pelo diretor da Sedufsm, Everton Picolotto. O docente apresentou, de forma breve, o contexto no qual as universidades brasileiras se consolidaram como espaços de elite e, a partir dos anos 2000, passaram a abrigar maior diversidade entre estudantes e profissionais. No entanto, segundo o dirigente da Sedufsm, essa diversidade ainda hoje incomoda setores privilegiados. Por isso, Picolotto reforçou a relevância do debate sobre democracia, acesso ao conhecimento e inclusão nas universidades.

“Conhecimento é sobrevivência”

Durante sua fala, a professora Márcia Barbosa iniciou com uma provocação: até que ponto a universidade brasileira tem, de fato, dialogado com a sociedade? Para ela, ainda vivemos uma lógica de conforto e isolamento, na qual o conhecimento permanece restrito a uma bolha, excluindo grande parte da população. “Será que queremos conversar? E quais os riscos?”, questionou.

A reitora traçou um panorama histórico do conhecimento construído de modo encastelado, desde a Antiguidade até os dias atuais, ressaltando como a ciência tem sido construída por e para elites, desconsiderando comunidades inteiras, seus saberes e suas necessidades. Isso, muitas vezes, gera uma inclusão que não acolhe e nem agrega, de acordo com Márcia.

Nesse contexto, há uma perda de confiança da sociedade no conhecimento produzido pelas universidades, ainda que as contribuições da pesquisa e do ensino sejam evidentes. Como exemplo recente, Márcia citou o desenvolvimento das vacinas contra a Covid-19 durante a pandemia. Mesmo assim, a desconfiança persiste, sobretudo em temas como as mudanças climáticas, que têm ocupado o noticiário e mobilizado a opinião pública. Sobre isso, ela alertou: “A briga contra o aquecimento global é a droga de entrada da guerra contra a ciência.”

Para a docente, é fundamental reconstruir a confiança no saber acadêmico, substituindo a fé cega por uma relação crítica e comprometida com o conhecimento. “A universidade é esse lugar que cria, guarda e transmite o conhecimento. Precisamos transformar essa universidade para que ela possa sobreviver”, afirmou.

Assim, é fundamental que as universidades estejam ao lado da sociedade não apenas em momentos extremos ou de modo distanciado, mas em constante diálogo, seja para construir conhecimentos, seja para divulgá-los ao maior número possível de brasileiras e brasileiros.

Ações para resistir e transformar

Frente ao diagnóstico da situação das universidades brasileiras, Márcia listou, em sua fala, uma série de ações que podem, se colocadas em prática, reverter os cenários pessimistas da educação superior no país.

Para enfrentar os ataques à ciência e ao ensino superior público, a docente defendeu uma atuação estratégica por parte das universidades, baseada em informação e diálogo com todos os setores da sociedade. A reitora também destacou o subfinanciamento crônico das instituições federais, agravado por uma política deliberada de desvalorização. Comparou o cenário brasileiro ao de outros países e mostrou que, mesmo com eventuais melhorias orçamentárias, o investimento ainda está aquém do necessário.

Márcia criticou o avanço das chamadas “universidades fast food”, voltadas apenas à formação rápida de profissionais para o mercado, e alertou para a diminuição do número de estudantes nas universidades federais.

A professora também evidenciou as desigualdades de gênero na academia. Apesar de as mulheres serem maioria entre estudantes do ensino superior, elas são sistematicamente excluídas à medida que avançam na carreira acadêmica. Segundo Márcia, essa exclusão não é fruto de falta competência ou consequência da falácia da meritocracia, mas de decisões políticas que sustentam a desigualdade de gênero. “A política entra por uma porta, as mulheres saem pela outra”, disse, criticando visões sustentadas pelo machismo e pelo patriarcado nos espaços de decisão e gestão.

Assim, considerar as diferenças é essencial para a universidade, que precisa garantir espaços reais de escuta e de fala. É justamente dessa pluralidade que surgem as inovações mais relevantes, pois, nas palavras de Márcia, “é a diversidade que traz mais inovação disruptiva”.

Outro eixo fundamental para a transformação do ensino superior, segundo a reitora, é a construção de uma noção emancipatória de universidade. Isso significa ser radicalmente democrática, acolhedora e comprometida com os diversos saberes e realidades sociais. “Não substituímos o Estado, o Sistema Único de Saúde (SUS), a segurança – mas a gente conversa, ouve e tenta entender o que os grupos diferentes trazem”, explicou.

Desse modo, a universidade deve ser coerente com seus princípios e pautar-se por uma gestão baseada em evidências, com políticas avaliadas e aprimoradas a partir de dados concretos. Isso possibilita uma administração mais eficaz e alinhada com os compromissos públicos. A partir desses dados, é possível avaliar políticas, identificar áreas que precisam de mais investimento e propor ajustes necessários em cada etapa de gestão.

Ao retomar as questões climáticas, Márcia destacou que também é papel das universidades promover a saúde do planeta e adotar medidas que combatam a degradação da vida. Reforçou que é urgente integrar a pauta da saúde planetária, reconhecer os limites ambientais e combater discursos negacionistas. A ciência, argumenta, não pode estar dissociada da sustentabilidade e da distribuição justa dos recursos. “Todo o conhecimento deve estar limitado aos recursos do planeta”, reforçou, alertando para a resistência de setores que ainda defendem modelos de desenvolvimento baseados na queima de combustíveis fósseis e no desmatamento dos biomas brasileiros.

Durante o debate, o diretor da Sedufsm, Jadir Lemos, questionou como as universidades podem promover a saúde mental e física de suas/seus trabalhadoras/es. Márcia respondeu apontando que, muitas vezes, o problema não é apenas o excesso de trabalho, mas a falta de ânimo coletivo: “Estamos viciados no distante, no online. Teremos que fazer um esforço para estarmos mais presentes, em ações mais coletivas”, pontuou.

Por fim, a reitora fez um chamado à mobilização permanente em defesa da educação e da universidade públicas. “Acredito que seremos capazes de reverter essa situação. Para mim, luto também é verbo”, concluiu.

Representantes da Sedufsm, Atens, Assufsm e Sinasefe, organizadores do seminário, com Márcia Barbosa

Representantes da Sedufsm, Atens, Assufsm e Sinasefe, organizadores do seminário, com Márcia Barbosa

 

Paridade nas eleições para reitoria e fim da lista tríplice

Ao final da exposição de Márcia Barbosa, servidoras/es e estudantes presentes puderam se manifestar na tribuna e colaborar com o debate. Um dos pontos que se destacou na discussão foi a questão da autonomia universitária, especialmente no que se refere à paridade entre os segmentos da comunidade acadêmica nas eleições para reitoria e ao fim da lista tríplice para escolha da gestão universitária.

Márcia enfatizou que a lista tríplice não representa a vontade da maioria, não colabora com o trabalho que as servidoras/es precisam desenvolver com a gestão e constitui uma decisão autoritária que desrespeita o processo democrático. Na ocasião, servidoras/es e estudantes da UFSM também se posicionaram pela paridade no voto para reitoria. "Até o final do próximo ano, precisamos garantir o fim da lista tríplice", ressaltou a reitora da UFRGS.

Nos próximos meses, a UFSM passará pelo processo eleitoral de escolha da nova reitoria, e o debate sobre a paridade mais uma vez se apresenta como forma de garantir voz e vez a toda a comunidade acadêmica na escolha de suas/seus gestoras/es.

 

Texto: Nathália Costa

Fotos: Bruna Homrich

Assessoria de Imprensa da Sedufsm 

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