Ataque à Venezuela mostra que soberania é respeitada se não contrariar interesses norte-americanos
Publicada em
09/01/26
Atualizada em
09/01/26 13h26m
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Docentes analisam motivos que levaram Estados Unidos a invadir país vizinho e que riscos existem para o Brasil
“Este é o nosso hemisfério”. A frase, dita em inglês pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump- “This is our hemisphere”, serve para ilustrar a ação espetaculosa e ilegal conforme o Direito Internacional, realizada por forças militares norte-americanas na Venezuela, no último sábado, 3 de janeiro.
Naquela madrugada, diversos pontos de Caracas e de outras regiões do país foram bombardeados, levando à morte de pelo menos 100 pessoas, enquanto o presidente do país, Nicolás Maduro, era sequestrado e levado para Nova Iorque para ser julgado por suposto envolvimento com narcoterrorismo.
Para o professor de Relações Internacionais do departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM, Günther Richer Mros, a frase do líder estadunidense é “muito reveladora” porque não é só bravata ou exagero retórico. “Quando Trump diz ‘este é o nosso hemisfério”, dando ênfase em ‘nosso’, ele está basicamente atualizando, em linguagem direta, a velha lógica da Doutrina Monroe (*), a ideia de que os Estados Unidos se reservam o direito de decidir o que é aceitável ou não politicamente na América Latina”.
Conforme a análise de Günther Mros, ao dizer isso em público, Trump reafirma uma hierarquia histórica e deixa claro que, para Washington, a soberania dos países da região é algo condicional, válida até o ponto em que não contrarie interesses estratégicos norte-americanos, o que ajuda a entender os motivos das ameaças a países como Colômbia ou Cuba e essas passam a parecer menos excepcionais e mais parte de um padrão recorrente de tutela e pressão no sistema interamericano.
Tatiana de Souza Leite Garcia, professora de Geografia Política do departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) e também bacharela em Relações Internacionais, tem opinião semelhante a respeito da frase de Trump, que expressaria uma versão ainda mais personalista da antiga Doutrina Monroe.
‘Hard power’ e doutrina ‘Donroe’

Tatiana explica que a frase “Este é o nosso hemisfério” reflete a estratégia baseada em ‘poder bruto’ (hard power) e a reivindicação de hegemonia regional dos Estados Unidos, resgatando a histórica política externa para o continente, conceituada como a Doutrina Monroe, lançada em 1823.
A pesquisadora destaca que, em dezembro de 2025, a Casa Branca divulgou a nova estratégia de segurança nacional do presidente Donald Trump: um documento de 33 páginas que define o realinhamento da política externa dos Estados Unidos.
No que se refere ao continente americano e hemisfério ocidental, ressalta Tatiana, passa a vigorar a “Doutrina Donroe”, uma associação da Doutrina Monroe com o governo Donald Trump, que apresenta justificativas para conter as influências externas, nomeadamente China e Rússia, e assim proteger os interesses geoeconômicos dos EUA no continente, sobretudo o domínio no acesso a recursos naturais e minerais estratégicos.
Outro aspecto a ser considerado nesta frase, segundo a professora, é a tentativa de pressão psicológica e o uso de uma estratégia de dissuasão, associando demonstração de capacidade militar e o uso retórico de afirmações de poder (“estamos lá e permaneceremos”) que teria como função “desestimular atores regionais de contestarem os objetivos dos Estados Unidos.”
José Maria Pereira, professor aposentado de Economia do departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM, alerta que a invasão norte-americana à Venezuela “reacende velhos fantasmas na América Latina”. Ele vincula a ação militar do governo norte-americano ao fato de que o país vizinho é detentor das maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, voltando assim a ser palco de disputas geopolíticas que colocam em xeque a soberania nacional e a estabilidade regional.
“A ocupação militar tende a agravar a instabilidade interna, ao mesmo tempo em que abre espaço para a exploração intensiva de suas reservas de petróleo por empresas estrangeiras. O povo venezuelano, que deveria ser o protagonista de sua própria história, corre o risco de se tornar mero espectador de decisões tomadas além de suas fronteiras”, sublinha Pereira.
Brasil pode ser um alvo?
Conforme se percebe pelo noticiário internacional e também pela análise dos/a entrevistados/a, o interesse estadunidense pela Venezuela tem muito mais a ver com o petróleo e outras riquezas, além de buscar afastar a influência de China e Rússia (via Brics) no continente sul-americano do que qualquer outra coisa. Considerando a relação de proximidade econômica entre Brasil e China e levando em conta que o Brasil é um defensor dos Brics e que possui vasta riqueza em petróleo e minérios, correria risco de algum tipo de intervenção?
Na ótica do professor Günther Mros, o Brasil não está na mesma situação da Venezuela, mas também não está totalmente protegido. “Temos grandes reservas de petróleo, minerais estratégicos e uma relação sólida com a China – tudo isso nos coloca num tabuleiro geopolítico sensível”, diz ele.
No entanto, o professor vê a situação em diferenciado patamar. “A diferença é que o Brasil tem mais peso e diversidade econômica, mais canais diplomáticos e uma tradição maior de atuação multilateral. Ainda assim, a história nos mostra que autonomia estratégica sempre gera algum tipo de pressão externa. Essas pressões nem sempre vêm na forma de bombas ou bloqueios, mas podem aparecer como sanções, constrangimentos diplomáticos ou disputas comerciais e tecnológicas”, frisa Günther.
Tatiana Garcia também destaca que o Brasil possui reservas de petróleo (incluindo o pré-sal) e minerais estratégicos, que são relevantes globalmente. Neste caso, ela considera que as preocupações geopolíticas são plausíveis. Ela lembra ainda que nosso país tem fortes laços comerciais com a China, consolidando-se como um parceiro chave em energia e commodities. Por esse viés, avalia ela, o Brasil pode acabar incluído em “uma zona de atrito” se o foco dos Estados Unidos for minar a influência chinesa na região ou controlar recursos naturais críticos.
Todavia, a professora da USP considera que o Brasil possui capacidades política e institucional mais robustas que a Venezuela, bem como uma postura historicamente não alinhada exclusivamente a atores hegemônicos. “Isto, em tese, reduz a probabilidade de uma intervenção direta”, acredita Tatiana. Portanto, diz ela, embora exista risco de pressões diplomáticas ou econômicas, não há, no momento, indícios públicos de ameaças diretas comparáveis à ação militar feita na Venezuela.
A pesquisadora assinala ainda que, recentemente, os EUA negociaram com o Brasil o acesso às terras raras, presentes em nosso território. Segundo ela, os dois países estão em negociações ativas sobre esses produtos, sendo que norte-americanos buscariam segurança no acesso a esses suprimentos, ao passo que o Brasil defende não perpetuar a condição de simples exportador de matéria-prima. “Os acordos em negociação condicionam a transferência de tecnologia dos Estados Unidos e o beneficiamento e refino desses minerais em território brasileiro.”, sublinha Tatiana.

Multilateralismo fracassou?
O episódio ocorrido no sábado, 3, com bombardeio à Venezuela e sequestro de Nicolás Maduro pode ser considerado um exemplo do fracasso do multilateralismo, que é um conceito através do qual se busca fortalecer os mecanismos diplomáticos de grupos de países, e diante de divergência políticas e econômicas, evitar ações individualizadas das nações?
Para o professor Günther Mros, mais do que fracasso, o acontecimento do último final de semana pode revelar o esvaziamento do multilateralismo. “As instituições existem, os discursos continuam falando em cooperação, legalidade, solução pacífica. Mas, na prática, quando uma grande potência decide agir sozinha, pouco se consegue para freá-la. O caso venezuelano deixa isso muito claro. Então, o problema não é falta de normas. O problema é que elas não conseguem constranger quem tem poder suficiente para ignorá-las”, enfatiza o docente da UFSM.
Na ótica de Tatiana Garcia, já se vai mais de uma década desde que o planeta está presenciando sinais claros da crise do multilateralismo. Para ela, uma nova ordem internacional vem sendo configurada, na qual as três principais potências (EUA, Rússia e China) utilizam meios coercitivos (militares e econômicos) para fazer prevalecer seus interesses, sobretudo nos territórios em suas regiões, comumente chamadas de entornos estratégicos.
Ela destaca que, desde 2014, quando houve a invasão da Rússia na Criméia, território que pertencia à Ucrânia, está ocorrendo o deslocamento da diplomacia multilateral para formas de coerção unilaterais, que fragilizam normas internacionais instituídas no pós-Segunda Guerra.
A professora de Geografia Política comenta que a ação unilateral dos Estados Unidos — envolvendo um bloqueio naval imposto a petroleiros vinculados à Venezuela, com ataques a embarcações em águas internacionais com a justificativa de narcotráfico, e a captura de Nicolás Maduro — são indicativos de fracasso do multilateralismo como mecanismo de gestão de conflitos internacionais, que poderiam ter sido acionados via OEA ou ONU, no caso específico da crise venezuelana.
Na compreensão do professor José Maria Pereira, o reposicionamento geopolítico (dos EUA) traz implicações diretas para os países vizinhos. “O Brasil, maior economia da região, encontra-se diante de um dilema: alinhar-se aos interesses de Washington ou reafirmar sua autonomia diplomática. A postura brasileira será decisiva para definir se a América Latina seguirá fragmentada e vulnerável ou se buscará uma resposta coletiva diante da nova ofensiva imperial”, acredita o professor de Economia.
Pereira avalia ainda que a invasão da Venezuela lança luz sobre a fragilidade das democracias latino-americanas. “A incapacidade de construir mecanismos regionais eficazes de defesa e cooperação deixa cada país isolado diante das pressões externas. Sem uma integração sólida, o continente permanece sujeito às oscilações da política internacional e às ambições das grandes potências”, enfatiza.
Quais as saídas para o Brasil?
Diante desse quatro caótico, que mostra uma ofensiva estadunidense para hegemonizar a geopolítica no hemisfério sul, usando inclusive o poder de coerção, qual deveria ser o método de ação do Brasil? É possível implementar medidas de prevenção?
Na visão do professor Günther Mros (foto abaixo), só a diplomacia não resolve, mas sem diplomacia também não há solução. “E é justamente isso que a crise venezuelana deixa claro para o Brasil. O país precisa atuar em várias frentes ao mesmo tempo, fortalecendo o multilateralismo, participando ativamente da ONU, dialogando com os vizinhos e articulando posições conjuntas sempre que possível, como já ocorreu em manifestações diplomáticas recentes”, diz o docente da UFSM.

No entanto, complementa Günther, a ação diplomática precisa caminhar junto com capacidade real, tecnológica, econômica e estratégica, porque autonomia, segundo ele, não se sustenta apenas com bons discursos ou princípios abstratos, mas com a redução de vulnerabilidades externas e a ampliação da margem de decisão própria.
No fundo, ressalta o professor, o episódio venezuelano mostra que, no sistema interamericano, a exceção continua sendo regra quando “interesses grandes” estão em jogo, e quem deseja preservar sua soberania precisa estar preparado para isso no plano político, diplomático e estrutural.
Em relação ao aumento do poder bélico brasileiro, Günther acredita que o aparelhamento das forçar armadas atende demandas que não envolvem uma ameaça de superpotência, como é o caso dos Estados Unidos. “A maior arma do Brasil ainda é a sua capacidade de negociação e o profissionalismo de seu corpo diplomático”, argumenta.
Medidas combinando vários aspectos

Para o Brasil responder de forma estratégica ao atual contexto hemisférico, será necessário combinar medidas diplomáticas, institucionais e de segurança, em curto, médio e longo prazos, afirma professora da USP, Tatiana Garcia (foto acima), que elenca algumas sugestões:
- Incentivar a estabilidade doméstica e regional, com apoio a governos democráticos estáveis, para que consigam, gradativamente, resistir a pressões estruturais e promover o desenvolvimento nacional com menor dependência externa;
- Reforçar diplomaticamente o multilateralismo e a importância do engajamento no Sistema das Nações Unidas, defendendo o respeito ao direito internacional, à soberania dos Estados e à solução pacífica de controvérsias;
- Atuar proativamente em fóruns regionais e inter-regionais (OEA, CELAC, Mercosul) para fortalecer normas de não intervenção e cooperação multidimensionais;
- Consolidar relações com países latino-americanos para construir agendas comuns de cooperação para o desenvolvimento social, econômico, estrutural, ambiental e de segurança, promovendo esforços para fortalecer os arranjos de integração regionais;
- Manter diálogo aberto com os EUA, China e Rússia, sem entrar em embate e/ou aceitar os condicionantes hegemônicos;
- Fortalecer as políticas setoriais de forma integrada e o aparato tecnológico, de segurança e defesa, energético e logístico, e produtivo e capacitação técnica — não como um rearranjo militarista, mas para assegurar autonomia estratégica do Brasil e da América Latina;
- Investir em capacidades de monitoramento e proteção de infraestrutura crítica, em conjunto com parceiros regionais e globais, em condições estratégicas, mas sem dependência e subserviência.
O futuro da América Latina e o Brasil

Na análise de José Maria Pereira (foto acima), o futuro da Venezuela e da América Latina dependerá da capacidade de resistir a esse novo ciclo de intervenção estadunidense. “Se prevalecer a lógica da força, o continente poderá reviver os tempos em que golpes e invasões eram rotina. Mas, se houver articulação regional e defesa da soberania, a crise venezuelana poderá servir como ponto de inflexão para repensar o papel da América Latina no mundo”.
Para o docente aposentado da área de Economia da UFSM, o Brasil pode ter um importante papel nesse tabuleiro geopolítico regional. “O país tem a chance de assumir protagonismo ou de se tornar mais uma peça subordinada no xadrez imperial”, finaliza.
Na última segunda, 5 de janeiro, a diretoria da Sedufsm divulgou uma nota de repúdio à ação militar dos Estados Unidos contra a Venezuela.
(*) A Doutrina Monroe passa a existir a partir do presidente norte-americano James Monroe em mensagem enviada ao Congresso do país em 2 de dezembro de 1823, em que apregoava uma visão de autonomia em relação ao continente europeu.
Texto: Fritz R. Nunes
Fotos: Arquivo pessoal; arquivo Sedufsm e Agência Brasil
Arte de capa: Italo de Paula
Assessoria de imprensa da Sedufsm
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