Uma universidade em estado de exaustão SVG: calendario Publicada em 23/01/26
SVG: atualizacao Atualizada em 23/01/26 13h46m
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Sedufsm sugere que trabalho docente e saúde mental sejam pauta nas discussões da UFSM

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O trabalho docente apresenta uma boa parte de tempo que é ‘invisível’ aos olhos dos outros. Quando a gente diz que dá aula na graduação, as pessoas tendem a pensar que seu tempo de trabalho é o momento que está em sala de aula. O tempo de preparo de aula, de leitura, planejamento, correções de avaliações e outras atividades fica implícito, mas é o maior investimento de tempo. O comentário é de Ana Luiza Ferrer, professora do departamento de Terapia Ocupacional da UFSM há 12 anos, também docente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia e responsável pelo Grupo de Pesquisa ‘Terapia Ocupacional e Saúde coletiva’.

No mês atual, chamado de “janeiro branco”, que chama a atenção para a saúde mental, ao olharmos para o interior da universidade, percebemos que a realidade na instituição, relatada por muitos docentes, é preocupante. Apesar de cada educador/a ter contratualmente regime de trabalho que estabelece um número específico de horas a serem cumpridas, no dia a dia, o que se constata, é que no geral o professor ou professora acaba ocupando momentos importantes da vida pessoal para concluir seu trabalho.

E é esse acúmulo de funções e de trabalho que acaba por levar ao adoecimento, seja ele físico ou mental. Diante disso, a própria Sedufsm está propondo que o debate sobre essa temática seja ampliado, não apenas ouvindo a categoria, mas também buscando saídas por parte da gestão da instituição.

Problema trabalhista

Tatiana Dimov, professora da UFSM há 10 anos, atualmente também leciona na pós-graduação e é chefe do departamento de Terapia Ocupacional. Ela comenta que não é possível dar conta de tudo com a carga horária que possui. “A gente tem um problema trabalhista na UFSM”, sublinha ela. “Se você olha o portal de encargos tem muito docente fazendo mais do que as 40 horas semanais. Se olhar os meus últimos semestres, só na graduação estive quase 20 horas. Se você somar com as 20 horas estipuladas para a chefia, já deu, já não tem mais tempo pra preparar aula, para pós-graduação, para nada”, desabafa.

Questionada se as demandas de trabalho adentram a vida privada, a resposta é afirmativa sem o menor titubeio. “Avança de muitas formas. Quando eu mesma escolho, porque não vejo outra opção, acordar às 5 da manhã para adiantar serviço. Quando eu chego em casa exausta e não consigo nem ouvir o que as minhas filhas falam. Quando eu adoeço pelo trabalho. Tudo isso é avançar”, diz Tatiana.

No entanto, o que mais a incomoda é a onipresença da comunicação virtual. “Uma das coisas que mais me incomoda é o whatsapp, que é uma ferramenta que não só avança, mas que invade os outros espaços de trabalho também. Então, às vezes eu estou de férias, ou com os estagiários, ou esperando uma consulta médica, ou em sala de aula, e respondendo whatsapp”. Para piorar, na visão dela, é que além de tudo, é uma ferramenta que a instituição não está custeando. “Eu sou mãe, moro longe dos meus pais, eu gosto de ter redes sociais para falar com a minha família e amigos. Mas, isso vira um mecanismo para te transformar em uma trabalhadora 100% disponível”, reclama a professora.

Liane Weber, docente na UFSM desde 1998, possui regime de 40 horas com Dedicação Exclusiva. Lotada no departamento de Engenharia Rural, atuando na graduação dos cursos de Agronomia e Engenharia Florestal, ela acrescentou uma tarefa a mais no seu cotidiano desde dezembro de 2020: participar da diretoria da Sedufsm.

“Eu tenho Dedicação Exclusiva na UFSM para trabalhar ensino, pesquisa e extensão. Na nossa Instituição, não temos liberação de carga horária para as atividades sindicais e isso significa que, além das responsabilidades na universidade, temos que encaixar as atividades sindicais na nossa jornada de trabalho”.

Difícil separação

Para Liane, é muito difícil de separar as atividades profissionais da vida pessoal e, assim, acaba sendo normalizado que se avance no tempo que deveria ser destinado a outras tarefas. “Avança sempre, e não é de agora. A carga horária docente é complexa, com atividades de ensino, pesquisa e extensão e, portanto, difícil de separar da vida pessoal, principalmente porque trazemos trabalho para casa, tanto à noite como nos finais de semana”, cita ela.

“As demandas dos tempos atuais são para ontem. A toda hora temos uma demanda diferente que chega a qualquer horário pelos meios de comunicação, seja e-mail ou whatsapp. A maneira como as pessoas se relacionam socialmente hoje em dia, pelas redes sociais, requer que se esteja 100% do tempo atenta, o que é impossível sem adoecer”, analisa Liane.

A alta demanda de tarefas, somada à hiperconexão, acabam por gerar adoecimento, especialmente mental. E essas questões estão na pauta do sindicato e têm sido levantadas e questionadas através de várias ações, como quando se discutiu a questão dos encargos docentes e da necessidade de serem estabelecidos limites para a atividade das e dos educadores.

Conforme Liane, a Sedufsm tem batido na tecla de que não se pode normalizar uma realidade que é adoecedora. “A invisibilidade do adoecimento mental está atrelada ao preconceito sobre a loucura. As pessoas escolhem se calar e sofrer sozinhas por causa do medo de serem julgadas e rotuladas”, argumenta. Ela acrescenta que a diretoria do sindicato tem ouvido as pessoas, dado voz e discutido o tema a partir dos relatos da categoria. “Temos feito um trabalho incessante de não deixar de falar sobre o que incomoda. Porque falar sobre o que incomoda é o princípio da mudança”, defende a vice-presidenta da Sedufsm.

As aulas na graduação, na pós-graduação, orientação a estudantes, inserção em grupos de pesquisa, a participação em colegiados ou a ocupação de cargos de coordenação ou chefia, acabam por fazer com que parte significativa de docentes extrapole a sua carga horária contratual, gerando uma invasão do trabalho nos momentos que deveriam ser reservados ao descanso.

Os efeitos disso, conforme constatam estudiosas e estudiosos, é o adoecimento, tanto físico como mental. Há que se frisar ainda que nesse espectro dos efeitos adoecedores, é preciso fazer um recorte de gênero, tendo em vista que as mulheres são mais afetadas que os homens.

Adoecimento psíquico atinge 52% de docentes no mundo

Ana Cristina Barros da Cunha, professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destaca dados mundiais que indicam prevalências entre 10% a 49% de adoecimento mental, decorrentes do trabalho docente. E o desfecho disso, segundo ela, leva ao estresse, que se agrava. E aí surge a Síndrome de Burnout, que representa um grave adoecimento psíquico pelo trabalho que, segundo cita ela, atinge até 52% de professores e professoras em âmbito mundial.

Ainda segundo a pesquisadora, transtornos mentais como ansiedade e depressão também são frequentes, sendo a depressão um dos transtornos mais relevantes, que pode atingir cerca de 15,9% a 28,9% das e dos docentes.

A professora de Psicologia da UFRJ explica que esse adoecimento mental é um fenômeno multicausal, que envolve fatores internos e externos aos docentes, e que envolvem desde condições desfavoráveis da vida pessoal e familiar, como a falta de apoio e dificuldades financeiras, até fatores laborais, como condições precárias de infraestrutura no trabalho, conflitos com colegas, falta de reconhecimento profissional, problemas de saúde mental estudantil.

Além disso, acrescenta Ana Cristina, a grande competitividade, a alta sobrecarga e o ritmo acelerado de trabalho são também causas desse adoecimento mental. O problema de saúde mental, frisa ela, atinge docentes de todos os níveis de educação, destacando-se o Ensino Superior por fatores diversos, como, por exemplo, a falta de recursos a partir do sucateamento das universidades públicas.

Patologia organizacional do trabalho

Breno Pereira é docente da UFSM há 26 anos. Atua na graduação e no mestrado do curso de Administração, também no mestrado e doutorado profissional em Gestão de Organizações Públicas, onde coordena o Programa de Pós-Graduação: PPGOP.

Segundo ele, nos últimos anos vem ocorrendo uma sobrecarga de trabalho administrativo na vida do segmento docente, o que, para ele, não é problema de uma gestão específica da UFSM.” É um processo silencioso que vem demandando mais tempo e conhecimento dos docentes ao longo dos anos. Nós, da gestão pública, chamamos da ‘burocracia do tecnocrata’. Muitas atividades que eram exercidas pelos técnico-administrativos, hoje, são trabalhos dos docentes”, constata Pereira.

O professor explica que o que tem acontecido é que docentes vêm acumulando atividades burocráticas que tomam cada vez mais tempo das suas atividades pedagógicas diárias. “Observa-se a cada dia, docentes solicitando desligamento dos programas de pós-graduação devido ao excesso de trabalho, tendo em vista a dificuldade em conciliar o trabalho e a vida particular”.

Pereira descreve ainda como algo comum, atualmente, verificar docentes adoecidos, de diversas formas, em seu ambiente de trabalho, tirando licenças ou até ficando distante das suas salas de trabalho, pois ‘estar na UFSM faz mal a alguns’. “Existe uma patologia organizacional ao trabalho docente que pouco é ressaltado nos corredores da instituição”, acredita ele.

Para o professor Breno Pereira, a UFSM precisa acender o alerta para as doenças mentais das e dos docentes e desenvolver políticas e práticas organizacionais que sejam capazes de amenizar tais sofrimentos que, hoje, segundo ele, é claramente perceptível na instituição.

Ana Luiza Ferrer, da Terapia Ocupacional, traz um elemento para agregar nesse debate relacionado à sobrecarga de trabalho. Além das tarefas de graduação, pós-graduação, grupos de pesquisa, coordenações de cursos ou chefias de departamento, a docente vislumbra uma medida interna que teria elevado o conjunto de tarefas docentes.

Para ela, a reforma administrativa que vem acontecendo na UFSM “tem sobrecarregado (e muito) o trabalho das/os docentes, sobretudo quem está ocupando cargo de coordenações e chefias”. Com a reforma, avalia a professora, estaria ocorrendo uma redução de recursos humanos administrativos, um aumento na burocratização das tarefas, com a informatização do trabalho, e uma diversificação de demandas, que envolvem mais cursos, o que implicaria em um envolvimento mais “robotizado e menos personalizado”.

Segundo Ana Luiza, o que se tem vivenciado é o desgaste de docentes que relatam o tempo gasto em responder tarefas administrativas de e-mails e processos na caixa postal dos cursos, que poderiam ser filtradas e, em sua maior parte, respondidas por um servidor administrativo. “Isso faz com que docentes que estão em cargos de gestão, diminuam suas participações em projetos e deixem de produzir da forma como gostariam e como a universidade exige”, critica ela.

“Fui chefe, secretária e síndica”

A falta de suporte administrativo em alguns momentos afeta muito a qualidade do trabalho e ajuda a ampliar o estresse na visão da professora Tatiana Dimov, da Terapia Ocupacional. Ela cita seu próprio caso:

“Entre março de 2024 e agosto de 2025 fiquei sendo chefe de departamento sem secretaria nenhuma. Em agosto de 2025 que a gente começou a ter secretaria integrada e o departamento passou a ser atendido. Além disso, eu também tive que lidar com as demandas de infraestrutura do (prédio) 26d. Nesse período, eu fui professora, chefe de departamento, secretária de departamento e síndica do 26d. E fui cobrada para tanto. É muito desgastante, tive um Burnout horrível do qual ainda estou me recuperando”.

Soma que resulta em fragilização

Bruno Nunes é professor da UFSM desde 2024. É coordenador do curso de Licenciatura em Dança do Centro de Artes e Letras. Para ele, a produção acadêmica é o principal aspecto que adentra a sua vida particular. “Muitas vezes, as demandas de produção científica acabam roubando uma parte do período de minha vida privada para que possam ser realizados inteiramente”, comenta o professor.

E esse acúmulo de funções, que somam a presença em sala de aula, a elaboração de planos de ensino, a escrita de trabalhos acadêmicos, avaliação periódica de produção acadêmica, e mais a coordenação do curso, acabam, segundo ele, fragilizando a saúde mental, ainda mais para quem já tem diagnóstico de depressão, que é o caso dele.

Vânia Schwade tem 11 anos de UFSM. Ela atua na graduação e pós-graduação, sendo ainda coordenadora substituta da Licenciatura em Química. “Possuo dedicação exclusiva. Meu foco é ensino e pesquisa. Para dar conta de tudo, por vezes é preciso trabalhar além do horário”, destaca ela. Vânia ressalta que procura não deixar que o trabalho interfira muito na vida particular, mas considera isso “inevitável no início de carreira”.

Produtividade e capacitação

Quando se fala em sobrecarga de trabalho, um dos aspectos mais levantados são as chamadas exigências de pontuação, para que o docente seja considerado produtivo e assim possa progredir na carreira. Ana Cristina Barros da Cunha, professora do Instituto de Psicologia da UFRJ, avalia que o trabalho docente acadêmico universitário, atualmente, se ampliou para além do tripé ensino-pesquisa-extensão, com a obrigatoriedade de se assumir cargos de gestão desde a entrada na carreira.

Todavia, pondera ela, para o ensino e pesquisa, o/a professor/a recebe capacitação durante os dois anos de mestrado e os quatro anos de doutorado, com a extensão também sendo parte de sua experiência na graduação. Porém, avalia ela, o preparo para o exercício de cargos de administração e gestão é inexistente, o que obviamente sobrecarrega demais o docente, que vai precisar compatibilizar sua carga com todas estas tarefas, ultrapassando facilmente as 40h semanais da jornada de trabalho formal.

Mas, não para por aí, frisa a professora da UFRJ. É preciso somar a isso, também, a exigência de produção bibliográfica e científica de alto padrão, com publicação de livros, artigos Qualis A, participação em congressos, em bancas de graduação e pós-graduação, em comissões julgadoras de concursos, em editais de agências de fomento, assessoria em periódicos científicos e comitês editoriais, que devem ser equilibrados com uma vida pessoal e familiar, sem se abster do cuidado à saúde física e mental.

Ana Cristina relata que vê muitos colegas “priorizarem a carreira, ao invés deles próprios e de suas famílias, especialmente no início da carreira acadêmica, quando a pressão pessoal é maior para se atingir os critérios estabelecidos pelas agências de fomento a fim de se ter competitividade para concorrer aos esparsos recursos públicos para pesquisa, por exemplo”.

Breno Pereira, que coordena o Programa de Pós-Graduação em Gestão de Organizações Públicas relata que o trabalho de um coordenador de pós-graduação é desumano. Segundo ele, as exigências da Capes e a burocracia da instituição tomam quase que a totalidade do tempo do coordenador. Segundo ele, além do trabalho da coordenação, o docente coordenador de programa tem que ter a capacidade de produzir, ministrar aulas, orientar, participar de bancas, publicar artigos e fazer extensão da mesma forma que qualquer professor. “Não há qualquer tipo de regalia”, diz ele, que admite que a sua vida privada é totalmente invadida pelo trabalho, inclusive nos finais de semana.

Liliana Ferreira é docente do Centro de Educação da UFSM há 19 anos, tendo passado pela coordenação do programa de pós-graduação. Na atualidade, trabalha nos cursos de Licenciatura e nos programas de pós-graduação do Centro de Educação e do Serviço Social (CCSH). Ela ainda lidera o Kairós, que é o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho, Educação e Políticas Públicas.

A pesquisadora relata que nem sempre consegue atender a todos os compromissos dentro da carga horária de trabalho e acaba invadindo o tempo fora dele. “Porém, logo reequilibro e retomo a organização do tempo, pois, em primeiro lugar, devo estar eu”, sublinha Liliana.

Ao falar sobre a questão da cobrança constante por produtividade e o quanto isso representa de sobrecarga, física e mental, a professora tem o entendimento de que vivemos uma transformação das instituições que regulam e financiam o ensino superior em microssociedades capitalistas, nas quais importa o seu valor de troca, a despeito da preocupação em aprofundar ou mesmo estudar os temas com os quais trabalha. Para Liliana, atender a essa lógica implica entendê-la o mais possível, a fim de viver certa mobilidade pautada por escolhas.

Ela acredita que no grupo que coordena, o Kairós, há uma compreensão de que produzir “significa escrever sobre uma pergunta que perturba ou sobre um tema que se quer estudar, por isso, produzimos pesquisa e sistematizamos o que pesquisamos”. E complementa:

“Como se trata de uma comunidade acadêmica que agrega muitas e muitos pesquisadores, a escrita e a socialização das pesquisas é praticamente cotidiana. Porém, não há a imposição de produzir, ainda que acabemos produzindo muito por desejo. Eu, por exemplo, sou inquieta, elaboro muitas perguntas, estudo pelo menos uma a duas horas por dia, seja em casa, seja na UFSM. Estudar, escrever e ler são atividades que, ao longo do meu trabalho como professora universitária, me fazem bem, e não se convertem na ‘ditadura’ da produção”, argumenta Liliana.

Para Zulmira Borges, docente do departamento de Ciências Sociais, as mudanças no modo de trabalho são uma constante no modelo econômico vigente, o que acarreta sobrecarga de trabalho, dificulta as relações interpessoais e contribui no agravamento dos problemas de saúde mental. “A influência das tecnologias tem sido estudada pela sociologia desde as primeiras máquinas que mudaram a rotina de trabalho e criaram a alienação do trabalhador e do próprio trabalho. As tecnologias da informação revolucionaram mais uma vez a nossa vida e em especial o trabalho intelectual, pois passamos a trabalhar mais em casa e isso gera uma ilusão de mais conforto e foco, já que supostamente teríamos um ambiente mais acolhedor”, argumenta.

Todavia, analisa a docente, a inclusão do modo virtual de reuniões e de trabalho, especialmente após a pandemia de Covid-19, gerou efeitos imprevistos na organização do trabalho. “Tendo eliminado os tempos de deslocamentos trabalhamos mais tempo e mais intensamente muitas vezes emendando uma tarefa na outra já que economizamos o tempo de viagem até o trabalho”.

Na visão de Zulmira, perdeu-se muito com a virtualidade no aspecto de pequenos intervalos e do tal ócio criativo que era utilizado para descansar a mente. “Com a drástica diminuição dos encontros presenciais, vimos as relações pessoais no trabalho deteriorarem, com micro agressões, ironias e outras formas de tensões que se multiplicam no virtual pela proteção da tela, pela falta do olhar do interlocutor e pela ausência da reação dos outros ouvintes”, destaca.

E acrescenta ainda que “a comunicação e a interação deixaram de ser face a face e ficamos mais focados no argumento de quem fala, mas perdemos todos os outros aspectos da comunicação e da interação social quando estamos na virtualidade”.

Ideias neoliberais

Para Ana Luiza Ferrer, da Terapia Ocupacional, um ponto essencial para analisar a sobrecarga, o estresse e o cansaço geral no trabalho, é direcionar o olhar para o contexto em que este é produzido. “Vivemos em uma sociedade marcada por ideais neoliberais, em que a produtividade com ganho de capital tem destaque importante e que se sobrepõe a outras esferas da vida”.

A docente ressalta que o significado do trabalho na contemporaneidade, assim como suas relações, tem se modificado nos últimos tempos. Para Ana Luiza, o filósofo sul-coreano Byung Chul Han, em seu ensaio ‘A sociedade do cansaço’, auxilia a analisar essas questões, quando chama atenção para a transformação das relações, que antes eram marcadas pela vigilância e controle externo, e atualmente estão dando lugar para um controle interno, de autoexigência, por um imperativo de performance, marcado por um excesso de positividade”.

Na ótica da pesquisadora, as relações de trabalho nas universidades públicas são atravessadas por avaliações contínuas, métricas de desempenho, despersonalizando o trabalho, acirrando disputas por melhores colocações entre pares e intensificando conflitos interpessoais e institucionais. “Esse contexto pode gerar mal-estar e sofrimento, sobretudo quando este último passa a ser interpretado como uma falha individual de adaptação ao meio. Na sociedade do desempenho, a pessoa é convocada a explorar a si mesmo, internalizando exigências de produtividade, positividade e autoaperfeiçoamento”, conclui Ana Luiza.

Invisibilidade e gênero feminino

Na UFSM, a doutora em Antropologia e professora do departamento de Ciências Sociais da universidade desde 1998, Zulmira Borges, é uma estudiosa do tema do adoecimento, inclusive com um recorte de gênero. Quando fez o seu mais recente pós-doutorado, ela realizou uma pesquisa qualitativa com docentes sobre adoecimento e, segundo ela, o que mais se destacou foi a invisibilidade, especialmente entre as professoras.

Segundo Zulmira, todas as pesquisadas relataram adoecimento físico após alguma etapa exaustiva de trabalho. Muitas vezes chegaram a passar por hospitalizações de emergência. Contudo, destaca ela, não havia solicitações de afastamentos. “A maioria toma remédios de uso contínuo e boa parte faz uso de antidepressivos e ansiolíticos”, explica a professora.

Mas, afinal, o adoecimento mental atinge realmente mais mulheres que homens?

Ana Cristina Barros da Cunha, do Instituto de Psicologia da UFRJ, ressalta que embora o adoecimento mental esteja atingindo democraticamente docentes de todos os níveis educacionais, independente de gênero, face às condições de vida e de trabalho que representam riscos importantes para a saúde mental mundial, é perceptível que docentes mulheres têm se mostrado mais vulneráveis a esse adoecimento em função das condições de desigualdades socioculturais pautadas no gênero.

Ela realiza pesquisas, mas os dados ainda são considerados preliminares acerca desse estrato. Porém, Ana Cristina elenca alguns números disponíveis em termos mundiais. Segundo a professora, todas as pesquisas são unânimes em afirmar que docentes mulheres têm maior risco para adoecimento mental no trabalho, quando comparados aos homens, quer seja pela jornada tripla de trabalho, quer seja por serem mais vulneráveis a casos de assédio moral, discriminação e violência no trabalho, especialmente quando estão inseridas em ambientes acadêmicos mais masculinos, como as Engenharias e Tecnologias.

Em estudo com 2.252 docentes brasileiros (952 mulheres e 1300 homens), cita a pesquisadora, com idades entre 35 e 69 anos, estimou-se que 26,8% das mulheres (contra 13,6% dos homens) reportaram transtornos mentais geralmente associados a desigualdades no trabalho, falta de tempo para autocuidado e lazer, e conflitos trabalho-família, sendo este último, o único fator associado aos homens.

Tatiana Dimov, da Terapia Ocupacional, destaca que a mulher, historicamente, tem lidado com a dupla jornada. “Eu vejo isso no meu departamento, como chefe. A gente tem colegas que são mãe solo, que mesmo casadas, os pais das crianças moram ou trabalham em outra cidade. Vemos muitos arranjos familiares em que o cuidado com a casa e com as crianças, às vezes com os idosos também, ficam para a mulher. Então, quando se tem sobrecarga no trabalho, isso é só mais um tijolo na parede”, diz ela.

Para a vice-presidenta da Sedufsm, Liane Weber, quando se olha para a sociedade, fica claro que as demandas para mulheres e homens sempre foram “cruelmente desproporcionais, e pioraram desde que nós, mulheres, alcançamos alguma liberdade com a emancipação financeira”. Com essa emancipação, complementa Liane, vieram a sobrecarga de trabalho, tendo que dar conta da casa, família, emprego, vida social”.

Ana Luisa Ferrer, da Terapia Ocupacional, entende que a sobrecarga e o estresse não atingem as docentes de maneira isolada e isso não deve ser visto como algo individual. Um primeiro ponto a ser considerado, segundo ela, é que há, sim, uma sobrecarga diferente entre docentes mulheres e homens. “Já está dado, do ponto de vista estrutural da sociedade, que o trabalho doméstico e do cuidado ficam a cargo das mulheres, mesmo com os homens, atualmente, tendo uma participação mais ativa nestas atividades”, constata ela

Segundo a pesquisadora, conciliar maternidade, organização e realização das atividades domésticas com o trabalho docente exige um exercício constante de manobras, abdicação do cuidado de si, além de trabalhar com o sentimento de culpa, falta, falha, seja por uma demanda de trabalho ou familiar. “São discursos que aparecem frequentemente nas conversas entre docentes mulheres, o que não ocorre nos espaços onde lideram a maioria masculina”.

Resiliência e culpa

Breno Pereira, professor da Administração e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Gestão de Organizações Públicas, percebe que o trabalho das mulheres é bem maior que o dos homens. Segundo ele, “o sistema é muito cruel com as mulheres”. “Não distingue as mulheres principalmente em suas outras atividades como mães e suas dificuldades com as famílias”. Na visão de Pereira, isso precisa ser repensado e mudado institucionalmente.

Entretanto, o professor chama a atenção para um aspecto. “Observo mais reclamações (da sobrecarga) dos homens. Apesar de a gente verificar o maior trabalho feminino- tenho o exemplo com a minha esposa em casa-, a maioria das reclamações que recebo, atualmente, são dos homens. As mulheres, ao meu ver, parecem ter maior resiliência”, enfatiza.

A professora do departamento de Ciências Sociais, Zulmira Borges, frisa que em nossa sociedade, a mulher é criada para ser mãe e cuidadora e, mesmo as que não foram mães, não conseguem abdicar da tarefa do cuidado de pais ou de outros familiares. “O processo de socialização é muito eficaz e parte do papel feminino se completa no cuidado de filhos, pais ou familiares. É ainda uma função social legítima na nossa sociedade. Quase toda a família tem uma ‘tia’ solteira que vai ser a principal responsável pelos cuidados de doentes”, comenta ela.

Conforme a pesquisadora, a cobrança social nesse quesito é bem menor para os homens e cita um enredo televisivo para explicar. Na última novela das 21h (‘Vale tudo’), a vilã Odete (Roitman), em uma cena em que está acamada avaliando seu papel como mãe diz: “fui péssima mãe, uma mãe ausente, mas se eu fosse um homem teria sido um bom pai, um excelente provedor”. Essa fala, acrescenta Zulmira, viralizou, e a vilã caiu nas graças do público feminino porque falou uma obviedade. “Do homem se exige socialmente muito menos...”.

Saúde mental e a política institucional da UFSM

Quando se fala em saúde mental, a pergunta que logo se faz é qual a política institucional para essa questão? Em contato com o pró-reitor de gestão de pessoas, Frank Casado, ele diz que não há uma política específica sobre saúde mental, mas que ela estará contemplada em uma política de gestão de pessoas da universidade, prevista para ser anunciada ainda este ano.

A informação é melhor explicada pela Coordenadoria de Qualidade de Vida da Servidora e do Servidor (CQVS). Conforme documento encaminhado por Daniela Huppes, coordenadora da CQVS, a UFSM não possui uma política formal de saúde mental. Todavia, a instituição tem desde 31 de outubro de 2022, a partir da resolução nº 110, um colegiado denominado “Comitê de Saúde Mental” (Cosame), vinculado ao gabinete do reitor/a. “Entre as atribuições do Comitê, estão discussões, já em andamento, sobre a criação de uma política institucional de saúde mental para a Universidade”, diz o documento.

Ainda segundo o documento da Coordenadoria, que foi construído a partir de diálogo com a Ouvidoria da instituição, no âmbito da UFSM não há, até o momento, normativa institucional específica dedicada exclusivamente aos riscos psicossociais. Contudo, afirma o texto institucional, o tema está contemplado no conjunto de diretrizes e obrigações aplicáveis à gestão de Segurança e Saúde no Trabalho, especialmente aquelas decorrentes da Portaria Normativa nº 03, de 07 de maio de 2010, e da NR-1 – Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais –, que determinam que a instituição implemente ações de vigilância, promoção da saúde e gestão de riscos no ambiente de trabalho, abrangendo todos os fatores que possam gerar agravos à saúde do servidor, incluindo os de natureza psicossocial.

Confira a íntegra do documento ao final da reportagem, em anexo.

Acompanhe a seguir tabelas comparativas que trazem o número total de afastamentos por ‘CID F’, que corresponde a transtornos mentais e comportamentais. Os números levantados pela CQVS são a partir de 2012 até maio de 2025 e incluem docentes e técnicos, pois a CQVS não conseguiu fazer a separação antes do prazo de publicação.

Em uma parte da tabela está o número total de servidores /as (inclui técnicos/as e docentes) que se afastaram nesses anos, e na outra parte do gráfico, o número total de afastamentos, que inclui o somatório, podendo haver repetição de afastamento de servidores/as.

 

 

Quais as saídas para enfrentar sobrecarga e adoecimento psíquico?

Para a professora Ana Cristina Barros da Cunha, do Instituto de Psicologia da UFRJ, trata-se de algo difícil, que desafia os docentes: equilibrar várias tarefas e se equilibrar em meio a elas. Segundo ela, o equilíbrio é a meta, mas o caminho para alcançá-lo envolverá certamente escolhas e renúncias. “Trabalhar ou fazer uma carreira acadêmica seria uma das primeiras perguntas a se fazer para definir um projeto de vida universitária. Em qualquer uma das respostas é importante ter claro o que cada opção envolve e que ambos os caminhos terão pontos positivos e negativos”, diz ela.

Conforme a pesquisadora, ser docente no Ensino Superior e trabalhar em nível de graduação, lecionando e investindo na formação de novos profissionais é uma possibilidade de trajetória acadêmica, tanto quanto lecionar e orientar em nível de pós-graduação, cumprindo a exigência de pesquisa, produção cientifica, internacionalização e outros. “Essa escolha não deve ser vista como imutável, mas sim como uma possibilidade daquele momento, já que faz parte da liberdade do ser humano em escolher com responsabilidade investir em um projeto de vida pleno de sentidos para sua existência”, sublinha Ana Cristina.

Tatiana Dimov, da Terapia Ocupacional, avalia que a resposta para os problemas não passa por soluções individuais, tendo em vista que as causas são estruturais. Ela aconselha que o movimento sindical deva dar um destaque especial para as pautas locais.

Na ótica de Breno Pereira, a UFSM precisa acender o sinal de alerta e desenvolver políticas de valorização docente, com a diminuição das atividades administrativas. Para ele, a universidade precisa mudar o sistema de progressão docente de forma a avaliar outras atividades desenvolvidas pelos docentes e especificamente com as docentes, para que possam valorizar as suas atividades extra à UFSM. “Por exemplo, na ficha de progressão docente, por que não inserir algum tipo para a valorização de docentes mulheres com filhos pequenos?”, questiona ele.

Finalidade da universidade pública

Ana Luiza Ferrer acredita que do ponto de vista institucional, enfrentar essa situação desgastante significa, em primeiro lugar, resgatar a finalidade da universidade pública, ao que se destina, qual seria sua tarefa primordial, primando pela função social e estabelecendo profundas conexões com o desenvolvimento do trabalho docente. “A universidade pública não existe para atender à lógica de mercado”, enfatiza ela. “Muitas vezes nos vemos afogados em demandas esvaziadas de sentido para atender a uma lógica produtivista”, complementa.

Ela destaca ainda que outro elemento importante seria ampliar o diálogo na comunidade acadêmica, criando espaços mais coletivos, colaborativos, solidários, com escuta efetiva, trocas de experiências. “A universidade é feita por pessoas e para as pessoas. Se não cuidamos das pessoas e das relações, possivelmente não criaremos espaços de pertencimento que gere sensação de segurança para partilhar os anseios, inseguranças, medos, incertezas. Há uma diferença grande entre dizer que tem um espaço para isso e constituir, de fato, um espaço com essas características”, ressalta Ana Luiza.

A docente faz ponderações também sobre o que chama de ‘urgências’ que são criadas em meio a todo trabalho que precisa ser desenvolvido. “Não raro, somos bombardeados por e-mails das pró-reitorias com editais de prazos curtíssimos, que precisam ser respondidos de bate-pronto, ou editais que são lançados em períodos não letivos, em que muitos docentes estão em férias. São demandas que muitas vezes se sobrepõem àquilo que já temos, ampliando a sensação de sempre estar ‘correndo atrás da máquina’,” finaliza.

Para Zulmira Borges, um doa aspectos que contribui bastante para a sobrecarga de trabalho é a “burocratização” cada vez maior. Segundo ela, tudo é registrado em formulários várias e várias vezes. “Muitas vezes temos que preencher a mesma informação várias vezes. Isso eu chamaria de ferramenta passivo-agressiva porque temos que repetir em diferentes formatos o que vai ser feito e o que já fizemos. Então, esse tipo de coisa parece estar baseado em uma ideia de que é preciso manter o sujeito ocupado em uma tarefa monitorável”. E complementa:

“O que estou tentando dizer é que muitas vezes parece que alguém por trás do sistema quer que o professor vire um burocrata preenchendo quadros e tabelas para registrar o que foi trabalhado. Como em uma instituição de ensino pode ser saudável viver sobre égide da desconfiança de que não estamos trabalhando?”, critica Zulmira.

Ainda em termos de sugestões institucionais, Zulmira comenta que é preciso ter menos burocratização, um olhar crítico dos professores e servidores sobre as exigências em transformar trabalho criativo em linguagem numérica e contabilizável e comparável. Além disso, sugere mais círculos de paz e de diálogos na UFSM. “Que todos os coordenadores e chefes passem por formação da comunicação não violenta e os novos professores ingressantes na instituição também”. Para a pesquisadora, é fundamental uma formação sobre a gestão para as e os ingressantes. “Criar mais núcleos de assistência aos professores como temos no moodle, que funciona maravilhosamente”, defende ela.

Outras sugestões

As causas são estruturais e as soluções devem ser coletivas. No entanto, cada docente tem seu jeito de enfrentar uma realidade cada dia mais adversa.

Liliana Ferreira, coordenadora do Kairós, destaca que na UFSM, o que se observa é que a saúde mental é um tema atribuído a um setor, quando deveria ser projeto de todas e todos. “Penso que manter ambientes de convivência em cada Centro, dias que psicólogas/psicólogos da IES possam estar em cada Unidade para escuta, reuniões apenas para expressar como cada servidora/servidor se sente, além de estratégias para minimizar mal-estares e disputas nos grupos menores, setores, departamentos, núcleos etc.”. Além disso, complementa ela, processos reeducativos da convivência interpessoal são necessários, pois herdou-se do período pandêmico a noção de isolamento social. Paralelamente, acrescenta, a revisão das exigências próprias do estatuto da instituição, porque também a sensação de injustiça e de desigualdade de esforços gera a perda da saúde mental.

A pesquisadora comenta que observa todo dia, nas pessoas com as quais se convive, indícios de depressão, Burnout, pânico, bipolaridade e, segundo ela, parece que a Instituição não assume compromisso com essas situações, responsabilizando individualmente os/as servidores/as por sua saúde mental.

Mas, para além das ações institucionais, Liliana sugere algumas formas para que cada um possa enfrentar os entraves que podem levar ao adoecimento físico e mental. Ela sintetiza em alguns tópicos:

“a) autoconhecimento, que advém de se observar, meditar, comprometer-se consigo;

b) rotina de atividade física, pois, desde a Antiguidade Clássica, se sabe que a saúde da mente implica na saúde do corpo e vice-versa;

c) manutenção de grupos de pertença, para lazer, atividades das quais gosta, convivência e conversa;

d) criação de um sistema de planejamento a fim de alocar o tempo nas atividades necessárias imediatamente, a curto e a longo prazo;

e) vigilância quanto a assumir compromissos e avaliação destes como consumidores de seu tempo;

f) sempre que sentir que não está equilibrado, pedir ajuda de uma/um especialista. Fazer terapia ou tratamento psiquiátrico configura-se em um bem para si e para os outros.

Sobretudo, viver dentro e fora da UFSM, sem perder o contato com o mundo, na forma como ele lhe chega. Para mim, pelo menos, essas medidas têm sido eficazes.”

 

Texto: Fritz R. Nunes
Imagens/arte: Italo de Paula
Assessoria de imprensa da Sedufsm

 

 

 

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