Importância dos sindicatos é reconhecida por mais da metade das e dos trabalhadores brasileiros
Publicada em
27/02/26
Atualizada em
27/02/26 19h18m
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Everton Picolotto, presidente da Sedufsm, e Andréia Galvão, docente da Unicamp, discutem a crise e a retomada da legitimidade dos sindicatos no Brasil
Via de regra, o professor e a professora que se sindicalizam buscam amparo e assistência - e, quando isso acontece, são recebidos de braços abertos pela seção sindical docente da UFSM. Mas quantas e quantos, embora tenham necessidade ou até mesmo simpatia pela luta sindical, não dão um passo adiante? Quantas fichas de filiação ficam em cima das mesas aguardando, por meses ou anos, o momento oportuno para serem preenchidas? O cotidiano que engole, a sobrecarga que adoece, o contracheque que se apequena. Na avalanche de obrigações e prioridades, a filiação a um sindicato pode parecer coisa de menor importância, algo que podemos deixar para depois até que a situação abrande ou se torne mais favorável. Ocorre que fortalecer seu sindicato seja, possivelmente, o passo mais assertivo para que isso aconteça.
Isso porque, como destaca o presidente da Sedufsm, professor Everton Picolotto, os sindicatos são instrumentos que reúnem e amplificam as insatisfações individuais, potencializando a capacidade de negociação e pressão por melhores salários e condições de trabalho. “A força do indivíduo é muito pequena, mas quando a gente soma muitos indivíduos reunidos em uma organização que é um sindicato, a gente tem força, potência, referência na nossa base e na sociedade, causando impacto, também, perante as autoridades. Trata-se daquele antigo e verdadeiro slogan: a força do coletivo é muito grande, então a união faz a força”, diz o dirigente.
Mas as pautas que movem a Sedufsm não se esgotam em salários e condições de trabalho, abrangendo, também, a luta pela manutenção da universidade pública, de sua autonomia, de seu orçamento; e, de forma mais abrangente, da democracia e soberania nacionais.
Entre a crise e a retomada
Pesquisa Vox Populi, intitulada “O Trabalho no Brasil”, encomendada pela CUT, Força Sindical, CTB, UGT, CSB, NCST, entrevistou 3.850 pessoas, presencialmente em todo o Brasil, entre maio e junho de 2025. Alguns apontamentos a que se chegou trazem uma ponta de esperança para quem nada cotidianamente contra a correnteza do individualismo: mais da metade (68%) das e dos trabalhadores brasileiros consideram sindicatos importantes para a defesa dos direitos e da melhoria das condições de trabalho; e mais de 70% defendem o direito de greve. Dentre aqueles e aquelas que se declaram autônomos e já foram celetistas, 56% afirmam que gostariam de voltar a assinar contrato de trabalho formal.
Docente do departamento de Ciência Política da Unicamp e pesquisadora de temas como sindicalismo e relações de trabalho, Andréia Galvão sugere que o reconhecimento da importância dos sindicatos expresso nessa e em outras pesquisas recentes possa ser resultado de uma ofensiva contra os direitos das e dos trabalhadores, penalizados com as aprovações das reformas trabalhista (2017) e previdenciária (2019). Frente ao aumento das vulnerabilidades e incertezas, então, os sindicatos voltam a ser refúgio e alternativa. “Quer dizer, as mudanças na conjuntura podem impactar as percepções dos trabalhadores sobre o papel dos sindicatos e sua disposição para se sindicalizar”, argumenta.
Por outro lado, Andréia destacou, em entrevista à Sedufsm, alguns dados que explicitam a crise de legitimidade vivenciada pelos sindicatos ao longo dos últimos anos. Em 2018, por exemplo, o Instituto Inteligência em Pesquisa e Consultoria (IPEC) divulgou que o índice de confiança social (ICS) em sindicatos era de 35 pontos em uma escala de 0 a 100, nível mais baixo dos últimos 15 anos. Embora tenha apresentado uma recuperação, alcançando 49 pontos em 2020, caiu novamente para 41 pontos em 2025.
“A taxa de sindicalização é outro indicador importante. Ela vinha caindo de forma constante desde 2012, quando correspondia a 16% dos ocupados, e em 2023, atingiu o nível mais baixo de toda a série histórica da PNAD-C. A pesquisa do IBGE registrou 8,4% de sindicalizados em 2023, o que equivale a 8,4 milhões de pessoas em um universo de 100,7 milhões de ocupados naquele ano. Em 2024, a taxa de sindicalização aumentou para 8,9%, mas ainda segue abaixo de dois dígitos e cerca da metade do que era em 2012”, partilha Andréia.
Mas a análise desses dados não é tão simples de ser feita. Mesmo com números que podem ser desanimadores, a docente pondera que as dificuldades enfrentadas pelo sindicalismo não o condenam ao desaparecimento, e sim convocam as entidades representativas e seus grupos dirigentes a avaliarem e, talvez, revisitarem suas práticas.
“Ao mesmo tempo em que a filiação é baixa, há um reconhecimento de que os sindicatos têm um papel importante tanto do ponto de vista mais corporativo (isto é, da categoria profissional) quanto mais geral, do conjunto dos trabalhadores, na luta por direitos e proteção social. É verdade que o movimento sindical apresenta dificuldades para dialogar com o conjunto das classes trabalhadoras, sobretudo com os mais jovens e os trabalhadores inseridos nos segmentos mais precarizados. O aumento de contratos precários, da terceirização, o processo de plataformização do trabalho, entre outros fatores, mudaram as condições de trabalho, e isso produz repercussões importantes na subjetividade de quem trabalha e em sua disposição para a organização e a ação coletiva”, analisa Andréia.
Ela cita alguns achados da pesquisa “Percepções sociais sobre trabalho, sindicalismo e direitos”, da qual participa, que apontam para a hipótese de os baixos índices de sindicalização não serem necessariamente justificados pela rejeição das e dos trabalhadores aos sindicatos, mas por outros fatores, como a falta de oportunidade de filiação.
“Algumas pesquisas recentes indicam que há espaço para a sindicalização crescer. Pesquisa do Centro de Análise da Sociedade Brasileira, realizada em 2024, indica que 19% dos trabalhadores entrevistados ‘nunca participaram, mas gostariam de participar de algum sindicato’, o que revela um potencial de recuperação nos indicadores atuais. Ou seja, essa crise de legitimidade pode estar se revertendo”, comenta a pesquisadora, que é líder do grupo de pesquisa CNPq ''Trabalho, reformas neoliberais, movimentos sindicais e sociais'' e integrante do grupo de pesquisa ''Neoliberalismo e relações de classe no Brasil''.
Disputa
A crise enfrentada pelos sindicatos nos últimos anos pode ser explicada por motivos diversos, explica Everton Picolotto, que, além de presidente da Sedufsm, é docente do departamento de Ciências Sociais da UFSM, desenvolvendo pesquisas relacionadas a movimentos sociais, sindicalismo, ruralidades e trabalho. De início, ele comenta que o desgaste do modelo de participação popular coletiva é derivado da implementação, já há algumas décadas no Brasil, do modelo neoliberal, norteado por uma racionalidade gerencial, que promove a individualização e enfraquece os instrumentos coletivos.
“O ideário social neoliberal tenta enfraquecer os sindicatos e os movimentos sociais, porque visualiza que neles está uma força de resistência. Então, nesse sentido, quando os patrões querem enfraquecer o poder dos trabalhadores, enfraquecer o sindicato faz parte dessa estratégia, já que negociar individualmente com os trabalhadores é melhor do que negociar com o sindicato, que fala em nome de todo mundo e tem mais força. Há um ataque articulado à essa perspectiva da participação popular e direta, e da representação coletiva que os sindicatos fazem”, analisa Picolotto.
Assim como Andréia Galvão, o presidente da Sedufsm também pondera que os baixos índices de sindicalização não sejam motivados pela rejeição ou pela indiferença das e dos trabalhadores, mas, muitas vezes, pela falta de dinheiro para arcar com a contribuição sindical.
“Mesmo que os sindicatos tenham passado por esse processo de ataque, de deslegitimação, de perda de recursos que as reformas trabalhistas trouxeram, os trabalhadores têm essa referência nos sindicatos e consideram que eles fazem um trabalho extremamente importante nessa luta coletiva por direitos”, complementa o docente.
O movimento docente
As e os servidores públicos federais conquistaram direito à greve e à sindicalização com a Constituição Federal de 1988. A partir daquele momento, a Associação Nacional de Docentes Federais do Ensino Superior (ANDES) converteu-se em Sindicato Nacional, e as associações locais, formadas nas universidades, converteram-se em seções sindicais filiadas ao ANDES-Sindicato Nacional.
Em Santa Maria, o caminho foi um pouco diferente, pois a maior parte da Associação dos Professores Universitários de Santa Maria (APUSM) não era favorável a se transformar em sindicato, preferindo manter o caráter associativo. Um grupo de professores, então, retirou-se e, no dia 7 de novembro de 1989, fundou a Sedufsm, a fim de dar continuidade e fortalecer a luta sindical docente.
Picolotto avalia que o ANDES-SN e a Sedufsm são uma referência importante para a base docente da UFSM, seja a partir do trabalho que é feito em Brasília ou das mobilizações locais em defesa de direitos, melhorias salariais e condições de trabalho. “Tanto é que quando fazemos atividades sindicais nos campi [UFSM em Cachoeira do Sul, Frederico Westphalen e Palmeira das Missões], sempre somos muito procurados e valorizados pelos colegas. A nossa luta continua atual e relevante”, constata.
Andréia Galvão frisa que o ANDES-SN tem o papel fundamental de coordenar ações e posicionamentos de suas seções sindicais, estabelecendo diretrizes gerais e princípios políticos a serem seguidos nos grandes embates de cada momento, a exemplo da postura contrária à Reforma da Previdência e à Reforma Administrativa, e em defesa do serviço público e da democracia.
“Como um grande sindicato do setor público, o ANDES politiza a atuação sindical, pois negocia com governos, participa da discussão de políticas públicas, convoca manifestações e disputa os rumos da sociedade, em aliança com outras categorias e movimentos sociais. Ao mesmo tempo, precisa levar em conta questões materiais e demandas imediatas de sua base: níveis salariais, reajustes, condições de trabalho, perspectivas de carreira, reconhecimento e valorização profissional, combate a assédios e discriminações, uso de novas tecnologias, teletrabalho, inteligência artificial. Não pode deixar de debater e problematizar nenhum desses temas, sob o risco de se afastar de sua base”, escreve Andréia.
Insubstituível
Diante da individualização do trabalho e da fragilização das garantias institucionais, o que o sindicato faz hoje que nenhuma solução individual consegue substituir? Ao se deparar com esse questionamento, a docente da Unicamp destaca a identidade coletiva e os laços de solidariedade entre trabalhadoras e trabalhadores criados pelos sindicatos, bem como a conexão das lutas corporativas com lutas políticas mais abrangentes, como a defesa dos direitos e, em concomitante, da democracia. Apesar disso, há um caminho longo a ser percorrido pelas entidades representativas de classe, que precisam abraçar uma gama ampla, complexa e interrelacionada de pautas.
"O sindicato tem como tarefa a defesa dos interesses corporativos de sua base, mas não pode se limitar a isso. Precisa ampliar as lutas, assegurar interesses mais abrangentes, porque isso fortalece a organização e a ação coletiva. Precisa lutar por salário e condições de trabalho por meio de acordos e convenções coletivas, mas também incorporar demandas que vão além da dimensão econômica e trabalhista mais imediata, implicando na implementação de políticas públicas e de leis que garantam direitos universais. Precisa assumir a pauta da transição ecológica, pois isso está diretamente relacionado às oportunidades de trabalho; dos riscos psicossociais, pois o adoecimento físico e psíquico acomete um número cada vez maior de pessoas, nos diferentes setores de atividade; precisa discutir o trabalho reprodutivo (que é geralmente gratuito e exercido por mulheres, especialmente mulheres negras) para assegurar um equilíbrio de gênero e racial na realização do trabalho doméstico e de cuidados; discutir políticas públicas e leis que garantam equipamentos sociais (como creches, escolas, unidades de atendimento à saúde, transporte público) e de lazer", exemplifica Andréia.
Por que se filiar à Sedufsm?
Everton Picolotto diz que a Sedufsm é o principal instrumento de defesa dos direitos das e dos docentes da UFSM.
“Estamos atentos e vigilantes o ano todo, na defesa dos direitos da categoria docente, da universidade, da ciência e da soberania do nosso país. Além disso, oferecemos uma série de serviços, como assessoria jurídica e desconto em plano de saúde para nossos colegas docentes. Temos uma sede no centro e uma sede em Camobi para esse atendimento”, reforça o presidente.
De fato, desde o dia 15 de outubro de 2025, a Sedufsm tem uma nova sede, localizada no bairro Camobi. A Casa Clóvis Guterres, assim batizada para homenagear um dos fundadores e primeiro presidente da seção sindical, funciona no número 690 da rua Erly de Almeida Lima, com possibilidade de ser acessada pela própria Avenida Roraima. Sua inauguração concretizou um sonho antigo de diversas gestões que passaram pelo sindicato: ter maior proximidade física com a categoria. Embora a histórica sede do centro, na rua André Marques, 665, siga existindo e cumprindo um importante papel, todo o coração administrativo da entidade foi transferido para o novo espaço, de forma que as e os docentes tenham facilidade de acesso aos serviços e à estrutura sindical.
Jurídico - Um dos serviços, como citado pelo professor Picolotto, é a assessoria jurídica, que oferece consultas gratuitas para filiados e filiadas à Sedufsm. Semanalmente, um representante do escritório Wagner Advogados Associados atende, no centro e em Camobi, professores e professoras que tenham agendado horário previamente. Veja abaixo os horários dos plantões:
Terças-feiras, das 9h às 11h45, na Sede Central (Rua André Marques, 665);
Quintas-feiras, das 14h às 17h, na Casa Clóvis Guterres (Rua Erly de Almeida Lima, nº 690).
Os atendimentos ocorrem nas modalidades presencial, online ou por telefone, mediante agendamento prévio pelos telefones (55) 32225765 | (55) 999622248 ou email sedufsm@terra.com.br.
Familiares (as) – Em 2026, a Assessoria Jurídica da Sedufsm traz uma novidade. Agora, além do atendimento a filiados e filiadas, também oferece consulta gratuita a familiares de filiados que possuam vínculo de previdência com o INSS e tenham questões relacionadas ao Direito Previdenciário.
A única diferença reside no local dos atendimentos. Ao invés de nas sedes da Sedufsm, o atendimento a familiares de filiados será na Rua Alberto Pasqualini, 70, 13º andar, prédio do Santa Maria Shopping, onde fica localizado o escritório de advocacia. As consultas deverão ser agendadas através do telefone (55) 3026 3206, WhatsApp: (61) 3226 6937 ou e-mails: secretaria@wagner.adv.br / telefonia@wagner.adv.br.
Vitórias - A Assessoria Jurídica da Sedufsm também é responsável por diversas conquistas em ações individuais e coletivas, a exemplo da que colocou fim ao custeio conjunto do auxílio pré-escolar e garantiu o pagamento dos valores cobrados indevidamente de docentes que tivessem dependentes menores de 6 anos.
Outra vitória judicial foi a garantia de pagamento do adicional noturno a todas e todos os docentes que, independentemente de estarem em regime de dedicação exclusiva, exerçam atividades laborais entre 22h de um dia e 5h do dia seguinte. O processo ainda condenou a UFSM a pagar os atrasados dos 5 anos anteriores ao ajuizamento da ação em diante.
Unimed – As e os docentes que se filiam à Sedufsm também podem optar por um plano de saúde mais vantajoso para si e sua família. Todos os anos, a diretoria da Sedufsm negocia com a cooperativa de saúde um índice de reajuste que não pese em demasia no bolso da categoria. Mais informações sobre os planos ofertados podem ser obtidas via telefone (55) 3222-5765, WhatsApp (55) 9 9962-2248 e e-mail sedufsm@terra.com.br.
Texto: Bruna Homrich
Arte: Italo de Paula
Assessoria de Imprensa da Sedufsm
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