Leituras para entender os mecanismos do patriarcado
Publicada em
13/03/26
Atualizada em
13/03/26 08h50m
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Professora Mitieli Seixas indica os livros “Cidadã de segunda classe” e “As alegrias da maternidade”, de Buchi Emecheta
Nesta sexta, 13 de março, está sendo retomado o espaço da dica cultural, que será ocupado hoje pela professora Mitieli Seixas, do departamento de Filosofia da UFSM. A docente aproveita a proxcimidade do Dia Internacional da Mulher para sugerir duas obras da escritora nigeriana, Buchi Emecheta.
‘Cidadã de segunda classe’ e ‘As alegrias da maternidade’, conforme Mitieli, ajudam a compreender os mecanismos de crueldade impostos pelo patriarcado às mulheres. Confira abaixo a íntegra da dica.
Mulheres em luta
“Historicamente, o mês de março tem sido dedicado à reflexão e à luta das mulheres pela efetivação de seus direitos. Não poderia, portanto, silenciar diante do clima do nosso tempo, ainda mais tendo em vista a onda de feminicídios que nos assola. Por isso, convido os leitores a visitar duas obras da escritora nigeriana Buchi Emecheta, as quais considero, além de obras-primas da literatura, fundamentais para compreendermos os mecanismos cruéis impostos pelo patriarcado às mulheres.
Recomendo a leitura de ‘Cidadã de segunda classe’ e ‘As alegrias da maternidade’. O primeiro traz elementos autobiográficos, pois como a protagonista Adah, Emecheta foi emigrante e, muito jovem, assumiu a responsabilidade de criar cinco filhos sozinha em uma Inglaterra profundamente hostil às mulheres e, em particular, às mulheres negras. A experiência limite de ser mãe, negra e estrangeira, vivendo um ambiente de violência doméstica, nos obriga a questionar nossas próprias “escolhas” com relação àquilo que consideramos dar sentido às nossas vidas. As Alegrias da maternidade, embora não seja autobiográfico, foi escrito em um momento marcado pela dor pessoal da autora, quando sua filha decide ir viver com o pai que a havia abandonado quando criança e trata da trajetória de uma mulher que aprendeu a acreditar que apenas a maternidade a completaria, e que, em nome disso, sofre diversos tipos de violência.
Vejo nessas obras um ponto de convergência, pois embora as tramas sejam distintas, ambas mostram que o poder do patriarcado opera, sobretudo, sobre o terreno dos desejos e dos sonhos e é nesse domínio simbólico que encontra sua expressão mais eficaz no controle do corpo das mulheres. No caso de Adah, o impedimento ao estudo e à realização profissional serve como uma espécie de anestésico de aspirações que poderiam romper com papéis preestabelecidos por sua cultura e condição social. Em Nnu Ego, a protagonista de As alegrias..., a fetichização da maternidade, algo também presente em nossa cultura, engessa sua identidade e condiciona seus relacionamentos, inclusive de amizade com outras mulheres. Em ambos os casos, o corpo torna-se o meio pelo qual se decide quem tem direito a imaginar um futuro diferente.

Desse modo, vejo um valor pedagógico nessas leituras e, por isso, os recomendo vivamente. A vida dessas mulheres imaginadas por Buchi Emecheta nos ensina que desarticular o patriarcado exige não só combater leis e práticas discriminatórias, mas, principalmente, recuperar para as mulheres o direito de desejar, projetar e reinventar suas vidas livremente.”

Mitieli Seixas da Silva
Professora do departamento de Filosofia da UFSM e Vice-Diretora do CCSH (Centro de Ciências Sociais e Humanas)
Dica cultural
Livro: “Cidadã de segunda classe”
Autora: Buchi Emecheta
Ano: 2018 (Brasil)
Valor: aproximadamente 79 reais.
Livro: “As alegrias da maternidade”
Autora: Buchi Emecheta
Editora: Dublinense
Ano: 2018 (2ª edição)
Valor: aproximadamente 70 reais.
Imagens: divulgação e arquivo pessoal
Edição: Fritz R. Nunes (Sedufsm)
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