Assim como as cotas étnico-raciais, cotas epistêmicas devem mudar o ambiente acadêmico, acredita José Jorge de Carvalho SVG: calendario Publicada em 23/04/26
SVG: atualizacao Atualizada em 23/04/26 17h31m
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Docente da UNB e idealizador do Encontro de Saberes concedeu entrevista à Sedufsm na edição nº 113 do Ponto de Pauta

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Quando as cotas para estudantes negros e indígenas foram finalmente aprovadas na UNB, em 2003, após alguns anos de mobilização, uma transformação importante se iniciava. Era a primeira universidade pública federal a instituir essa ação afirmativa. A partir desse momento, segundo o professor de antropologia José Jorge de Carvalho, uma dívida histórica das universidades brasileiras com parte de sua sociedade começava a ser resgatada. Até então, predominava no ambiente acadêmico a ausência de jovens negros, indígenas, quilombolas e de baixa renda. No entanto, se uma mudança na situação ocorria, ela ainda não alcançava o “currículo eurocêntrico, com esse imaginário racista, europeu”, explica nosso entrevistado da edição 113 do programa Ponto de Pauta. José de Carvalho relata que já em 2004 os estudantes negros que ingressavam na universidade via cotas queriam saber, nas salas de aula do Instituto de Letras, quando leriam os poetas, escritores e dramaturgos negros. A mesma situação acontecia nas artes, na filosofia e em outras áreas.

Se por um lado esta lacuna era exposta pelos estudantes, por outro o Ministério da Cultura promoveu em fevereiro de 2005 o Seminário Nacional de Políticas Públicas para as Culturas Populares, que o professor da UNB, José de Carvalho, um militante da área, ajudou a construir. No encontro, 600 mestres e mestras das culturas populares também demandavam contribuir com a educação formal, estar nas escolas. A reinvindicação aconteceu novamente em um segundo seminário, ainda maior que o primeiro. Foi então que o professor José “provocou” o Ministério da Cultura para encontrar um mecanismo de atender à demanda dos mestres através do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão do Ensino Superior e de Pesquisa (no qual hoje o professor é coordenador). Foi daí que, no ano de 2010, surgiu o Encontro de Saberes através de uma portaria entre Ministério da Cultura e do Ministério da Educação, para a introdução das artes e dos ofícios dos saberes tradicionais nas universidades. “O Encontro de Saberes vem complementando a luta da inclusão que começou com as cotas”, revela o idealizador e iniciador do movimento, que hoje chega a cerca de 25 universidades federais, inclusive na UFSM. “Esse é o contexto e não pode estar separado das cotas, porque era uma dívida que nós tínhamos de mudar o currículo das universidades para que elas reflitam essa diversidade de saberes. Não haveria outra maneira de fazer isso que não fosse com a presença dos mestres e mestras”, reforça.

O movimento foi se fortalecendo e cada universidade buscou conexões que já mantinham com as comunidades tradicionais para incluir os mestres. A metodologia do movimento também se aprimorou ao longo dos anos. José Carvalho lembra que a Lei 10.639 (que instituiu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica) e depois a Lei 11.645 (determinou a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena no ensino fundamental e médio)  já tem mais de 20 anos e não foram, de fato, totalmente implementadas. “Se nós vamos descolonizar e ampliar o currículo para incluir a cultura afro-brasileira, a cultura indígena, temos que ter os mestres e mestres das culturas das comunidades afro-brasileiras, das comunidades indígenas como docentes”. Porém, o professor alerta que o movimento decorre da tomada de consciência, em que um grupo de docentes e a própria reitoria decidem que é importante trazer os mestres das comunidades da região para a universidade.

Transformação no currículo das universidades

“Como você ia fazer isso se os professores não quisessem? Como você ia ser anfitrião de alguém que você não quer? Isso não funcionaria dessa maneira. Ele [Encontro de Saberes] é resultado de um encontro, de um diálogo em que o anfitrião tem que estar disposto a esse diálogo. Então, tem uma figura central na pedagogia do Encontro de Saberes que chamamos de professor-parceiro”, esclarece José Carvalho. Para o docente, este movimento tem como consequência uma transformação no currículo, que hoje ainda segue um modelo europeu: “Todas (universidades) são aquelas caixinhas, a engenharia está aqui, a medicina está aqui, o direito aqui, a arquitetura, as artes não se comunicam quase entre elas. Mas os mestres sabem de muitas áreas, não apenas de uma única. Então você tem que remodelar essa sala de aula, remodelar o currículo, remodelar o sentido do saber também, que não é só racional”.

José Carvalho conta que os mestres não repetem na universidade exatamente como fazem nas suas comunidades, porque estão em um ambiente novo e, de alguma forma, se refazem também, passam pelo desafio de remodelar os seus saberes. O professor destaca que qualquer transformação no currículo tem seu próprio tempo, não se faz por decreto. “Eu não acredito que o MEC, de cima para baixo force as universidades. Isso tem que ser uma conquista, uma conquista de consciência”, pondera o professor de antropologia da UNB. “Até porque não vão descolonizar todas por igual. As universidades são diferentes. Os mestres que estão na Zona da Mata (Pernambuco) estão relacionados com agroecologia, raizeiras. Pode ser que tenha também a algo parecido aí em Santa Maria. Mas como eles vão entrar? Como vão remodelar esse curso do agro, por exemplo? Isso vai ser resultado de um debate, de um trabalho interno com os mestres, com os professores, com os conselhos. Você não decreta essa transformação”, completa o professor.

 As cotas epistêmicas são uma partilha do poder

“Se as vagas das universidades, quase todas, no ano 2000 para trás, estavam na mão apenas da juventude branca, uma parte agora vai estar também com os estudantes negros, com o direito de estar ali. Então você tem uma convivência interétnica e multirracial na sala de aula, que é uma coisa maravilhosa. Nós conseguimos isso em 20 anos”, conta o professor José Carvalho. Ele fala que nas universidades federais não existe mais esse mundo segregado como antes e que essa é uma revolução que foi feita e está em curso. Porém o currículo continuou o mesmo. “[...] se cotas são também uma partilha, [as cotas epistêmicas] serão uma partilha epistêmica, uma partilha do poder. Se o poder estava todo na mão da comunidade branca, então agora uma parte dele também está na mão da comunidade negra, da comunidade indígena, quilombola”.  O professor cita como exemplo os cursos de arquitetura, nos quais o conteúdo segue centralizado na arquitetura ocidental eurocêntrica e que, através dessa mudança epistêmica, deve passar a ensinar também arquitetura indígena, quilombola, caiçara, arquitetura de terreiro. “Você tem que ampliar o campo da arquitetura”, defende o professor.  E o mesmo serve para todas as áreas do conhecimento.

A entrevista completa está disponível em vídeo em nosso canal do Youtube e em áudio no Spotify. Assista ou escute para saber mais sobre a titulação Notórios Saberes, que cria procedimentos e regulamenta a inclusão dos mestres e mestras dos saberes dos povos tradicionais, indígenas, quilombolas e das culturas populares como docentes nas universidades em disciplinas regulares. 

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