Enquete Nacional do ANDES-SN constata intensificação estrutural do trabalho docente
Publicada em
10/06/26
Atualizada em
10/06/26 11h51m
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Diretor da Sedufsm diz que GTSSA local discutirá ações com base em dados da enquete
A Enquete Nacional sobre Condições de Trabalho e Saúde Docente foi consolidada em um relatório e apresentada no dia 29 de maio, durante a reunião do Grupo de Trabalho de Seguridade Social e Assuntos de Aposentadoria (GTSSA), realizada na sede do Sindicato Nacional, em Brasília (DF). Nessa atividade, esteve presente o diretor da Sedufsm, professor Jadir Camargo Lemos.
Participaram dessa enquete 3.591 docentes da ativa e 256 aposentadas e aposentados de instituições de ensino superior de diferentes regiões do país. Houve uma primeira etapa de aplicação da enquete, em 2023, com a participação de 1.874 docentes. A segunda etapa do levantamento foi realizada entre 2024 e 2025 e os resultados expressaram uma intensificação estrutural do trabalho docente.
Cerca de 67,3% das e dos participantes afirmaram que houve aumento das atividades desempenhadas em comparação ao período anterior à pandemia. Além disso, 75,4% relataram trabalhar além da carga horária prevista em seus regimes de trabalho.
A enquete também evidenciou o crescente avanço do trabalho sobre o tempo livre, com atividades profissionais sendo realizadas regularmente aos finais de semana e feriados. Como consequência, 83,1% das e dos docentes ativos afirmaram sentirem-se sobrecarregados, condição associada à pressão por produtividade, ao uso intensivo de tecnologias de comunicação e à dificuldade de estabelecer limites entre a vida profissional e pessoal.
Para o diretor da Sedufsm, Jadir Lemos, a enquete mostra, com base na amostra coletada e estudada, a precariedade das condições do trabalho docente e os impactos dessas condições nos processos de adoecimento da categoria.
Lemos destaca que o trabalho mostra vários cenários de diversificação das tarefas docentes – algumas delas não caracterizam funções de ensino, pesquisa e extensão, e que foram sendo incluídas no trabalho docente. Aponta ainda, segundo ele, a perda do controle da administração do seu tempo laboral e da vida particular, uma vez que não conseguem se desconectar, mesmo nas horas de não trabalho.
Lemos considera que o trabalho coordenado pelo Sindicato Nacional foi muito importante e, que, com os dados em mãos, será possível pensar estratégias de ações. Em nível local, a ideia é reunir o GTSSA para avaliar os resultados da enquete.
Hiperconectividade
O relatório apontou que a utilização intensiva de aplicativos de mensagens, e-mails e plataformas digitais para resolver demandas de trabalho fora do expediente se tornou uma característica permanente da atividade docente.
Entre as e os respondentes, 89,3% relataram utilizar diariamente aplicativos de mensagens para fins profissionais, enquanto 81,8% afirmaram resolver demandas de trabalho frequentemente (37,9%) ou sempre (43,9%) fora do horário regular.
Segundo Jacqueline Lima, diretora do ANDES-SN e coordenadora nacional do GTSSA, a enquete identificou uma relação direta entre a hiperconectividade e a piora das condições de saúde.
De acordo com a enquete, 68,6% das e dos docentes trabalham frequentemente ou sempre aos finais de semana, enquanto 57,5% mantêm atividades laborais durante os feriados.
“A intensificação do trabalho docente se tornou um problema coletivo, agravado pela ampliação das demandas para além da jornada regular e pelo uso de ferramentas digitais. Por isso, é necessário construir estratégias de enfrentamento, no âmbito do ANDES-SN e das seções sindicais, incluindo o diálogo com as reitorias, para melhorar as condições de trabalho e conter a sobrecarga da categoria”, afirmou Jacqueline.
Saúde e adoecimento
Os impactos das condições de trabalho refletem diretamente na saúde da categoria. Mais da metade das e dos docentes (51,8%) relataram uma piora das condições de saúde no último ano. Cerca de 52,5% afirmaram uma redução das horas de sono e 41% disseram ter diminuído a prática de atividades físicas.
As doenças musculoesqueléticas (36,4%), que afetam ossos, músculos, articulações, tendões, ligamentos e coluna vertebral, e os transtornos de ansiedade (35,4%), como síndrome do pânico e fobia social, apareceram entre os principais problemas de saúde identificados pela enquete.
Para 67,8% das entrevistadas e dos entrevistados, o adoecimento está diretamente relacionado às condições de trabalho enfrentadas nas instituições de ensino.
O levantamento também registrou que raramente, algumas vezes, frequentemente ou sempre as e os participantes sofreram situações assédio moral (60,9%), violência política (54,1%) e machismo (47,4%) no cotidiano institucional.
Gênero e orientação sexual
O estudo também revelou as desigualdades estruturais dentro da academia. Além de realizarem mais orientações e coorientações de estudantes de graduação, as mulheres acumulam uma carga significativamente maior de trabalho doméstico e de cuidados não remunerados.
As docentes relataram maior sobrecarga no trabalho, registrando 88,1% frente a 77,2% dos homens. Elas também relataram, com mais frequência, dificuldades para cumprir as demandas de trabalho e que estão mais expostas a diferentes formas de violência no ambiente laboral. O machismo é apontado como uma presença constante ("sempre") por 12,5% das professoras, ao mesmo tempo em que o índice entre os homens é de apenas 1%. Outro dado preocupante é que 22,5% das docentes afirmaram sofrer racismo nas relações de trabalho.
O levantamento identificou maior incidência de violência no ambiente de trabalho entre docentes LGBTI+. Entre as e os respondentes, 13,9% se identificaram LGBTI+, 2,6% preferiram não responder, 0,2% indicaram não saber.
Os dados revelaram maior exposição da população LGBTI+ a situações de discriminação e violência no ambiente acadêmico. Cerca de 63% das e dos respondentes afirmaram ter sofrido LGBTI+fobia, com predominância de 13% frequentemente e sempre.
Desvalorização Salarial
O levantamento também apontou para dificuldades financeiras enfrentadas por parcela significativa da categoria. Quase 60% das e dos docentes ativos relataram ter recebido reajustes salariais abaixo da inflação nos últimos anos, em paralelo a 23,5% que afirmaram não ter recebido qualquer reajuste.
Além disso, 67,8% possuem algum tipo de dívida, e mais de um terço realiza atividades remuneradas adicionais para complementar a renda, evidenciando os impactos das perdas salariais e da desvalorização da carreira docente. Docentes pretos, pardos e indígenas apresentaram índices mais elevados de endividamento 77,3%.
Aposentadas e aposentados
Entre docentes aposentadas e aposentados, o relatório mostrou que persistem desigualdades de gênero e raça relacionadas à saúde e ao endividamento. As reformas da Previdência e as mudanças na carreira docente contribuíram para o achatamento salarial e para a deterioração das condições de vida de parte significativa deste segmento da categoria.
Cerca de 39,1% das aposentadas e dos aposentados acreditavam que seu quadro de adoecimento possui relação com o trabalho que exerciam. Além disso, 31,3% relataram redução das horas de sono e da prática de atividades físicas no último ano. Por outro lado, o índice de sindicalização entre a categoria aposentada é elevado, alcançando 91,4%. Entre as e os docentes ativos, esse percentual é de 74,6%.
Perfil
Em relação ao perfil das e dos docentes que responderam as questões, entre as e os docentes ativos, predominam mulheres cisgêneras (53,9%) e pessoas brancas (65,8%). Além disso, 89,5% possuem doutorado, 96,2% têm vínculo efetivo e 91,8% atuam em regime de dedicação exclusiva. A maioria (63,4%) trabalha em instituições federais e exerce atividades principalmente na graduação, embora mais da metade também atue em outros níveis de ensino. Entre as aposentadas e os aposentados, o perfil é semelhante.
Inspiração do trabalho
Inspirada na "Enquete Operária", elaborada por Karl Marx, a Enquete Nacional buscou estimular um processo de reflexão coletiva sobre as condições de trabalho e saúde da categoria, evidenciando o aprofundamento da precarização do trabalho docente, especialmente após a pandemia de Covid-19, além de subsidiar a atuação sindical na defesa de melhores condições de vida e trabalho.
Avaliação
Para o GTSSA nacional, os dados reforçaram que o debate sobre saúde docente não pode ser tratado apenas como uma questão individual, mas deve ser compreendido a partir das condições concretas de trabalho e das desigualdades que atravessam a categoria. “Somos um sindicato classista, mas reconhecemos que existe uma interseccionalidade de gênero, raça e de geração que precisa ser considerada quando planejamos estratégias de luta e enfrentamento”, diz a coordenadora do grupo, Jacqueline Lima.
Conforme a diretora do ANDES-SN, os resultados da enquete devem subsidiar debates nas seções sindicais e fortalecer o diálogo com as administrações das instituições de ensino superior.
Fonte e imagem: ANDES-SN
Edição: Fritz R. Nunes (Sedufsm)
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