UFSM e os desafios da equidade para a população LGBT+ SVG: calendario Publicada em 26/06/26
SVG: atualizacao Atualizada em 26/06/26 12h35m
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Avanços acontecem de forma lenta e Política de Igualdade de Gênero passa por revisão

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Em 3 de novembro de 2021, a Universidade Federal de Santa Maria conseguiu dar um grande avanço, com a aprovação da Resolução nº 064, que estabelecia na instituição a Política de Igualdade de Gênero. De lá para cá, em termos práticos, é possível observar medidas que fazem avançar essa política na instituição, mas também, através de múltiplos olhares, perceber que a evolução é lenta, o que levou ao debate sobre a revisão do seu conteúdo.

O capítulo III da política deliberada em 2021 traz os princípios e objetivos. Em seu artigo quinto consta quais são os princípios da política de igualdade de gênero: I – respeito incondicional à diversidade sexual e de gênero; II – respeito incondicional à liberdade de escolhas e opções dos indivíduos, observados os limites da lei; III – equidade de gênero (igualdade, com respeito às diferenças).

No artigo sexto, que trata dos objetivos da política de igualdade de gênero, diz que ela pretende: I – promover a igualdade de gênero na UFSM, por meio de mecanismos institucionais; II – contribuir para a superação de todas as formas de discriminação de gênero; III – promover formação para a equidade de gênero; IV – estimular a construção de espaços para reflexão sobre atitudes discriminatórias; e, V – desenvolver ações afirmativas de igualdade de gênero.

Passados quase cinco anos após a aprovação dessa política, é possível vislumbrar que cenários temos no que se refere à temática LGBT+ na instituição?

Neila Baldi, docente do curso de Dança-Licenciatura, também diretora da Sedufsm, acredita que a criação de uma política foi um avanço. No entanto, pondera que toda política precisa de ações para ser efetiva. “Talvez por isso, a política da UFSM esteja em fase de revisão, contando, inclusive com sugestões apresentadas pela Sedufsm”. Neila ainda faz parte do Grupo de Trabalho de Política de Classe para as Questões Étnico-raciais, Gênero e Diversidade Sexual em nível local e também do ANDES-SN.

Para a diretora da Sedufsm, falta muito para a efetivação da política aprovada pela UFSM em 2021. “No que diz respeito a pessoas LGBTQIA+, temos as cotas para a graduação e pós-graduação. Garantir o acesso, no entanto, não é garantir a permanência. Ano passado, por exemplo tive um estudante trans, vindo da UFPEL, que reclamou não ter monitoria para acompanhá-lo na escola, em estágio, pois afirmou sofrer preconceito por sua condição”, relata Neila.

Na visão da docente, a universidade precisa levantar quais são as questões que afetam a permanência e colocá-las em resoluções para que a política saia do papel. “Por outro lado, não temos cotas para docentes trans. Esta é uma discussão que a UFSM precisa fazer”, ressalta.

Comitê (CIG) e Casa Verônica

Gustavo Duarte, professor do departamento de Métodos e Técnicas Desportivas do Centro de Educação Física (CEFD), e que também atua no Laboratório de Improvisação e Coreografia (LICOR) e no Grupo de Estudos Corpo e Cultura (GECC), vê muitos limites na atual política da instituição. E uma das críticas apontadas por ele é o fato de haver um comitê para a implementação dessa política, o CIG (Comitê de Igualdade de Gênero), que é apenas consultivo e não deliberativo.

Para o docente, um outro aspecto que incomoda é que para a implantação de ações práticas, como disciplinas que tratam da questão de gênero, ou as vagas suplementares para estudantes trans, ou mesmo os banheiros inclusivos (não somente com espaços binários, mas também previstos para o público LGBT+), depende, segundo Duarte, da “vontade de cada Unidade”. Pela ótica do professor, a política está “muito no papel”.

Mesmo o órgão referência, criado para ser um Espaço Multiprofissional dedicado ao acolhimento de pessoas em situação de violência de gênero e também de promoção da igualdade de gênero na Instituição, que é a Casa Verônica (vinculada ao Observatório de Direitos Humanos/ODH), enfrenta dificuldades no que se refere à questão orçamentária, pois parte significativa de seus recursos é oriunda de emendas parlamentares. E foi justamente o obstáculo financeiro que levou com que a Casa ficasse, nesse momento, sem profissionais para o trabalho de terapia.

Para Neila Baldi, a grande questão, para qualquer política, é a disponibilidade de recursos. Segundo ela, há um desinvestimento na educação desde o golpe contra Dilma Rousseff (em 2016).  Mas, por outro lado, a gestão universitária tem que, pela ótica da diretora da Sedufsm, mesmo com um “cobertor curto”, fazer o possível para implementar a política. E, neste sentido, Neila discorda de que a saída sejam emendas parlamentares. “Precisamos, no orçamento da UFSM, de rubricas para que a política de gênero saia do papel”, frisa.

Milena Freire, professora do departamento de Ciências da Comunicação, componente do Comitê de Igualdade de Gênero (CIG) e atual pró-reitora de Extensão da UFSM, argumenta que “infelizmente”, as emendas orçamentárias são uma realidade nacional de recomposição das universidades. Segundo ela, o aporte institucional na Casa Verônica varia, mas em média é de 80 mil reais por ano, sendo que o extraorçamentário representa em média, 90 mil reais por ano.

Ela cita ainda que, desde 2023, a Casa Verônica publica anualmente o edital de fomento de ações de apoio, contemplando ações de extensão e desenvolvimento institucional sobre a temática de gênero. Isso permitiu, segundo ela, que em 2023 nove ações fossem contempladas, em 2024, 14 ações, e mais nove ações em 2025. Afora isso, dezenas de outras ações realizadas com recursos próprios.

Burocracia

Em relação à falta de profissionais para a terapia, seja com mulheres ou comunidade LGBT+, a pró-reitora confirma que desde o início do ano não estão contando com esses/as trabalhadores/as por uma questão burocrática. “Houve uma interrupção e há um novo processo seletivo. Uma questão de tramitação de rubrica orçamentária, uma questão burocrática”, diz Milena, que tem a expectativa que a partir do mês de agosto já se tenha novamente esses/as profissionais.

Ela explica ainda que estão sendo implementadas medidas que evitem a repetição desse tipo de risco. “Nós entendemos a necessidade institucional de priorização do serviço da Casa Verônica e desde que assumimos, entramos em contato diretamente com o Gabinete da Reitoria, que reconheceu essa demanda. Então, nós já temos tratativas com a Progep (pró-reitoria de Gestão de Pessoas) e com a própria pró-reitoria de Administração para termos, num futuro breve, no interstício entre essa contratação de novos profissionais, uma previsibilidade orçamentária de 20 meses.”

Milena explica ainda que já foi feito um registro formal junto ao gabinete (da reitora), que por sua vez orientou a levar essa demanda para a Progep para concurso público específico e também para a pró-reitoria de Administração. Para o caso de não ter esse provimento de vagas específico pelo MEC, que se possa ter a contratação de servidores/as terceirizados/as, que, mesmo sendo diferente de servidor/as concursado/a, ainda assim, “numa situação mais estável do ponto de vista institucional do que os contratos via o projeto, via emenda parlamentar”.

A pró-reitora de Extensão acrescenta ainda que, embora haja essa lacuna, devido à falta de profissionais, “as pessoas não estão deixando de ser acolhidas” pela Casa Verônica. “Eu tenho o cuidado de fazer essa menção para que a gente não corra o risco de não valorizar o trabalho que tem sido feito pelas pessoas que hoje estão na Casa, que têm feito os atendimentos e dando continuidade, não apenas aos acolhimentos, porque esse não é o único trabalho que a Casa Verônica presta, mas que, em alguma medida, esse trabalho tem sido continuado”, frisa ela.

Ingresso de pessoas transgênero

Avançando na política de igualdade de gênero em relação ao segmento estudantil, a UFSM publicou, em 2023, a Resolução nº 125/23 (pró-reitoria de Graduação) criando o processo seletivo de ingresso de pessoas transgênero. Esse processo prevê vagas suplementares de 5% de cada curso de graduação da universidade a partir de aprovação do respectivo colegiado, após prévia consulta à Prograd, com destinação a pessoas travestis e mulheres e homens transgênero.

Segundo Rosane Mello, da Coordenadoria de Ações Educativas (CAEd) da UFSM, a condição legal para o/a candidato/a se inscrever ao Processo Seletivo de ingresso de Pessoas Transgêneros é comprovar a identificação como pessoa travesti, mulher transgênero, homem transgênero ou pessoa transgênero não binária.

O primeiro processo seletivo dessa modalidade ocorreu em 2024 e seguiram-se dois outros, em 2025 e 2026. Conforme a CAEd, em 2024 foram 71 vagas na instituição, distribuídas em 54 Cursos; em 2025, 120 vagas distribuídas em 77 cursos; e, em 2026, 103 vagas distribuídas em 69 cursos.

Os dados da Coordenadoria mostram ainda que a distribuição desses estudantes trans nas diversas áreas de ensino da UFSM ocorre da seguinte forma: dos/as 29 estudantes ingressantes desde 2024, um escolheu a área das Ciências Agrárias, três a de Ciências da Saúde, dois a de Ciências Exatas e da Terra, quatro a de Ciências Humanas, 11 a de Ciências Sociais Aplicadas, dois a de Engenharias e seis a de Linguística, Letras e Artes.

A permanência

Garantir o ingresso de pessoas trans, por exemplo, é um passo importante. No entanto, a permanência é o passo seguinte e para o qual há ainda obstáculos a serem superados.

Duane Castro, estudante travesti, formada em Teatro-Licenciatura, atualmente bacharelanda em Artes Cênicas e mestranda em Educação na UFSM, problematiza alguns aspectos da Política de Igualdade de Gênero.

No que diz respeito a ações como os processos seletivos para pessoas trans, ela ressalta que “a grande questão é que nem todos os cursos de graduação tem vagas pra esse processo seletivo trans e boa parte dos programas de pós-graduação também não tem a cota trans ativa na reserva de vagas”, argumenta.

Em relação à permanência desses estudantes, Duane, que milita no coletivo ‘Trama’ de pessoas trans na instituição, avalia que não há uma política interna específica para a comunidade LGBTQIAPN+ ou trans, havendo ações de alguns projetos e grupos pontuais. “No projeto Transver, que eu sou bolsista, há uma ‘preferência’ por pessoas trans ocupando a vaga”, descreve ela.

A estudante comenta que a Casa Verônica seria o órgão mais diretamente relacionado para fomentar ações para a comunidade LGBTQIAPN+, mas afirma que sua participação também tem ocorrido em ações do NEABI (Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas) voltadas para essa comunidade.

Todavia, Duane (foto abaixo) entende que o que é desenvolvido são projetos de extensão e pesquisa e não os destinados prioritariamente para ações dentro da própria universidade, que seriam de desenvolvimento institucional. “O que me parece é uma ênfase para a comunidade externa e pouca mudança no regimento interno no que diz respeito a permanência e ao próprio letramento de gênero”, afirma.

O preconceito

No atual contexto, com uma política de gênero que busca a equidade vigente desde 2021, o questionamento à estudante é até que ponto essas medidas têm conseguido evitar o preconceito.

Duane Castro percebe a existência de preconceito e discriminação de natureza LGBTfóbica “bastante enraizado na instituição”, o que reflete no que classifica como “inconsistência de ações de ingresso e permanência”. A estudante diz que “não existe ações de letramento em gênero e sexualidade unificadas para os profissionais atuantes”. Também afirma ter sido vítima de diversas formas de transfobia na instituição, inclusive recentemente, em eventos institucionais, e que isso estaria sendo “normalizado”.

Para exemplificar essas formas de preconceito, Duane diz que uma forma de “transfobia institucional” é a política de nome social pra pessoas trans. Segundo ela, frequentemente os nomes civis (‘nome morto’) das pessoas trans estão vazando em dados da instituição, o que não deveria ocorrer. “Através do trabalho no grupo ‘Trama’, temos tentado mudar essa situação”, diz Duane.

Sobre a revisão da Política de Igualdade de Gênero, a estudante considera importante, mas ressalta que a consulta pública teria ocorrido em apenas uma tarde. “Isso não dá conta dos diversos desafios e problemas que enfrentamos na UFSM, especialmente dizendo respeito ao assédio, à LGBTfobia e à misoginia. É covarde essa postura da gestão, que fez uma campanha baseada em política de gênero”, critica.

Sensibilização da comunidade

Milena Freire, pró-reitora de Extensão, entende a questão da permanência como algo especial a ser pensado em termos de política institucional. Ela aventa a questão de bolsas, talvez até políticas de cotas para as bolsas. Entretanto, em sua forma de ver, esse é um processo que precisa passar pela sensibilização da comunidade acadêmica, para a compreensão de que as pessoas da comunidade trans possuem demandas que são distintas de outros públicos.

Então, para a docente e pesquisadora, as políticas de permanência precisam existir, “talvez com bolsas específicas ou muito especialmente no apoio a projetos que trabalhem voltados para essa população, porque as cotas, embora elas sejam, obviamente, muito importantes, elas vão atender sujeitos específicos. Mas, os projetos podem ter uma ampliação ainda mais especial”, acredita ela.

Todavia, Milena considera que para se avançar é preciso também pensar em uma articulação dos atores que fazem parte desse processo, ou seja, indo além dos/as estudantes, chegando a docentes e demais trabalhadores/as. “Servidores docentes e servidores técnico-administrativos, terceirizados, que a gente precisa poder reconhecer, localizar essas pessoas e colocar em articulação, por exemplo, aquelas e aqueles que têm projetos de gênero. E que possam ser projetos vocacionados, que pensem também o processo de permanência. E que seja também a partir de outros apoios, para além do apoio psicológico. O apoio de visibilidade, de valorização, como por exemplo, do Coletivo Trama e assim por diante”, diz a pró-reitora.

Ao analisar a Política de Igualdade de Gênero, que passa por um processo de revisão, Milena Freire vê avanços importantes, como a questão do processo seletivo específico para transgêneros. Ela também explica o debate sobre os banheiros inclusivos. Segundo ela, foram feitas discussões, das quais participou o Comitê (CIG), articulado com a Casa Verônica, com o coletivo de pessoas trans da universidade, avaliando como deveria ser a sinalização dos banheiros, como que essa população se sente representada no modo como essa sinalização está posta.

E, segundo Milena, a partir da Casa Verônica, do Observatório de Direitos Humanos (ODH) e, por sua vez, da Pró-Reitoria de Extensão, foi subsidiada a sinalização dos banheiros para todas as unidades. Assim, diz ela, todas as unidades têm hoje uma sinalização em implementação, porque ficou pronto há um mês e meio, em que nós temos um banheiro para mulheres trans e mulheres cis, e um banheiro masculino para homens trans e homens cis.

Tanto em relação à questão doa banheiros, como na questão das vagas suplementares nos cursos, a docente lembra um aspecto importante que é a questão da autonomia das Unidades e Subunidades. Ou seja, o debate sobre as questões LGBT+ tem sido proposto, mas não há como se fazer nada por um processo impositivo.

Um olhar para as Unidades

Diante de um preceito de autonomia, mas no qual a universidade tem uma política institucional, qual é o olhar das Unidades sobre a Política de Igualdade de Gênero no que se refere às nuances da temática LGBT+?

Direção do CCR

Conforme o diretor do Centro de Ciências Rurais (CCR), Alessandro Dal’Col Lucio, os banheiros e ambientes inclusivos terão placa de identificação nos prédios 42 a 44. Segundo ele, também foi repassada a orientação aos cursos para que façam a discussão sobre disciplinas complementares que tratem de questões de gênero.

Sempre que possível, com apoio do setor pedagógico, o CCR promove discussões sobre as temáticas de gênero. O diretor diz também que acataram a demanda da Casa Verônica sobre a implementação do banco vermelho. Vão inaugurar no início do próximo semestre, com o lançamento do Comitê pelas Mulheres do CCR.

Direção do CEFD

Rosalvo Sawitzki, diretor do Centro de Educação Física (CEFD), afirma que estão realizando espaços de discussão sobre gênero e temática LGBT+, mas entende que ainda são incipientes.

Sobre banheiros inclusivos, diz que estão resolvendo com a Casa Verônica e a Proinfra/Reitoria para instalação de um banheiro específico, não binário, no setor de piscinas. Mas, segundo ele, isso demanda recursos, porque a estrutura do CEFD é dos anos 1970.

Rosalvo cita ainda que no CEFD tem o grupo ‘PET Diversidade’ que tem feito discussões sobre essa temática. Mas, entende que é preciso avançar.

Direção do CAL

No Centro do Artes e Letras (CAL) há debates e reflexões sobre diferentes aspectos das políticas de inclusão e permanência, com destaque à implantação de banheiros inclusivos (discussão presente no planejamento de reforma dos banheiros do prédio 40, já aprovado pelo conselho), ações afirmativas voltadas à população trans e a ampliação de espaços curriculares para a discussão das questões de gênero e diversidade. A informação é do diretor da Unidade, professor Gil Negreiros.

Segundo ele, embora nem todas essas pautas tenham ainda se traduzido em políticas ou ações institucionais específicas no âmbito da Unidade, elas integram o conjunto de temas que mobilizam parte significativa da comunidade acadêmica do Centro.

Também destaca que diversos cursos do CAL abordam questões de gênero e sexualidade em disciplinas, projetos de pesquisa, atividades de extensão, eventos acadêmicos e produções artísticas, contribuindo para a formação crítica dos estudantes e para o fortalecimento de uma cultura universitária comprometida com a diversidade e os direitos humanos.

Colégio Técnico Industrial (CTISM)

O diretor do Ctism, professor Tiago Rizzetti, informa que a Unidade tem buscado realizar diversas atividades sobre igualdade de gênero. Ele cita, por exemplo, que no dia 20 de junho houve o evento ‘Diversidade sem tabu’, que foi organizado por estudantes e sob a coordenação dos professores Jordane Alves e Felipe Bragagnolo.

Tiago destaca ainda que na disciplina de Sociologia, organizada pelo professor Felipe Bragagnolo nos cursos técnicos integrados, no mês de março, houve trabalhos relativos à violência de gênero, com exposição de painéis e vídeos produzidos pelos estudantes.

O Ctism também já inaugurou o seu banco vermelho, com a participação tanto de servidores quanto de estudantes. No curso de mestrado, há a oferta regular da disciplina de ‘Diversidade e Inclusão’.

Colégio Politécnico

Conforme o vice-diretor do Politécnico, professor Moacir Bolzan, nos blocos F-G, em cada andar, há um banheiro específico para LGBT+ e também o banheiro PCD. Portanto, são seis banheiros LGBTs no total.

Ele refere ainda que todos os alunos e alunas têm uma disciplina que é chamada de seminário de formação. Lá são tratados os temas transversais previstos na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Centro de Tecnologia

O professor Mauricio Sperandio, diretor do CT, questionou as coordenações de curso em relação a ações sobre diversidade no Centro, mas não repassou novas informações até o fechamento da matéria.

Centro de Ciências Naturais e Exatas

Conforme relato do diretor do CCNE, professor Félix Soares, no que se refere aos banheiros inclusivos, a resolução prevê um determinado número por prédio e “como temos prédios com diferentes andares e em diferentes locais, estávamos verificando com o setor de infraestrutura  o número e os locais, bem como se há necessidade de  adequação dos espaços, visto o grande número de unidades que já temos nos diferentes prédios do CCNE. Assim, devido à impossibilidade de construção de novos espaços, estamos dando andamento para que o atendimento seja garantido na medida do possível”.

Em relação às cotas suplementares para estudantes trans, Soares explica que todos os cursos de graduação do CCNE ofertaram vagas no último processo seletivo, sendo apenas o de ciências biológicas que não participou.

Centro de Educação

Em relação aos banheiros inclusivos, o diretor do CE, professor Ascísio Pereira, informou que há conversas com as coordenações de curso. Em relação às vagas trans, ainda não se tem essa discussão. No que se refere a disciplinas de gênero, o diretor explica que já há no currículo de alguns cursos, como nos casos da pedagogia e da educação especial.

Centro de Ciências Sociais e Humanas

A diretora do CCSH, professora Sheila Kocourek, ressalta que a Unidade incentiva e apoia ações voltadas à igualdade de gênero e ao debate sobre temáticas LGBT, incentivando tanto iniciativas institucionais quanto as das subunidades.

Cita ainda que divulgam iniciativas promovidas por programas e departamentos e um exemplo é o programa de pós-graduação em Filosofia, que já prevê, em seus editais de ingresso e de bolsas, cotas para pessoas trans, gestantes e mães, o que demonstraria protagonismo das subunidades na promoção de medidas afirmativas.

Sheila destaca ainda a realização de parceria com a Casa Verônica e outras organizações, o que colabora na articulação da Política de Igualdade de Gênero da UFSM. Está previsto, segundo ela, a implantação de banheiros inclusivos nos prédios do CCSH ainda no segundo semestre de 2026, em colaboração com a Casa Verônica. Essa cooperação, explica a docente, se traduz na participação conjunta em eventos institucionais como o Integra CCSH e o CCSH Study Summit.

Centro de Ciências da Saúde

No Centro de Ciências da Saúde, a diretora, professora Maria Denise Schimith, destaca que há propostas de inserção de disciplinas nos cursos de Medicina e Enfermagem. No curso de Medicina, seria uma disciplina obrigatória com o título de "Saúde, diversidade e inclusão", que deverá tratar sobre questões de gênero, sendo incluída no novo currículo. Já no curso de Enfermagem, como há estudantes trans, essa temática vai ser ofertada no novo currículo, em parceria com a política de equidade.

Durante a gestão atual do CCS, que está findando, Maria Denise cita a promoção de encontros em sala de aula, com os primeiros semestres de todos os cursos para discutir temática LGBT, entre outros temas.

Acrescenta ainda a diretora que o Setor de Apoio Pedagógico (SAP) continua sendo inserido para trabalhar nas disciplinas dos semestres iniciais dos cursos, para que, junto com os(as) calouros)(as), discutam temas como preconceito, desigualdades, inclusão x exclusão, assédio, violência, discriminação, estresse acadêmico, diferenças, sentimento de inadequação e incapacidade, entre outros.

Campus de Palmeira das Missões

O diretor do campus de Palmeira das Missões, professor Adriano Lago, afirma que a questão dos banheiros inclusivos está em fase de debate para ser implementado. Ele cita também que naquela Unidade há um grupo que trabalha temas de gênero e diversidade: é o Genvulc (Grupo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Gênero, Vulnerabilidade e Cuidado em Saúde). Lago destaca também o primeiro nome social instituído na UFSM foi em Palmeira das Missões. Segundo ele, o campus tem um histórico em relação ao debate dessa temática.

A docente do departamento de Enfermagem do campus, Fernanda Cabral, trabalha as temáticas de gênero e fez parte do primeiro grupo que integrou o Comitê de Igualdade de Gênero (CIG).

Fernanda cita como um avanço importante na parte de ensino naquela Unidade, a implementação da disciplina ‘Enfermagem em saúde sexual e reprodutiva’ no currículo do Curso de Enfermagem do campus de Palmeira. Segundo ela, desde 2024 essa disciplina aborda políticas públicas e boas práticas científicas na assistência de enfermagem em saúde sexual e reprodutiva de feminilidades, masculinidades e da população LGBTQIA+ nos diversos contextos de saúde.

Campus de Frederico Westphalen

O diretor do campus de Frederico Westphalen, professor Bráulio Caron, disse que consultaria a sua vice-diretora e também as coordenações de curso. Em função de estar em viagem, não respondeu até o fechamento da reportagem.

Campus de Cachoeira do Sul

O diretor do campus, professor Anderson Dalmolin, afirmou que naquela Unidade, o debate ainda está em um patamar embrionário.

Desigualdades: gênero e raça

O que o debate sobre igualdade de gênero e temática LGBT+ tem a ver com raça?

Para Jesse da Cruz, docente do curso de Dança-Licenciatura e integrante da coordenação do Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas (NEABI) da UFSM, esse debate não pode ser dissociado das discussões sobre raça, classe, territorialidade e sexualidade.

É por isso que, segundo ele, o NEABI tem participado das reflexões sobre as políticas de igualdade de gênero a partir de uma perspectiva interseccional, reconhecendo que as experiências de pessoas LGBT+, especialmente negras, indígenas e periféricas, são atravessadas por múltiplas formas de desigualdade e exclusão.

Embora o foco histórico dos NEABIs esteja relacionado à implementação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008 e ao enfrentamento do racismo estrutural, o entendimento é de que as questões étnico-raciais dialogam diretamente com os debates de gênero e sexualidade. “Em diversas ações de ensino, pesquisa e extensão desenvolvidas pelo núcleo, temos buscado promover espaços de escuta, formação e reflexão que considerem as vivências da população LGBTQIAPN+, sobretudo quando essas experiências se articulam às questões raciais”, destaca Jesse.

Ao fazer uma avaliação sobre a Política de Igualdade de Gênero da UFSM, o professor considera que houve mudanças significativas nas últimas décadas. Segundo ele, hoje existe uma maior visibilidade das pautas LGBT+ dentro das universidades, uma ampliação dos debates sobre diversidade e direitos humanos e uma crescente produção acadêmica que problematiza as desigualdades relacionadas à orientação sexual e identidade de gênero. Acrescenta Jesse que também se observa um fortalecimento das políticas institucionais de combate à discriminação e uma maior presença de estudantes, docentes e técnicos LGBT+ ocupando espaços de representação e protagonismo.

No entanto, na ótica do coordenador do NEABI, seguem os desafios. “Ainda convivemos com práticas de LGBTfobia, muitas vezes naturalizadas ou invisibilizadas nos espaços institucionais. Além disso, as desigualdades não atingem todas as pessoas LGBT+ da mesma maneira. Quando observamos as experiências de pessoas negras, trans, indígenas e periféricas, percebemos que os índices de vulnerabilidade social, violência e exclusão continuam alarmantes”, frisa.

Em função de todos esses limitadores, Jesse defende que uma política efetiva de igualdade de gênero precisa necessariamente dialogar com uma perspectiva interseccional, capaz de compreender as diferentes formas de opressão que atravessam os sujeitos.

O que fazer?

Mariana Selister Gomes, professora do departamento de Ciências Sociais da UFSM e coordenadora do Grupo de Pesquisa e Extensão em Gênero, Interseccionalidade e Direitos Humanos (GIDH), tem algumas observações críticas em relação à Política de Igualdade de Gênero da UFSM, mas preferiu abrir sua análise com um olhar otimista.

“A gente tem que ser crítico para poder avançar sempre mais, mas também temos que ver que nós estamos em um contexto de fortalecimento do reacionarismo da extrema-direita. E eu não digo nem conservadorismo, eu digo reacionarismo porque eles querem voltar a questões de tempos atrás. Não conservar o que está, mas voltar, reacionarismo”, diz Mariana.

Ela relata que esteve na ONU em março deste ano, na 70ª conferência sobre a situação da mulher. Mariana foi delegada brasileira na conferência e conta que, pela primeira vez, em 70 conferências, não houve consenso nas resoluções finais. E por que não houve? “Porque os Estados Unidos votaram contra, não queria a palavra gênero, queria apenas a palavra mulher em uma perspectiva universalizada, essencializada e binária”.

A docente vê esse tipo de postura como um retrocesso e isso tem reflexo na sociedade. “Então, nós temos que avaliar a UFSM, a política da UFSM, nesse contexto, e nesse contexto eu sou otimista. Acho que a gente está avançando. Ter cotas para estudantes trans na graduação e pós-graduação não é algo que tem em todas as universidades, ao contrário, são poucas as universidades”, diz a pesquisadora.

Todavia, ela concorda que há um processo de lentidão entre a aprovação da política e seu espraiamento para o interior da instituição. “Eu compartilho realmente dessa preocupação de que nem todas as unidades, nem todos os cursos adotam. Nós temos uma dificuldade da própria forma como a gente gere a universidade, que é a gestão democrática, que é a forma correta, a defesa da autonomia universitária. E isso vai se reproduzindo internamente”, complementa Mariana.

Para a docente, não é possível construir políticas impositivas, mas, ao mesmo tempo, reconhece que essa autonomia, muitas vezes, é usada para manter estruturas atrasadas, que são racistas, machistas, LGBTQIAfóbicas, mas que isso aconteceria, de certa forma, de uma maneira inconsciente, não deliberada.

Sobre algumas iniciativas como a inclusão de disciplinas que tratem da questão de gênero, a professora e coordenadora do GIDH, avalia que é algo relevante. “Eu ministro disciplinas de estudos de gênero, e nesse semestre vou estar aberta a receber estudantes de todos os cursos, mas eles têm que se matricular como matrícula complementar. Tem toda uma burocracia diferente de matrícula, e acaba sendo assim e as unidades, muitas não têm essas disciplinas”, explica.

Para que essa forma menos burocratizada pudesse avançar, Mariana acredita que deveriam ocorrer concursos específicos, com disciplinas optativas dessas temáticas de direitos humanos, de raça e gênero, para todos os cursos e que os alunos pudessem se matricular de forma mais direta. “Que aparecesse como opção de matrícula para todas e todos alunos de todos os cursos”, argumenta. Só que, para isso, insiste ela, seria preciso mais concursos para professores e professoras específicos dessas disciplinas.

Sobre a falta de recursos para a implementação da política, ela concorda que realmente é um problema, e se relaciona inclusive com a questão de concursos, de vagas. “Apesar de estarmos em um governo de esquerda, bem melhor do que governos de direita, ainda assim nós temos escassez de recursos, e toda a questão de um orçamento que vai para o Legislativo”, assinala.

Na visão da docente, a dependência de emendas parlamentares, como o que ocorre com a Casa Verônica, tem um lado que é positivo, que é do ponto de vista da conjuntura, mas do ponto de vista da estrutura, ela entende que é preciso fazer a crítica de que esse recurso esteja em emendas. Para Mariana, o ideal é tentar manter e conquistar mais recursos do ponto de vista do Executivo, para que haja o funcionamento contínuo das “nossas estruturas voltadas para as questões de gênero”, defende.

Questionada sobre sugestões para aperfeiçoar a política de igualdade de gênero na UFSM, a professora diz que é preciso fortalecer a pauta dos direitos LGBTQIAP+, das discussões de gênero em todos os centros. E, para isso, segundo ela, são necessárias vagas específicas para essas áreas, para que tenhamos mais pessoal, mais docentes que trabalhem nesse tema e que possam estar levando essa discussão em todos os centros, através de cursos de formação, debates e disciplinas e graduação e de pós-graduação.

Mariana também entende que é preciso lutar por mais verba para a Casa Verônica, cursos de formação pera o pessoal da Ouvidoria da UFSM, para que eles possam estar sensibilizados e ter informação sobre a questão LGBTQIAP+.

O trabalho do CIG

O Comitê de Igualdade de Gênero (CIG) foi instituído junto com a Política de Igualdade de Gênero. É composto por 15 integrantes entre docentes, técnico-administrativos/as, membros externos e estudantes, que atuam de forma voluntária. Desde janeiro de 2026, o CIG é presidido por Monalisa Siqueira, doutora em Antropologia Social e docente do departamento de Saúde Coletiva do CCS/UFSM, além de integrante dos programas de pós-graduação em Saúde Coletiva e de Ciências Sociais, e da Especialização em Estudos de Gênero.

Monalisa explica que o CIG foi criado com caráter consultivo, conforme estabelecido na norma. Segundo ela, não há regimentalmente a definição de uma periodicidade das reuniões, mas há um comprometimento da equipe de se reunir mensalmente, o que usualmente acontece na Casa Verônica e, eventualmente, na modalidade virtual. Nas reuniões, explica ela, discutem uma pauta que vai sendo construída a partir das demandas que surgem ao longo do mês. “Nos últimos meses, nos dedicamos muito a discutir a revisão da Política de Igualdade de Gênero”, destaca.

Ao fazer uma avaliação sobre a política institucional, Monalisa observa avanços, ainda com “muito trabalho a ser feito, mas com avanços, mesmo que por vezes mais lentos do que gostaríamos”. Nessa linha, ela pontua o processo seletivo de ingresso para pessoas transgêneros na graduação. “Ele é recente, mas tem sido muito importante, inclusive para ampliar o debate sobre as diferentes barreiras de acesso e permanência que essa população enfrenta, bem como ampliar a discussão das cotas na pós-graduação”.

Para a presidente do Comitê, é importante citar a questão dos banheiros inclusivos. “Fizemos junto com a Casa Verônica e com os coletivos várias discussões a respeito da sinalização dos banheiros e estamos em fase de implementação nas unidades. Isso é algo que necessita de diálogo com coordenações, chefias, uma sensibilização com a comunidade acadêmica em geral, campanhas de comunicação etc., que é um trabalho que o CIG tem pensado e proposto junto com a Casa”.

Monalisa também enfatiza a atenção para a questão do Nome Social, inclusive com a apoio dos coletivos e movimentos sociais. “Tomo aqui a questão das cotas e banheiros, mas certamente precisamos intensificar cada vez mais e de forma mais ampla em toda a universidade o debate para estas pautas. Inclusive, o fortalecimento em relação à atuação da Casa Verônica, com a contratação de mais profissionais, que tem feito ao longo dos anos um trabalho fundamental com a população LGBT”.

Desafios à transformação

A presidente do CIG destaca que o debate de gênero no país como um todo tem enfrentado desafios, especialmente para que uma mudança cultural se concretize. Para Monalisa Siqueira, a universidade não está fora desse cenário. “A mudança de projetos pedagógicos curriculares nos cursos, que inclui as disciplinas, por exemplo, depende de uma compreensão da formação que queremos para as/os futuras/os profissionais e do compromisso com os ideais de transformação e justiça social. Infelizmente, isso não é algo simples ou rápido de se produzir”.

Ela acrescenta que tem sido discutido no Comitê, a partir de levantamentos iniciados pela Casa Verônica e também pelo ‘PET Saúde Equidade’, projeto em que ela própria atuou como tutora por dois anos, um crescimento na criação e oferta de disciplinas voltadas para a temática de gênero ou que inclua em alguma medida essa discussão. No entanto, ressalta a professora, isso tem ocorrido de forma “desigual” a depender da área de conhecimento.

“O que quero dizer é que as mudanças não ocorrem de maneira uniforme em todos os espaços e aspectos, mas não quer dizer que não estejam acontecendo. Temos espaços na universidade abertos a propostas e trabalhando a partir dos princípios da equidade e igualdade de gênero, mas temos ainda alguns bem resistentes a esse debate e considero sim um avanço um projeto de pesquisa ou que consiga ser aprovado ou a inclusão de disciplinas optativas em alguns centros e cursos”, encerra Monalisa.

A semeadura

Eu não tenho nenhuma dúvida de que as questões de gênero e em especial as questões da comunidade LGBT+ ainda são um tabu até mesmo na universidade. A avaliação é da professora Milena Freire, do departamento de Ciências da Comunicação e atual pró-reitora de Extensão da UFSM.  

Ela conta que recentemente esteve em Natal, no Compós, que é o fórum principal dos programas de pós-graduação em comunicação, em um GT que é de gênero e sexualidades. “Naquele espaço, especificamente, a gente acompanha pesquisas e discussões bastante qualificadas no que diz respeito à população trans especificamente, das lesbianidades, das pessoas gay. Mas, tenho consciência de que esse fórum que eu participei é muito restrito”.

Sendo assim, complementa ela, há um grande desafio a ser enfrentado por quem trabalha com a temática. “As pessoas que estudam gênero e que se dedicam a isso, a gente precisa sair dos nossos espaços de interlocução e mostrar para a comunidade de forma mais ampla como que esse debate diz respeito à vida das pessoas”.

Milena comenta que, quando é chamada para conversar, fazer  falas mesmo dentro da UFSM, uma das primeiras coisas que aborda – e costuma ser repetitiva nisso- é que não é uma questão de concordância ou de compreensão sobre a temática LGBT+: “é uma questão de respeito, de a gente poder entender e respeitar a experiência da vida das outras pessoas”.

E nesse relato de experiência pessoal, a docente diz que se sente como alguém que está sempre “semeando, semeando”. Milena frisa que “ao longo dos últimos 20 anos, em que tenho um trabalho voltado para a temática, eu vejo muitos avanços. Mas, para quem está vivendo na urgência do dia a dia, a questão tem uma outra temporalidade. Então, acho que a gente tem que estimular esses debates. Por isso, agradeço a oportunidade de poder conversar sobre o tema, porque também é um espaço de visibilidade, de diálogo com a nossa comunidade”.

 

Texto: Fritz R. Nunes
Artes: Italo de Paula
Fotos: Arquivo pessoal
Assessoria de imprensa da Sedufsm

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