Lições que atravessam gerações: do movimento estudantil ao sindicalismo SVG: calendario Publicada em 28/08/26
SVG: atualizacao Atualizada em 28/08/26 20h33m
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Docentes da UFSM relembram experiências e aprendizados da militância na juventude

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Quem vê dirigentes do movimento sindical docente falando, hoje, de forma desenvolta, explicando temas complexos de maneira didática e defendendo, com vigor e convicção, pautas trabalhistas e sociais, talvez não imagine que a maioria deles e delas passaram, anos atrás, por uma escola em comum: o movimento estudantil. Dessa escola, além da destreza para transitar entre grupos diversos, dialogar com as diferenças e negociar com reitorias e governos, herdaram, principalmente, valores. A defesa da universidade e dos demais serviços públicos, de condições dignas de estudo e trabalho, da democracia e da justiça social permaneceu no peito de quem se aproximou, ainda na juventude, da militância política progressista. 

No dia 11 de agosto é celebrado, no Brasil, o Dia da e do Estudante. Nessa matéria, conversamos com docentes da UFSM que tiveram a experiência de militar no movimento estudantil - seja secundarista ou universitário - e os questionamos a respeito das pautas que movimentavam os estudantes em sua época e dos aprendizados que trazem daquele período. 

Não obstante as singularidades de cada vivência, há uma conclusão universal a que podemos chegar: é impossível passar pelo movimento estudantil sem se deixar transformar profundamente. 

Ousadia

“Penso que o movimento estudantil é audacioso, pois não se contenta com as coisas como estão. Ele nos provoca e nos desafia a estarmos atentos às novas lutas e bandeiras. É inquieto, desafiador, então nesse sentido penso que ele tem um papel sempre marcante. O próprio movimento sindical, às vezes, é desafiado pelo movimento estudantil a fazer coisas um pouco diferentes ou fora do script. Ele cumpriu um papel muito significativo na minha formação, e continua cumprindo até os tempos atuais”, Everton Picolotto, docente do departamento de Ciências Sociais e presidente da Sedufsm. 

Na segunda metade da década de 1990, o atual presidente da Sedufsm, Everton Picolotto, residiu na Casa do Estudante Universitário II. Lá, vivenciou diversas precariedades e carências, tendo se engajado no movimento estudantil entre o final da década de 90 e início dos anos 2000, a fim de lutar por melhorias na assistência estudantil e na universidade como um todo.

“Já naquela época a gente lutava contra as políticas neoliberais do segundo governo Fernando Henrique Cardoso. A universidade estava bastante precarizada, então a nossa luta era por recursos, pela valorização da educação, pela contratação de professores efetivos, pela ampliação da universidade e pela assistência estudantil”, relembra o dirigente da Sedufsm, que hoje é docente do departamento de Ciências Sociais da UFSM. Experiências importantes que marcaram sua trajetória como estudante foram os cursos de formação política e os estágios de vivência em assentamentos de reforma agrária.

Daquela época, Picolotto herdou o compromisso com a universidade pública, com a democracia e com a defesa de condições dignas de estudo e trabalho. “A experiência da organização política coletiva foi fundamental na minha formação como professor, pesquisador e liderança sindical. É importante fortalecermos sempre a atuação política dos nossos estudantes para que formemos novas lideranças nesse espaço que é muito importante e legítimo dentro da universidade pública", concluiu. 

Tomada de posição 

“Eu acredito que ter participado do Movimento Estudantil [ME] foi uma grande escola para a minha vida, que me impactou profundamente. A participação no movimento fazia com que a gente precisasse continuamente refletir sobre as questões e estudar para poder defende-las. Então, toda a minha formação no campo do pensamento materialista, histórico e dialético se deu através do ME, e não necessariamente através da sala de aula. Essa compreensão me trouxe princípios e valores que me permitem acreditar que é possível construir um novo mundo, onde não haja explorados nem exploradores, oprimidos e nem opressores. Esse era o nosso grande sonho, e eu continuo o carregando comigo”, professor Anderson Machado, do departamento de Geociências da UFSM.

A história de Anderson Machado com a universidade começou há pouco mais de duas décadas, quando veio de São Pedro do Sul para estudar Geografia em Santa Maria. Desde fevereiro de 2005, quando chegou na cidade para realizar a confirmação de vaga no curso de graduação, até 2012, quando concluiu seu mestrado, ele passou por diversas experiências de militância estudantil, assumindo a direção da Casa do Estudante Universitário (CEU) II e de duas gestões do Diretório Central dos Estudantes (DCE), além de integrar o movimento negro. Uma dessas vitórias marca especialmente as memórias de Anderson.

“Fui coordenador-geral de mais uma gestão do DCE, chamada Viração [2008-2009], que tinha um nome bastante emblemático porque nós estávamos tentando combater a direita, que, à época, se organizava no Movimento Estudantil, e os derrotamos em uma eleição com esse nome histórico”, lembra.

Dentre as pautas que mais mobilizavam os estudantes e suas entidades representativas em sua época, Anderson destaca duas: a luta por assistência estudantil, que se expressava localmente com a defesa de ampliação das vagas nas moradias estudantis, melhoria das acomodações e construção de um novo Restaurante Universitário [RU], e em âmbito nacional com a elaboração do Plano Nacional de Assistência Estudantil, o PNAES. A outra mobilização central girava em torno do transporte público da cidade, com protestos que pleiteavam barrar o aumento da tarifa e promover uma licitação pública e transparente do transporte coletivo urbano.

Uma lembrança muito vívida do então docente é a ocupação do prédio da Reitoria da UFSM em 2007, quando estudantes pressionaram pela ampliação do RU já existente e pela criação de um novo para dar conta da necessidade estudantil, além de defenderem a manutenção do prédio de apoio [localizado no centro de Santa Maria] como um espaço de extensão universitária. Ambas as batalhas foram vencidas: hoje o segundo Restaurante já é uma realidade e o prédio de apoio não foi vendido.

“Outra pauta muito importante daquele período [entre 2006 e 2007] foi referente às políticas afirmativas, sobretudo à adesão das cotas étnico-raciais e sociais na UFSM. Nós cumprimos um papel muito importante, dialogamos muito com o movimento negro e fomos discutindo esse tema em cada sala de aula, com professores, diretores de centro que votavam no conselho universitário. Foi uma grande batalha, mas conseguimos aprovar, com o voto de Minerva do reitor à época, professor Clóvis Lima, a primeira política afirmativa da UFSM. Cumprimos um papel muito importante para essa implementação, que em 2027 completará 20 anos”, resgata Anderson Machado.

Além da universidade – O movimento estudantil dificilmente se esgota em si mesmo e limita sua atuação aos problemas da universidade, espraiando sua força política para bandeiras comuns a uma gama maior de indivíduos, quando não a toda sociedade. Foi o caso da Campanha contra o Deserto Verde, que criticava a expansão desenfreada do complexo industrial de papel celulose por algumas regiões do Brasil, dentre elas a campanha gaúcha. Anderson lembra que a mobilização afrontava os interesses dos grandes proprietários de terras, cujas representações estavam, também, dentro da universidade. Debates sobre o papel das fundações nas universidades, sobretudo diante da nova Lei de Inovação Tecnológica elaborada pelo governo Lula no ano de 2004, afloravam entre os estudantes, tendo colaborado para a posterior Operação Rodin, que identificou contratos irregulares e um esquema de desvio de recursos públicos.

REUNI – Anderson acompanhou de perto a adesão da UFSM ao REUNI (Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais), em 2007. À época, retoma o professor, ele e seus colegas do movimento estudantil defendiam que a expansão não se desse de forma precarizada, mas com qualidade, conforme preconizado no programa de Universidade Democrática e Popular.

“É claro que hoje a gente faz mais mediações do que fazia no passado, mas acreditando sempre na possibilidade de um mundo melhor, mais solidário, onde as nossas diferenças possam coexistir, um mundo onde caibam diversos mundos, como dizem os zapatistas. Essas questões eu carrego comigo até hoje e continuo lutando, seja aqui na universidade ou em outros espaços, para que a gente consiga transformar essa sociedade. Sabemos que hoje o mundo vive uma ascensão de forças de extrema-direita, então nós precisamos nos posicionar frente a isso. E o movimento estudantil me fez aprender a tomar posição. Sou um docente que luta para que essa universidade seja aquela universidade que nós sonhamos. Hoje a gente tem outras palavras para nomear aquele projeto que nós chamávamos de democrático e popular, mas o sentido dele permanece, que é uma universidade onde nós, negros e negras, estejamos, onde os povos originários estejam, onde a classe trabalhadora esteja, construindo uma educação de qualidade. Então, acredito que os valores e as visões que o movimento estudantil me trouxe permanecem em mim até hoje”, reflete o docente.

Consciência de classe 

Hoje, com 80 anos completos, penso que a fronteira entre a servidão e a rebeldia é tênue na vida dos humanos e a mediação entre o público e o privado passa pelos paradoxos da inteligibilidade do mundo e da vida. Penso que a política deve estar aliada a uma ética da subversão cívica, que é um processo não violento, capaz de ampliar as possibilidades da emancipação civil”, Cecilia Pires, docente aposentada do curso de Filosofia da UFSM. 

A vida política de Cecilia Pires começou cedo, ainda na adolescência, em sua cidade natal, Santiago (RS), onde integrou a Juventude Estudantil Católica (JEC), grupo que se propunha a formar jovens cristãos engajados na luta por justiça social. Vinculado aos movimentos da Ação Católica, cujos expoentes eram frades famosos como Frei Betto e Frei Tito, o grupo fez parte de um momento precioso da vida da docente aposentada do departamento de Filosofia da UFSM, pois contribuiu para que ela formasse a consciência crítica que carrega consigo até os dias atuais.

Em 1966, Cecilia chega a Santa Maria para cursar Filosofia. “Imagina o clima numa jovem Universidade Pública, criada com ajuda política do Ministro Tarso Dutra, simpático ao golpe de 64. A ditadura militar estava na sua fase ainda branda, apesar das perseguições frequentes aos professores e estudantes que se manifestassem com opiniões contrárias às decisões dos generais. Em 1967, o Padre Palotino Clarindo Redin, professor no Curso de Filosofia, começa a convidar estudantes paro assistirem a Missa de Domingo, na Casa do Estudante Universitário, sub-solo, no porão. Esses encontros, que reuniam estudantes de várias matizes ideológicas e políticas, deram origem ao chamado Grupo Universitário, evoluindo mais tarde para o Movimento Universitário de Santa Maria (MUSM), do qual os professores Sergio Pires e Clovis Guterres foram coordenadores”, resgata Cecilia, que chegou a vivenciar, na condição de estudante, o peso do Ato Institucional (AI) 5, assinado em dezembro de 1968.

Ela conta que permaneceu nessa militância político-religiosa-existencial durante todo o curso, até 1969, quando se formou. “Em dezembro de 69, na nossa formatura, tivemos o desgosto de ter um General do Exército como paraninfo, escolha da maioria, uma vez que naquela época a formatura era conjunta e tinha muito estudante reacionário, sem qualquer consciência crítica face a situações políticas autoritárias, conformados com o governo dos generais”, relembra a docente aposentada, que também fez seu mestrado na UFSM.

Posteriormente, Cecilia ingressou como docente na instituição e, a partir de sua militância no movimento estudantil, construiu uma ponte para também contribuir com o movimento sindical docente. Ela integrou a Diretoria Provisória da jovem Sedufsm, entre os anos de 1989 e 1990, e foi vice-presidenta da seção sindical na gestão Consolidação (1990-1992). Ao seu lado, na vida afetiva e militante, estava Sérgio Pires, professor da UFSM, sindicalista e militante do movimento negro. Ele, assim como Cecilia, iniciou sua militância no movimento secundarista cristão em Santiago, tendo se tornado um dos primeiros professores negros da universidade.

A docente avalia que as experiências vivenciadas durante sua juventude contribuíram muito para seu amadurecimento pessoal e profissional, a exemplo de ensinarem a ela sobre consciência de classe.

“Como Professora Universitária de Filosofia, concursada, vivi muitas situações em sala de aula em que as opiniões se confrontavam tanto na Graduação, quanto no Mestrado, devido à forma de ver, julgar e agir com vista a interesses individualistas ou coletivos. E isso também ocorreu em meio aos colegas professores, alguns temerosos, outros mais ousados em suas práticas, que enfrentavam decisões autoritárias ou a elas se submetiam”, finalizou.

No dia 14 de agosto de 2026, Cecilia Pires, que hoje reside em Porto Alegre, esteve na 53ª Feira do Livro de Santa Maria para lançar dois livros: ‘Passando a Limpo’ e ‘Crônicas dos Tempos’. Em ‘Passando a Limpo’, o capítulo ‘Lembranças Sombrias’ resgata em maiores detalhes a aproximação da docente aposentada com os movimentos políticos vinculados à juventude católica, o sentimento que pairava no ar após o golpe de 1964, a chegada à UFSM em 1966 para cursar Filosofia, o envolvimento na mobilização pelas ‘Diretas Já’, sua inserção no Movimento Universitário de Santa Maria e, posteriormente, a energia militante que dispendeu para auxiliar na formação do Movimento Sindical dos Professores da UFSM, embrião do que hoje conhecemos por Sedufsm.

*Cecília Pires na Feira do Livro de Santa Maria 2026 (Créditos: Bruna Homrich/Assessoria de Imprensa da Sedufsm)

Outro filho da CEU II

“Com certeza, muito do que sou hoje, política e sindicalmente, tem relação direta com a militância estudantil secundarista e universitária, antifascista e anticapitalista, mantidas durante a militância no movimento docente e presentes na minha atuação como professor, seja na educação básica, onde atuei também na militância sindical, no início dos anos 1990, em Santa Catarina, seja como dirigente da SEDUFSM [...] Entre os valores, destacam-se a solidariedade e o coletivo contra o individualismo liberal, o respeito pela decisão democrática da maioria (incluindo o centralismo democrático), o humanismo contra o irracionalismo e o fascismo, a necessidade de uma sociedade igualitária socialmente, sem propriedade privada dos meios de produção, que defenda a natureza e  que seja antirracista, elimine o machismo, a homofobia e todas as formas de preconceito e discriminação social e individual”, Diorge Konrad, docente do departamento de História da UFSM e ex-presidente da Sedufsm

Entre 1981 e 1983, como estudante primeiramente do Colégio Estadual Cardeal Pacelli, em Três de Maio, e, depois, do Colégio Estadual de São Borja (CESB), Diorge Konrad já participava, como um observador atento, da política estudantil. Em julho de 81, acompanhou seu irmão mais novo no XXXIV Congresso Estadual de Estudantes, organizado pela União Gaúcha dos Estudantes (UGES) e realizado em Carazinho. Mas foi só quando chegou em Santa Maria para cursar História e Direito na UFSM, em 1985, que se envolveu de vez com a militância, integrando chapas que concorreram ao DCE, ao Diretório Acadêmico Quilombo dos Palmares (DAQUIPALM) e à direção da Casa do Estudante Universitário (CEU) I, onde residia. Por afinidade e paixão pessoal, Konrad acabou desistindo da graduação em Direito para se dedicar à História.

“Em 1989, participei da gestão da primeira diretoria de uma Associação de Pós-Graduandos (APG) da UFSM, tendo na presidência Augusto Capeletti, estudante de pós em Medicina. Ainda como estudante de mestrado, participei do "Fora Collor", em 1992, assim como quando estudante de doutorado, afastado da UFSM para tal, integrei a Congregação do Instituto do Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da UNICAMP, representando os doutorandos do Programa de Pós-Graduação em História (entre 1999 e 2000)”, conta Konrad.

Quando relembra os tempos de militância estudantil, algumas pautas centrais pelas quais se mobilizava vêm à cabeça: a luta geral contra a Ditadura e em favor da redemocratização brasileira, com a criação de uma Constituinte Exclusiva, Livre, Autônoma e Soberana e o retorno das eleições presidenciais, incluindo a luta pelo voto aos 16 anos. Já entre as pautas estudantis se destacavam a defesa do ensino público, gratuito e de qualidade contra a privatização; a luta pela autonomia universitária financeira e administrativa; a implementação de gestão democrática nas escolas e nas universidades; assim como o combate ao arrocho de verbas e à cobrança de taxas em instituições de ensino.

“Quanto às lutas em torno da moradia estudantil, destacaram-se a ampliação dos blocos da CEU II, no campus central da UFSM; a ampliação do direito de acesso igualitário para mulheres e a garantia de políticas de permanência estudantil contra o corte de verbas e a elitização do ensino superior, através de ocupações no campus; a luta contra as tentativas de cobrança por auxílios financeiros, alimentação e subsídios de manutenção geridos ou garantidos pelo Estado e pelas reitorias”, rememora Konrad.

Após concluir a graduação, ele saiu de Santa Maria para realizar os cursos de mestrado e doutorado em outras instituições, retornando para a UFSM em 1994, quando foi aprovado no concurso para docente no departamento de História. Tão logo assinou o termo de posse na instituição, filiou-se à Sedufsm, dando continuidade, agora na esfera sindical, à militância iniciada na juventude.

De lá para cá, Konrad participou de duas diretorias da seção sindical docente: Gestão Integração (2004-2006) e Gestão Resistência e Compromisso (2006-2008). Na última, ocupou o cargo de presidente. Além disso, integrou três composições do Conselho de Representantes do sindicato.  

Organização coletiva

“O que mais levo desse processo de participação política, sindical e estudantil é a necessidade do envolvimento coletivo para conquistar e manter direitos. Sempre priorizei o debate coletivo, a abertura para diferentes ideias e a construção de pontos comuns. Foi um grande aprendizado que levo para a vida, porque acredito que, sem participação coletiva e sem democracia, não temos uma universidade pública atuante, capaz de produzir conhecimento e chegar a toda a população. A universidade pública foi uma escolha que me deram porque outras pessoas fizeram essa luta, e eu tento manter esse legado e levá-lo adiante”, Claudia Benetti, docente do departamento de Metodologia do Ensino e ex-diretora da Sedufsm

Desde quando fazia cursinho preparatório para ingressar na UFSM, em meados da década de 1980, Claudia Benetti já simpatizava com o movimento estudantil, acompanhando discussões de seus colegas de apartamento, já estudantes da universidade. Vinda de uma família conservadora do interior do Rio Grande do Sul, a docente, ao ingressar primeiro na graduação em Educação Física e depois em Filosofia, foi apresentada a várias matizes de pensamento e à possibilidade de se organizar coletivamente para buscar direitos até então negligenciados. Sua trajetória na militância estudantil inclui participações em Diretórios Acadêmicos e em protestos contra o aumento da passagem de ônibus e pela ampliação da frota e da grade de horários. 

“Em 2013, entro na Universidade Federal de Santa Maria como professora e começo também a participar dos movimentos relacionados às lutas docentes. Filiei-me à Sedufsm por entender o quão necessário é o sindicato para que a gente consiga adquirir e manter os direitos dos professores. Acho que essa é a grande contribuição que levo: sempre que existem questões e pautas, luto pelo coletivo, para que haja discussão, espaço para diferentes ideias e para que se chegue a pontos comuns nessa nossa luta sindical, assim como acontecia quando eu era estudante. Levo isso para a vida. Foi um grande aprendizado e penso que não há como, sem a participação coletiva e sem o processo democrático, termos uma universidade atuante, que produz conhecimento e chegue até à população", diz Claudia, que integrou a diretoria Renova Sedufsm, entre os anos de 2022-2024. 

E, embora como docente, ela continua no mesmo lado da trincheira que os estudantes, travando batalhas de forma conjunta, a exemplo da denúncia ao Novo Ensino Médio e das discussões sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). 

Práticas igualitárias

“Os ensinamentos do movimento estudantil são para a vida toda se você de fato fez uma militância com princípios sólidos. Obviamente, com o tempo a gente vai aprendendo a ter uma leitura de conjuntura mais desapaixonada e até mesmo menos sectária, mas tem coisas que não mudam, como por exemplo a esperança de que o mundo pode ser mudado, de que um outro mundo é possível, para usar o slogan do Fórum Social Mundial, que tanto marcou a minha geração. Essa esperança é que foi o meu grande aprendizado, assim como a solidariedade, a camaradagem e o desapego às relações de poder”, Leonardo Botega, docente do Colégio Politécnico da UFSM e ex-diretor da Sedufsm

Botega é um exemplo de militante sindical que iniciou sua aproximação com a política muito cedo. Como estudante secundarista, integrou o Grêmio do Colégio Maria Rocha, em Santa Maria, porém foi na UFSM, quando ingressou no Curso de História em 1997, que se tornou, de fato, um militante. Durante a graduação, foi coordenador do Diretório Acadêmico Quilombo dos Palmares e depois membro da direção do DCE, atuando nos conselhos superiores da universidade.

Ao resgatar um pouco da realidade vivenciada pelos estudantes universitários nos anos 90, Botega comenta sobre o projeto neoliberal que começava a lançar suas garras privatistas contra a universidade pública, fazendo com que, no bojo de reivindicações do movimento estudantil, estivessem pautas como a manutenção do Ensino Superior público e gratuito e da assistência estudantil. Em paralelo a essa mobilização nacional, ocorria, no interior da UFSM, a luta pela democracia efetiva nos processos de escolha dos dirigentes das Universidades.  Até hoje, como professor do Colégio Politécnico, ele mantém posição contrária ao sistema de votação 70-30, que prevê mais peso político para a categoria docente, em detrimento dos segmentos de técnico-administrativos em educação e de estudantes.

"Penso que essa talvez seja a principal característica que mantenho como valor, o desapego às relações de poder, isso faz com que eu procure sempre ter a mesma postura, a mesma forma de escuta e diálogo com qualquer pessoa dentro da estrutura universitária e fora dela, desde quem ocupa os chamados alto escalões da universidade até o estudante do início do curso. Se acreditamos que é possível construir uma sociedade igualitária, temos que ter práticas igualitárias. É o mínimo que se espera quando se é docente que acredita na transformação social, na coletividade e que deseja que os sonhos dos seus estudantes se realizem. Esse foi o maior aprendizado que tive no movimento estudantil", conclui Botega. 

Solidariedade

“Fui totalmente transformada pela participação no movimento estudantil. Tive acesso a cursos, ao Congresso da UNE e a discussões políticas que não encontrava dentro do meu curso. O movimento me aproximou de temas como reforma agrária, lutas partidárias e defesa das pessoas mais vulneráveis, e isso fez minha vida profissional e pessoal ser totalmente diferente. Valores como solidariedade, olhar para a comunidade e mobilizar as pessoas permanecem comigo até hoje. Tenho muito orgulho de ter vivido aquele período e de carregar essa formação na minha trajetória”, Maria Denise Schimith, docente do departamento de Enfermagem e diretora do CCS-UFSM.

A pauta que levou Maria Denise a se aproximar do movimento estudantil, entre os anos de 1986 e 1989, foi a luta contra o aumento da passagem de ônibus. Na entrevista à Sedufsm, ela relembrou momentos em que ficou sentada, ao lado dos outros estudantes mobilizados, no meio da rua, a fim de protestar e de exercer o direito de manifestação trazido pela democracia, recém resgatada dos braços militares. Ela chegou a participar da criação de um Diretório Acadêmico para o curso de Enfermagem. 

“A gente lutava muito por questões imediatas, mas também pelas grandes bandeiras, como a universidade pública, a democracia, a liberdade e a autonomia universitária, sempre defendendo o respeito aos estudantes e às suas lutas", contou a docente. 

O Movimento Estudantil hoje 

*Thaina Kaingang (Créditos: Arquivo Pessoal)

“Essa necessidade de organização não começou na universidade, ela vem da minha vivência na aldeia, onde aprendi que a resistência e a defesa dos nossos direitos, do nosso território e do acesso à educação são lutas coletivas. Quando entrei no ensino superior, ficou evidente que a universidade ainda precisa avançar muito para ser verdadeiramente inclusiva e antirracista. Por isso, estar no movimento estudantil e no DCE é dar continuidade à luta dos meus mais velhos, garantindo que os estudantes indígenas e a juventude trabalhadora não apenas ocupem esse espaço, mas permaneçam nele com dignidade e voz ativa”, Thaina Kaingang, estudante de Medicina e coordenadora-geral da gestão “No Flow” do DCE UFSM (2026-2027)

Thaina participou, logo que chegou à universidade, do Coletivo Indígena Auguste Ope e, em seguida, da juventude do Coletivo Afronte!. Hoje, nas visitas que faz às salas de aula como dirigente estudantil, ela e os demais integrantes da atual gestão do DCE UFSM dizem sentir o impacto do ideário neoliberal que tenta convencer os estudantes de que as saídas são individuais e não coletivas. "Isso fez com que a mobilização desse uma amornada nos últimos tempos. No entanto, aos poucos essa engrenagem volta a girar. O movimento estudantil vem se reorganizando e mostrando que a coletividade continua sendo o melhor caminho para enfrentar os problemas da universidade", destaca. 

Para os dirigentes estudantis, o principal desafio tem sido a conjunção de dois fatores: os valores neoliberais e a campanha de setores da extrema-direita contra o movimento estudantil e os demais movimentos sociais. "Esse cenário tenta passar a ideia de que não é possível mudar a nossa realidade, o que acaba afastando a juventude da política. Para reverter isso, temos apostado em campanhas de conscientização e no uso da sede do DCE como um espaço vivo, mostrando na prática que só a luta coletiva transforma a universidade", finaliza Thaina. 

 

 

Texto: Bruna Homrich

Arte: Italo de Paula

Assessoria de Imprensa da Sedufsm

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