XXIX Encontro da Regional RS do ANDES-SN reafirma organização docente em tempos de disputa
Publicada em
28/09/26
Atualizada em
28/09/26 20h57m
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Evento debateu desde questões organizativas do Sindicato Nacional até cenário crescente de adoecimento docente
Da noite de sexta-feira, 25 de setembro, até a tarde do sábado, 26, dezenas de docentes de seções sindicais do Rio Grande do Sul participaram do XXIX Encontro Regional do ANDES-SN, cujo objetivo foi debater sobre os rumos do Sindicato Nacional, a política educacional brasileira e as condições de trabalho e saúde da categoria. A Sedufsm esteve representada no evento pelas professoras Liane Weber e Belkis Bandeira (pela diretoria) e pelos professores Gihad Mohamad e Hugo Blois Filho (representando a base). A convite da Regional para assumirem a mediação de mesas de debate também estiveram presentes os professores Jadir Lemos e Maristela Souza.
"O ganho que esse Encontro trouxe está diretamente relacionado ao esclarecimento e atualização das discussões do cenário nacional. Nós tivemos três mesas que trataram dos problemas que permeiam o cotidiano do nosso sindicato, portanto, permeiam a vida dos nossos professores e professoras, desde a discussão sobre o projeto de educação que o ANDES-SN tem para a população, até problemas como o desfinanciamento das Instituições Federais de Ensino e a privatização da educação. As discussões sobre questões organizativas, financeiras e administrativas do ANDES-SN assumiram um papel importante pois atualmente se revisa e atualiza a organização do Sindicato Nacional, que esse ano completa 45 anos, na perspectiva de modernização e otimização dos seus fluxos cotidianos, quer sejam políticos, financeiros ou administrativos", ponderou Jadir Lemos, diretor da Sedufsm.
Abertura marcada pela solidariedade e pelos desafios da conjuntura
A Mesa de Abertura reuniu a professora Cátia Gemelli, do Sindoif, anfitrião do primeiro dia do encontro; André Martins, 2º vice-presidente regional; e Daniele Azambuja, 1ª vice-presidenta regional do ANDES-SN. Ao dar as boas-vindas em nome do Sindoif, Cátia Gemelli saudou os presentes destacando o valor simbólico do reencontro entre colegas de diferentes seções sindicais numa sexta-feira à noite, quando "a maioria está exausta da semana de trabalho", e agradeceu à comissão organizadora pela realização do evento, que se estenderia no dia seguinte (26) ao Campus Canoas.
André Martins reforçou o caráter estratégico do encontro diante de uma conjuntura que classificou como complexa, lembrando que a Regional já havia promovido edições anteriores nos campi de Porto Alegre e Osório, e destacando como novidade a extensão da atividade ao Campus Canoas do IFRS — parte, segundo ele, do esforço de aproximar o ANDES-SN das seis seções sindicais que compõem a Regional Rio Grande do Sul.
Na saudação em nome da Regional, Daniele Azambuja agradeceu nominalmente a comissão organizadora e os convidados presentes, reafirmando o compromisso da entidade com a organização da categoria, às vésperas do Conad Extraordinário do ANDES-SN, quando estarão em debate questões políticas, organizativas e financeiras do Sindicato Nacional. A dirigente também expressou solidariedade às cidades gaúchas atingidas pelo temporal que caíra na região dias antes do encontro, com destaque para Pelotas e Rio Grande, onde aulas foram suspensas e casas ficaram destelhadas.
Homenagem aos 20 anos de Ricardo Agliozzo na Regional
Antes da primeira mesa temática, o Encontro reservou um momento de celebração pensado, segundo a comissão organizadora, "com muito carinho": os 20 anos de atuação de Ricardo Agliozzo junto à Regional Rio Grande do Sul do ANDES-SN. Chamado à frente, Ricardo foi saudado como a face mais constante da Regional para quem busca a entidade "por telefone, e-mail ou presencialmente, buscando materiais e até mesmo tomando um cafezinho". A organização destacou que a história da Regional é marcada pelo profissionalismo do funcionário, que acompanhou praticamente todos os encontros regionais já realizados desde o início dessa trajetória.
Emocionado, Ricardo dispensou discurso preparado e resumiu duas décadas de trabalho em poucas palavras: "eu tenho muito orgulho de participar do grupo de funcionários do ANDES-SN", afirmou, acrescentando que sempre buscou "atender da melhor forma possível a categoria". A homenagem foi seguida de aplausos e de uma lembrança simbólica entregue pela diretoria da Regional, encerrando o momento antes da abertura da primeira mesa temática do encontro.
Mesa 1: o projeto do ANDES-SN para a educação em debate
A primeira mesa temática do Encontro, mediada por Denise Sena, da Aprofurg, trouxe o professor Francisco Jacob Paiva da Silva, da Universidade Federal do Amazonas, 3º secretário do ANDES-SN e coordenador do GTPE, para discutir o projeto do sindicato para a educação brasileira. Ao ser saudado pela mediadora, o professor agradeceu o convite e lembrou vínculos antigos com a Regional Rio Grande do Sul, evocando a memória do saudoso companheiro Fernando Molinos e citando referências de militância construídas ao longo de décadas de atuação no ANDES-SN, "estando longe de casa, mas perto pela luta que nos aproxima".
Partindo da obra clássica "Educação e Luta de Classes", de Aníbal Ponce, o professor percorreu a formação histórica da universidade no Brasil — da exclusão da maior parte da população do processo educacional no período colonial, passando pela chamada "universidade temporã" do século XX, até a reforma universitária de 1968, sob a ditadura militar, que consolidou o modelo departamental hoje em disputa, a partir do acordo MEC-USAID. Recordou que, até os anos 1950, o Brasil tinha mais de 60% de sua população em condição de analfabetismo, e que a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação data de 1961.
Jacob Paiva situou o nascimento do próprio ANDES-SN, ainda como associação no fim dos anos 1970, na necessidade de organizar a luta docente como parte da classe trabalhadora, ao lado do movimento estudantil e dos técnico-administrativos, num período em que reconhecer-se como parte dessa classe era, segundo relatou, motivo de resistência entre parcela da categoria. Recuperou a trajetória do Plano Nacional de Educação da Sociedade Brasileira, de 1997 — construído por mais de 30 entidades no âmbito do Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública e defendido pelo sindicato como referência histórica até hoje —, e contrapôs essa experiência à atual Política Nacional de Educação, da qual o ANDES-SN optou por não participar, por entender que reproduz, "na essência", os mesmos problemas do PNE aprovado no governo Dilma, oriundo da Conferência Nacional de Educação de 2010.
O painelista detalhou ainda os eixos que devem orientar a atualização do Caderno 2 do ANDES-SN — documento com 16 anos desde sua última revisão, que reúne o projeto do sindicato para a universidade brasileira. Entre os pontos elencados: o debate sobre a multicampia, a defesa de uma carreira única entre magistério superior e EBTT, os princípios de uma universidade antimachista, antirracista, antiLGBTfóbica e anticapacitista, os impactos socioambientais da atividade universitária, a expansão do setor privado e do ensino a distância — hoje responsável por mais matrículas em licenciaturas do que as universidades públicas — e os efeitos ainda pouco compreendidos da inteligência artificial sobre o trabalho docente.
O debate que se seguiu foi intenso. André Martins questionou o avanço das chamadas "universidades transformadoras" — projeto que, segundo relatou, já resultou na criação de três novas universidades federais a partir da transformação de antigos CEFETs de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, além da Universidade Federal da Fronteira Norte, sob discurso de "empreendedorismo e inovação" que, na avaliação do dirigente, disputa também uma fatia maior do fundo público. Já Fernanda Figueira (ADUFPel) trouxe a angústia de quem vê o movimento estudantil esvaziado: "a gente se mobiliza fortemente, mas, sem os estudantes, essa mobilização não vai andar", afirmou, relatando um episódio na UFPel em que estudantes tiveram que arrecadar recursos via rifa para custear a própria participação em um evento pago dentro do campus.
Simone Alvarez, da base da Aprofurg, relatou o caso de colegas que constrangem estudantes por defenderem seus direitos em sala de aula — um relato que expôs tensões internas às próprias universidades e a dificuldade de renovação da consciência sindical entre os mais jovens. Outra manifestação do debate chamou atenção para o avanço acelerado da inteligência artificial nas rotinas acadêmicas, tema que, segundo apontou, o sindicato ainda não conseguiu incorporar ao debate coletivo na velocidade necessária, tornando-se "não só linguagem, mas um ethos" que dificulta inclusive a própria mobilização da categoria.
Mesa 2: organização sindical, proporcionalidade e questões financeiras
No sábado, já no Campus Canoas do IFRS, a Mesa 2 reuniu Maristela da Silva Souza, do Departamento de Educação Física da UFSM e do coletivo Cael; Gustavo Borba de Miranda, presidente da Aprofurg e militante do coletivo Unidade Classista; e Cláudio Enrique Fernández Rodriguez, professor de Eletrônica do Campus Canoas e tesoureiro do Sindoif, sob mediação de Elaine da Silva Neves, da Adufpel.
Maristela apresentou a proposta de proporcionalidade na composição das direções do ANDES-SN, construída a partir de textos de resolução debatidos em congressos recentes. A professora situou o debate no contexto de aprofundamento das crises econômica e social, do avanço de concepções ultraconservadoras e de uma "cultura do medo" que, em sua leitura, favorece o reformismo e a conciliação de classe. Sustentou que um sindicato forte exige dois princípios centrais — classismo e autonomia — organizados como frente única, capaz de acomodar a diversidade política existente na categoria sem abrir mão da unidade de ação.
A professora apontou dados que, em sua avaliação, evidenciam um déficit de representatividade na estrutura atual: o ANDES-SN reúne mais de 258 mil docentes na sua base de representação e cerca de 67 mil sindicalizados, mas a última eleição da diretoria nacional registrou pouco mais de 14 mil votantes, com a chapa vencedora eleita com aproximadamente 43% dos votos e assumindo, ainda assim, o controle integral da estrutura sindical — um modelo que, segundo argumentou, tende a restringir a atuação das demais forças políticas na comunicação institucional, nas assembleias e na composição de delegações para eventos nacionais. "Se defendemos um sindicato de frente única, precisamos organizar o sindicato como frente única", resumiu, defendendo que a proporcionalidade não elimina a disputa política nem retira centralidade das instâncias deliberativas do ANDES-SN, apenas redistribui a composição da direção conforme a expressão eleitoral de cada corrente, citando experiências já consolidadas em entidades como a Fasubra, o Sinasefe, o Sindicato dos Metroviários de São Paulo e o próprio Sindoif.
Gustavo Miranda relatou o histórico dos dois Seminários Nacionais de Questões Organizativas, realizados em São Paulo, em novembro de 2025, e em Campinas, em maio deste ano, dos quais participou representando a Aprofurg. Recuperou os debates sobre rateio e fundo único — hoje formado pelo repasse de 20% da arrecadação das seções sindicais à direção nacional, mais 2% sobre o restante —, sobre a criação de um fundo eleitoral para equilibrar a disputa entre chapas e correntes, e sobre o fortalecimento das seções sindicais menores, tema em torno do qual reagiu com veemência a uma fala, ocorrida no último congresso em Salvador, que classificou como "extremamente antiética": a sugestão de que pequenas seções teriam interesse em permanecer pequenas apenas para seguir recebendo incentivo financeiro da nacional. Miranda também lembrou, com orgulho declarado, que a Aprofurg iniciou a greve de 2024 em 8 de abril, uma semana antes da deflagração nacional decidida pelo ANDES-SN, reforçando a defesa de um sindicato cada vez mais organizado e mobilizado diante do avanço das privatizações.
Cláudio Fernández Rodriguez, falando pelo Sindoif, ponderou sobre os riscos e potenciais da proporcionalidade diante da conjuntura política, observando que a maioria dos sindicatos brasileiros ainda opera pelo modelo majoritário e que a experiência proporcional, adotada em entidades como o Sinasefe e o Sindicato dos Metroviários de São Paulo, exige um compromisso de coexistência que nem sempre se verifica na prática. Defendeu que, independentemente do modelo escolhido pela base, o maior desafio organizativo do sindicato é reconstruir o compromisso de convivência e civilidade entre as diferentes correntes internas, alertando que o abuso de discussões que "beiram a incivilidade" tem dificultado a retomada da unidade de ação após os embates de Congressos e Conads.
Já Elaine da Silva Neves apresentou o trabalho da comissão criada no último Seminário Nacional para discutir o formato dos eventos deliberativos do ANDES-SN. Entre as propostas: a redução do número de observadores por delegação para quatro ou 50% da delegação, de modo a viabilizar a realização de Congressos em espaços públicos como universidades; a manutenção da exigência estatutária de dez assinaturas para apresentação de teses de resolução, com tentativa de sistematização prévia dos textos para reduzir sobreposições; a ampliação do quórum de instalação e deliberação nos grupos mistos e plenárias; e o retorno à duração de seis dias para Congressos e Conads, com jornadas até as 19h e manhãs livres intercaladas, de modo a reduzir a sobrecarga física das delegações presentes.
Lançamento do documentário "Educação e Ciência por um Brasil que dá certo"
Entre as mesas do segundo dia, o Encontro sediou o lançamento do documentário "Educação e Ciência por um Brasil que dá certo", produzido no âmbito da campanha nacional "Lutar não é Crime!", do ANDES-SN. O filme reúne depoimentos de lideranças estudantis e sindicais e de brasileiras e brasileiros cujas vidas são impactadas pelo ensino superior e pela ciência pública, reforçando o papel de ambos na transformação do país diante dos ataques da extrema direita e das políticas de austeridade dos sucessivos governos.
Mesa 3: condições de trabalho e saúde docente
A Mesa 3, mediada por Jadir Camargo Lemos, diretor da Sedufsm e professor aposentado, trouxe os dados da pesquisa nacional do ANDES-SN sobre percepções docentes, apresentados por Fernanda Mendonça, integrante do GTSSA e professora da Universidade Estadual de Londrina, e discutidos pelo professor Luiz Henrique Schuch, da Adufpel.
Fernanda expôs um retrato preocupante da categoria a partir dos dados coletados pela pesquisa. Mulheres relatam sobrecarga de trabalho em proporção consistentemente maior que os homens em quase todos os indicadores pesquisados: 74% delas afirmam trabalhar além da jornada, contra 72% dos homens; 88% relatam sobrecarga profissional, contra 77%; e a maior discrepância aparece na sensação de tempo insuficiente para dar conta das demandas, relatada por 61% das docentes contra 46% dos docentes homens. O uso intensivo de aplicativos de mensagem e a resolução de tarefas fora do horário de trabalho apareceram fortemente associados tanto à sobrecarga quanto à pior percepção de saúde, assim como a organização do trabalho a partir da lógica de "demanda" — cumprir tarefas até o fim, independentemente do horário — em vez da lógica de "jornada".
A pesquisadora também apresentou dados sobre endividamento: docentes sem qualquer correção salarial pelo IPCA têm 48% mais chances de estarem endividados do que aqueles com reposição plena da inflação, e são justamente os mais endividados que mais recorrem ao trabalho adicional para complementar a renda. No recorte racial, a pesquisadora apontou que docentes indígenas, pardos e pretos têm 70% mais chances de estarem endividados do que colegas brancos ou amarelos — dado que, segundo destacou, evidencia o peso do racismo estrutural também na vida financeira da categoria. Entre as doenças mais relatadas, despontam os quadros musculoesqueléticos e os transtornos de ansiedade — estes últimos já em primeiro lugar entre docentes de universidades estaduais —, com mais da metade da categoria relatando insatisfação com a infraestrutura de seu local de trabalho.
Luiz Henrique Schuch situou a pesquisa na tradição da "enquete operária" de Marx, cujo valor, segundo defendeu, não está apenas nos dados em si, mas na sua capacidade de provocar autoconsciência e mobilização coletiva nas seções sindicais. O professor resgatou o histórico das disputas em torno da carreira docente desde os anos 2010 — quando já se desenhava, segundo relatou, um modelo de carreira essencialmente "auleiro" para as primeiras classes do magistério superior — e relacionou o atual cenário de precarização a um processo que descreveu como uma nova forma de colonização, agora financeirizada, citando como exemplo o FUNPRESP e o incentivo institucional ao endividamento via consignado.
Para Jadir Lemos, os resultados obtidos na enquente sinalizam a importância e a necessidade de o movimento docente elaborar estratégias efetivas para a resolução do problema, que não pode ser visto como algo individual e sim coletivo. "Portanto, a solução tem que ser, também, coletiva", assegurou.
O debate que encerrou a mesa reuniu diversos relatos. Um docente da Adufpel apontou que os afastamentos por doença — dado disponível publicamente — trazem ainda mais material para qualificar o debate com a categoria, com variações importantes entre homens e mulheres e entre docentes mais e menos idosos. Outro participante do evento relatou as dificuldades específicas de quem atua em cursos noturnos e do Reuni, sem espaço físico estruturado na universidade, obrigado a montar escritório em casa e a lidar com uma gestão que se comunica majoritariamente por WhatsApp e Instagram.
Fechando os apontamentos da mesa, César Beras, da base da Aprofurg, sintetizou o diagnóstico compartilhado pelos presentes: a precarização não é um efeito colateral, mas uma arma estrutural da forma capitalista de mercantilizar a educação, presente em cada nova etapa de expansão universitária sem a correspondente garantia de condições de trabalho — um processo que, segundo observou, atravessa diferentes gestões e diferentes governos, inclusive aqueles com os quais a categoria mantém alguma expectativa de alinhamento.
Texto: Diego Balinhas (Aprofurg), com edição de Bruna Homrich (Sedufsm)
Foto: Diego Balinhas
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