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Livros e sonhos

05/05/2011

Luiz Carlos Nascimento da Rosa
Professor do departamento de Metodologia do Ensino do CE

Ou seria o contrário, sonhos e livros. Não interessa a perspectiva da análise. A relação é dialética. Livros catalisam sonhos. Sonhos gestam, com muita inspiração e transpiração, idéias e livros. A questão que se coloca, em essência, é escrever coisas para alimentar os sonhos. Ler e escrever livros para dar conteúdo e forma à singeleza do ato de sonhar. Em tempos de Feira de Livros torna-se uma reflexão necessária e muito bem vinda. A Praça Saldanha Marinho, na querida e aconchegante Santa Maria da “Boca do Monte”, está em festa. O tema é: “Deixe a Leitura Entrar na Sua História”. Ao som do canto dos pássaros, leremos poemas, comentaremos Romances, contos e Crônicas. Nosso diálogo, enfim, terá dedicação total a Literatura. Falaremos, amavelmente, de nossos sonhos. Penso que mergulhado no universo concreto dos livros estaremos, nesses dias de feira, em estado constante de transfigurações. Pensando no universo concreto de sonhos e livros, vem em minha mente Oscar Wilde. Gosto de seu Retrato de Dorian Gray. Leio e releio. A cada passo que desenvolvo em sua obra retiro um elemento psicológico e filosófico de seu universo estético. Na dialética entre criador e criatura, Wilde, escracha e sentencia: a Arte não representa a vida e sim o espectador. O livro, produzindo e significando as diferentes dimensões e expressões das artes, quer produzir um efeito catártico em seus interlocutores. A arte quer confrontar as essências narcísicas. Veja tua imagem, revisite o seu mundo e sinta que existem fantasmas e imagens distorcidas refletidas em seu espelho. O livro e as demais manifestações estéticas, por vezes, querem fazer com que sejamos capazes de ver o outro lado de nosso próprio vitral. Somos seres modernos. O turbilhão silencioso e desarmônico de um cotidiano imposto nos padroniza e, ao mesmo tempo, nos desespera. Movimentamo-nos, optamos e desejamos através da “ditadura” do consumo. Somos objeto de desejo do "Deus" mercado. Nosso desespero emana das insignificâncias que somos nas modernas relações de troca. O universo concreto e diverso dos livros é capaz de nos libertar da ditadura silenciosa de um consenso passivo. Por meio dos livros, dos sonhos e da razão, nos tornamos capazes de humanizar as intempéries que a vida, por vezes, nos propicia. No hiato que se forma entre criação e leitor existe uma razão pulsante. Textos e contextos poderão produzir o encontro entre o espectador e suas novas possibilidades de seu existir. No ato de representar o espectador, a Arte e a Literatura poderão vislumbrar um novo diálogo produtor de novas formas de vivência. O ler e o escrever sobre uma forma de vida, explícita no texto, poderão ser uma forma de reinventar nosso próprio futuro. Vida longa a Praça, a nossa Feira de Livros e, aos momentos de sublimação, em sonhos, que nos catalisam. (Publicado em A Razão de 05.05.2011)


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