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Rei Pelé

18/01/2023

Pedro Brum Santos
Professor do departamento de Letras Vernáculas da UFSM

Quando Romário pendurou as chuteiras, em 2008, calcado em sua proverbial brejeirice (dentro e fora de campo), escrevi que Pelé era nosso rei e Romário o herói da nossa gente. Via em Romário os trejeitos de Macunaíma, figura imortalizada por Mário de Andrade ao modo do herói preguiçoso e sem caráter. De 2008 para cá, muita coisa mudou. Para Romário e para os brasileiros. A morte de Pelé, ocorrida ao apagar de 2022, permite-me rever o mote lá de trás. Difícil defender que Romário permaneça como uma espécie de herói nacional. Mas, Pelé, continua sendo nosso rei.

Pelé, desde cedo, percebeu a necessidade de empenho pessoal na preservação da imagem pública. Havia nele um expresso senso de gentileza, de interação coletiva, algo próximo a um decoro público que o fazia igual e o colocava à vontade no trato com o povo do boteco da esquina e frente à pompa da rainha da Inglaterra ou do presidente dos Estados Unidos. Pelé inspirou e soube preservar, como uma encarnação mística, a realeza de uma negritude natural, imposta ao mundo pelo talento de jogar bola, sem precisar recorrer ao ativismo étnico, que, indiretamente, acabou colhendo e propagando como consequência do tamanho da projeção planetária que granjeou e alimentou.

 Em uma época que é anterior ao marketing esportivo e à mercantilização do futebol, Pelé constituiu-se em figura central de um exercício que ajudou a globalizar. Iniciou na era do rádio e praticou um esporte cuja profissionalização ainda engatinhava. Contou com a força e a autoridade da narrativa oral, um apelo ao mito e à lenda, época em que a narrativa ainda não fora submetida ao crivo pleno da imagem (como na era da TV e da internet).

Tudo isso calcinou o alicerce da longevidade e permanência de um reinado cujo mote original talvez seja ainda mais arraigado e íntimo. A história pessoal do rei menino funda-se em uma ética calcada na figura paterna, talvez a inspiração que lhe permitiu equilibrar fama planetária e zelo pelo mito que sua habilidade ímpar gerou e propagou. Confessava que o pai fora sua inspiração profunda, posto que, o desejo de ser jogador carregava, no embrião, o móvel de redimir as aspirações de Dondinho, objeto de carreira futebolística fracassada e obscura.   

Campeão do mundo aos 17 anos, o jovem Pelé atravessou a vida sustentando uma nobreza natural de quem compreendia o valor profundo da arte que praticava para cada plebeu com quem – menino negro e pobre – atinava se identificar vivamente. Identificação calcada na sabedoria natural e para além dos defeitos e contingências inerentes à vida comum, falível e perecível.

O testemunho de seus anos esplendorosos à época do time mágico do Santos confirma o quanto Pelé, desde logo, soube equilibrar a equação difícil entre arte e vida comum. Reproduzo José Miguel Wisnik que considera privilegiada a condição de ter crescido em São Vicente, ao alcance da Vila, vendo Pelé fazendo coisas como levar à irmã à escola (a mesma dele, Wisnik), andar pela cidade e, claro, jogar bola como jamais alguém conseguiu imitar: “ninguém reuniu como ele as capacidades do drible e da velocidade, do chute com as duas pernas, do cabeceio preciso e fulminante, do jogo rasteiro e do jogo aéreo, do senso mágico do tempo de bola, do entendimento instantâneo do que sucedia à sua volta, tudo baseado numa constituição atlética vigorosa e rigorosamente equilibrada”. (WISNIK, Folha SP, 08/01/2023)

Para além das idades e das fortunas mundanas, fora do contingente e na órbita das coisas permanentes. Eis a senda rara dos vocacionados à divindade: vida longa ao Rei!

 




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