Feminicídio e o opressor que reside dentro de nós
Publicada em
04/03/2026
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“O homem é o homem, o gato é um bebe leite e a mulher é um objeto.”
(ditado popular)
Todos os dias nos chegam notícias sobre feminicídio. Cada vez os casos parecem estar mais próximos de nós: a delegada de polícia recebeu uma mensagem no celular do ex-marido: "Parabéns, você conseguiu o que você queria: eu matei os seus dois filhos"; o secretário de governo que tirou a vida dos filhos antes da sua própria, por suspeita de traição da ex-esposa; a professora assassinada por um estudante que diz ter sido rejeitado. Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios da história, com 1.518 mulheres assassinadas. Nos primeiros 27 dias de 2026, o Rio Grande do Sul contabilizou 10 vítimas de feminicídio. Segundo dados do Ministério da Justiça, desde 2015, quando foi qualificado como homicídio qualificado e hediondo, o feminicídio cresceu 174,70%.
A violência letal contra mulheres por razões de gênero é um fenômeno generalizado, presente em todas as regiões do mundo, com particularidades regionais. Em 2024, a ONU Mulheres apontou que aproximadamente 85 mil mulheres e meninas foram mortas intencionalmente em todo o mundo. Dessas, 60% (cerca de 51 mil) foram assassinadas por parceiros íntimos ou familiares. Isso equivale a uma mulher ou menina morta a cada 10 minutos no ambiente doméstico.
É importante anotar que as respostas do judiciário brasileiro também aumentaram. Em 2025, foram julgados, em média, 42 casos de feminicídio por dia, um aumento de 17% em relação ao ano anterior, conforme fonte do Ministério da Justiça.
Sendo um fenômeno generalizado e de persistência histórica, como podemos compreender o seu agravamento?
Um deles é admitir que os gatos não tomam mais leite e as mulheres cada vez mais pretendem assinar seus feitos, buscar seus diplomas, pagar suas contas e tentar mandar no próprio nariz. (Dr. Marcos Ardenghi me contou que a rinoplastia surgiu na Índia, antes da era cristã, em consequência da amputação dos narizes das mulheres consideradas adúlteras). Mesmo que estejamos no mercado de trabalho (ainda lutamos por remuneração e postos de prestígio igualitários entre os gêneros), não somos donas do próprio corpo. Nossa sexualidade é perseguida, nossa beleza é ditada, nossa maternidade é compulsória e nosso descanso não existe. Entretanto, não só os homens mudaram pouco, há toda uma estrutura social construída sobre a base da opressão e da violência de gênero. Isto quer dizer que TODAS, TODOS e TODES somos ao mesmo tempo produtores e produtos dessa realidade.
Estudiosas do tema têm proposto que a violência contra as mulheres está na base de todas as demais violências. Assim, não são crimes sexuais ou passionais; são atos de poder — linguagem que sustenta o patriarcado como ordem política. Conquistar e tomar posse de territórios, via de regra, vem acompanhado de rapto, estupro e violações do corpo feminino.
Segundo os filósofos clássicos, a sociedade e o Estado modernos surgiram a partir de um pacto entre homens livres para viverem em liberdade. Mas a cientista política Carole Pateman revelou que essa história tem um capítulo oculto: por trás do "contrato social" existe um "contrato sexual" que deixou as mulheres de fora da vida pública. Enquanto os homens negociavam poder entre si, elas foram empurradas para o espaço privado — e o acesso ao corpo e ao trabalho das mulheres virou garantia desse acordo, seja pelo casamento ou pela prostituição. O mais grave? Essa estrutura ainda sustenta as bases da nossa sociedade até hoje.
Há inúmeras experiências com impacto comprovado na prevenção da violência de gênero. Entre elas, destacam-se o refinamento da aplicação das leis e políticas educacionais — envolvendo escolas, educadores e famílias — com foco na prevenção primária e na mudança de mentalidade para a construção de uma cultura de respeito. Igualmente fundamental é a formação permanente dos atores do sistema de garantia de direitos, para que o acolhimento, a segurança e a justiça sejam exercidas de fato, e não como um teatro de protocolos e práticas institucionais que funcionam como porta giratória: a vítima entra em busca de ajuda e sai desamparada, desacreditada ou, pior, com a sensação de que a culpa é dela. Por fim, é essencial investir em programas de empoderamento educacional, profissional e financeiro, para que meninas e mulheres possam romper as malhas da dependência econômica.
Entretanto, esse massacre é resiliente. Ele se aloja nas fáscias do corpo social — tece fibras invisíveis que amarram a subjetividade, como um tecido conjuntivo que foi se formando por dentro das relações, dando estrutura a um pacto silencioso de dominação.
Audre Lorde tatuou na minha consciência que o opressor não está somente lá fora. Há um pedaço dele plantado em cada um de nós — e é onde a mudança precisa começar. Por isso, priorizo a politização do espaço doméstico. Nos mínimos rituais da vida cotidiana, nos gestos, nas pequenas permissões, nos filmes que escolhemos para assistir, nos comentários, na desnaturalização das cargas femininas de cuidado, no apoio ao empoderamento das meninas e na educação dos meninos menos preocupados com a masculinidade, fermentamos aquilo que chamamos de igualitarismo democrático de gênero, consequentemente de classe e raça.
O feminismo — talvez o movimento mais impactante do século XX — precisa, como diz o poeta, manter-se atento e forte. Discursos com categorias pré-definidas, mais preocupados com vocabulário do que com práticas, têm tido baixo impacto pedagógico, além de reproduzir um identitarismo colonialista ao qual muitas mulheres populares, menos intelectualizadas, indígenas, negras e camponesas não se reconhecem (e até são rechaçadas).
Rita Segato tem enfatizado a importância de abordar esses desvios por meio de uma escuta radical do outro em seus próprios termos. Isso significa que precisamos alargar nosso imaginário político, aprender com o diálogo entre as diferenças culturais e apostar na reconstrução do tecido comunitário, na capacidade de se vincular com o outro, ouvir e sentir empatia.
(* Professora Titular do departamento de Ciências Sociais da UFSM e também coordenadora da Especialização em Estudos de Gênero)
Sobre o(a) autor(a)
Professora do departamento de Ciências Sociais da UFSM