Os danos da desinformação à vida e à democracia SVG: calendario Publicada em 05/10/2022 SVG: views 5252 Visualizações

 

Nos últimos anos, sobretudo de 2016 para cá, o termo fake news passou a ganhar notoriedade na mídia, nas conversas e no meio acadêmico. Naquele ano, Donald Trump popularizou a expressão durante as eleições à presidência dos Estados Unidos. Ela foi escolhida ‘a palavra do ano’ de 2017 pelo Collins English Dictionary, para o qual fake news seriam "informações falsas, muitas vezes sensacionalistas, divulgadas sob o disfarce de notícias". O termo, no entanto, é problemático, principalmente por dois aspectos. Primeiro, porque se é notícia (news), não poderia ser falsa (fake). Segundo, porque nem só de ‘notícias falsas’ é composto o complexo ecossistema de conteúdos que confundem, manipulam, falseiam e prejudicam a sociedade como um todo.

Pesquisadores têm preferido denominar o fenômeno ora como era da pós-verdade, desordem informacional, ou desinformação. Para os jornalistas Claire Wardle e Hossein Derakshan (1), estamos imersos em uma desordem informacional, que equivale a uma espécie de poluição da informação em escala global. Trata-se de uma rede complexa de motivações para criar, disseminar e consumir essas mensagens, além de uma profusão de tipos de conteúdo e técnicas para amplificá-lo, e inúmeras plataformas que as hospedam e lucram com elas.

No ecossistema da desordem da informação, entram as informações incorretas (que nem sempre são produzidas ou compartilhadas com a intenção de prejudicar), a desinformação propriamente dita (conteúdo impostor ou fabricado para enganar), até conteúdos nocivos contendo discurso de ódio. Claramente, a desinformação é o ponto mais complexo e difícil de combater. Vimos a que ponto ela pode chegar e as consequências que pode trazer durante os piores momentos da pandemia da Covid-19, quando muitas pessoas aderiram a tratamentos ineficazes, negaram as vacinas e o distanciamento social, e acabaram perdendo a vida. A OMS chegou a declarar que estávamos vivendo, além da pandemia do vírus, uma infodemia.

Nas eleições, a desinformação é estratégia utilizada em larga escala, sobretudo pela extrema direita, que não demonstra ter escrúpulos ao mentir e atacar adversários, manipulando mentes e conquistando seguidores. Quem lembra da falácia do kit gay que teria sido distribuído pela esquerda nas escolas? Foi uma desinformação disparada pelos bolsonaristas na campanha eleitoral de 2018, amplamente aceita por uma parcela significativa dos eleitores, com ecos até hoje.

Nesse primeiro turno do pleito de 2022, conteúdos fabricados para enganar circulavam descontroladamente em grupos de aplicativos e redes sociais, furando as barreiras legais e técnicas que o judiciário tenta implementar sem muito sucesso. A estratégia de ataque às urnas eletrônicas segue forte, áudios e vídeos circulavam com esse discurso requentado logo após a divulgação dos resultados do primeiro turno. A democracia vai sendo aos poucos corroída.

Mas, a desinformação não ataca vidas e instituições só em períodos de maior tensão, como em uma pandemia ou nas eleições. Há notícias de linchamentos que ocorreram após campanhas de difamação baseadas em mentiras nas redes sociais. A queda na cobertura vacinal de crianças é alarmante em vários países, com o retorno da ameaça de vírus, como o da poliomielite, que estavam há décadas erradicados, porque pais aderem a campanhas desinformativas. Por conta da desinformação, há até quem acredite que a Terra é plana.

Essa desordem informacional se explica por uma série de motivos: falta de regulamentação das plataformas digitais, polarização da sociedade, descrença nas instituições (ciência, imprensa), viés de confirmação (nossa tendência a compartilhar o que confirma nossas opiniões), e falta de alfabetização midiática.

Esse último aspecto nos convoca a um trabalho de longo prazo. Precisamos (universidades, jornalistas, professores, mídia) investir no letramento midiático. Nossas crianças e jovens devem aprender desde cedo a compreender as lógicas dos meios e plataformas, distinguir fato de opinião, saber como são produzidas as notícias, identificar conteúdo desinformativo. Com a tecnologia cada vez mais sofisticada, sendo apropriada para manipular imagens e sons, o caminho da desinformação será longo. Quanto antes começarmos a enfrentar o problema, menos trágicas serão as consequências.

(1) WARDLE, C.; DERAKSHAN, H. Information Disorder: Toward an interdisciplinary framework for research and policy making. Strasbourg: Council of Europe. 2017.

Luciana Menezes Carvalho é professora do Departamento de Ciências da Comunicação do Campus da UFSM em Frederico Westphalen. Jornalista, doutora em Comunicação, líder do Grupo de Pesquisa Desinfomídia (UFSM/CNPq), integrante da Rede Nacional de Combate à Desinformação (RNCD).

 

Sobre o(a) autor(a)

SVG: autor Por Luciana Menezes Carvalho
Professora do departamento de Ciências da Comunicação da UFSM

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