Dribles ambientais, grandes ciladas SVG: calendario Publicada em 05/04/2023 SVG: views 3729 Visualizações

O meio ambiente não fica longe da habilidade de fintar, enganar, ultrapassar, gingar, escapar, esquivar.

O talento brasileiro para os dribles extrapola o futebol. Se bem que, o país do maior jogador do mundo não é mais aquele. A seleção e as competições internacionais que o digam. O meio ambiente não fica longe da habilidade de fintar, enganar, ultrapassar, gingar, escapar, esquivar. Não faltam sinônimos para a aptidão apesar de, em termos ambientais, poucos se reconhecem como dribladores. Ao contrário, todos se intitulam cumpridores, defensores e sustentáveis. Só que na hora do “vamo vê”, a história é bem outra. É exatamente ao contrário. 

A legislação ambiental, nos últimos tempos, passou a ser uma mera peça normativa para não dizer, decorativa. O cumprimento ainda questionado é tido como sendo um fator dificultador para o crescimento econômico e para o desenvolvimento, além de entrave burocrático. Descumprir, desrespeitar ganhou permissão oficial. O desmatamento, a invasão de terras, a perseguição aos defensores ambientais conquistou ares de chapa branca. A passagem da boiada foi incentivada pelo próprio governo federal. Os à margem da lei ganharam proteção do estado, enquanto os protetores pagaram, muitas vezes, com a própria vida. 

No recente dia de 30 de março, a Câmara dos Deputados aprovou a MP 1150/2022 que em uma única tacada driblou a Lei de Proteção à Vegetação Nativa e a Lei da Mata Atlântica. Eles não dão sossego! A bancada ruralista se mantém a postos e articulada para passar a boiada. A medida afrouxou a proteção à Mata Atlântica, bioma mais devastado do país e onde se concentra a maior parte da população brasileira. A medida flexibilizou o desmatamento da vegetação primária e secundária protegidas pela atual lei. 

A nova redação também permitiu que os proprietários rurais tenham 180 dias para aderir ao Programa de Regularização Ambiental (PRA), porém, somente a partir da convocação formal feita pelo órgão competente estadual ou distrital. É a sexta vez, desde 2012, que a adesão é adiada. Críticos alegam que o texto abre brecha para que a exigência nunca seja cumprida, considerando a necessidade da convocação formal. O Brasil volta a se recolocar na contramão do que o mundo necessita e espera em relação às medidas ambientais prometidas pelo atual governo. O risco do distanciamento dos compromissos climáticos, da água e da biodiversidade volta a assombrar. A esperança é a derrubada da medida provisória pelo senado. Os seres diabólicos estão sempre alertas e atentos para envenenar, destruir. 

A toxicidade não se limita à hostilidade aos territórios, aos protetores e ao cumprimento das leis. A liberação de agrotóxicos aos milhares, muitos proibidos em outros países, envenenam comunidades, alimentos, rios e matas. O modelo de produção agrícola prioriza commodities, em vez de alimentos. Vale-se da fome mundial para justificar métodos e práticas, os quais não se sustentam ante os números. No Brasil, são 33 milhões de pessoas em situação de fome e outros tantos milhões em insegurança alimentar. Enquanto crescem as filas em busca de um prato de comida, a balança comercial apresenta recordes de produção.

Batizar agrotóxicos de defensivo foi uma clara artimanha para driblar o consumidor e criar a ilusão de produto inofensivo, enquanto o envenenamento perdeu os limites. Um claro drible para afastar a sombra da morte, da doença e da toxicidez destes compostos químicos, na maioria cancerígenos. O PL do Veneno ainda desconsiderou e descaracterizou áreas de preservação e de conservação, sob a justificativa da necessidade de ampliação de terras para plantio e para criação. A invasão de terras indígenas, a destruição das florestas e a monocultura continuam destruindo e desequilibrando os ecossistemas, além de colocar em risco a biodiversidade. 

O agro cada vez menos POP e mais TOX minimiza os efeitos das mudanças climáticas. Trata o grave problema como sendo manifestação da natureza. A estiagem verificada no estado do Rio Grande do Sul é prova irrefutável da resposta às intervenções humanas. Não bastam medidas que amenizem os efeitos. É essencial se debruçar sobre as causas com o objetivo de encontrar soluções. Práticas agropecuárias de baixo carbono, recuperação de áreas degradadas e nascentes, diversidade e rotação de culturas, implantação dos planos de bacias hidrográficas para garantir o suprimento de água, pois o setor detém a posição de maior consumidor, são medidas sem as quais o enfrentamento não ocorrerá. É urgente um modelo mais harmônico que, no lugar de passar a boiada, compreenda que não há atividade econômica rentável sem uma relação equilibrada com a natureza.

O comportamento de dar rasteira nas regras e nas leis alcança também o setor industrial que cumpre, de forma relutante, as exigências legais, sob a ameaça de multas que, muitas vezes, nem chegam a serem pagas. Em tempos de impunidade, não temem e driblam as penalidades impostas afirmando que seus compromissos com o meio ambiente são reais e que vêm de longa data, apesar das evidências demonstrarem o contrário, não passam de mentiras e de imagens falsas. Indistintamente, todos posam de defensores, protetores e incentivadores das melhores práticas ambientais. Certificam seus procedimentos, muitas vezes, por sistemas próprios criados para atestar uma ética inexistente. 

Mesmo empresas que cometeram crimes ambientais, como a Vale do Rio Doce, Braskem, Basf e outras (a lista não é pequena), perante a opinião pública usam e abusam de uma imagem arquitetada de protetoras da comunidade em que atuam e do meio ambiente do qual extraem matérias primas e no qual descartam seus resíduos. Os rompimentos das barragens de rejeitos em Mariana e Brumadinho, ambas em Minas Gerais, são exemplos emblemáticos de conduta em que a sustentabilidade, os cuidados com o meio ambiente e o respeito à comunidade beiram a banalidade e a habilidade de blefar. Sem pudor e sem constrangimento, a Vale afirma praticar de forma transparente, ESG (sigla em inglês que representa ações nas áreas ambiental, social e de governança) – “Temos compromisso de deixar um legado positivo para as comunidades onde atuamos e a sociedade em geral” (extraído do site da empresa). 

Recente decisão determinou o depósito judicial de 10 bilhões de reais da Vale do Rio Doce e da BHP, atendendo ação de instituições e de municípios do Espírito Santo, em decorrência dos danos causados pela tragédia da Samarco em Mariana. Apesar da deliberação que reconheceu os impactos sofridos pelos municípios, a partir de Nova Almeida até Conceição da Barra (ES), a Fundação Renova nunca cumpriu o acordo de reparação. Além da contaminação com metais pesados no litoral, a tragédia trouxe prejuízos ao turismo, à economia e às relações sociais. Difícil acreditar em legado positivo quando as evidências demonstram exatamente o contrário, morte e destruição de sonhos e de vidas. Descompromisso! É importante que o consumidor responda aos dribles socioambientais não consumindo produtos de empresas em que os processos e práticas desrespeitam o meio ambiente, os trabalhadores e a própria comunidade. 

Sofás, pneus, sacolas, televisores, telas de computadores, teclados, uma infinidade de materiais habita o leito dos rios, os terrenos baldios e as matas. Os contaminantes presentes envenenam as águas, o ar e o solo. São confundidos com alimento por aves, peixes e outros animais. Ingressam na corrente sanguínea dos mamíferos e estão presentes até na placenta. O leite materno não fica livre da contaminação pelos microplásticos. Ao mesmo tempo que os plásticos trouxeram muitas facilidades, como ir às compras sem precisar levar sacolas e embalagens para trazer os produtos, por outro lado, têm nos levado a pagar um preço altíssimo – os plásticos permanecem centenas, até milhares de anos no meio ambiente. Durante este tempo, vão se fragmentando em pequenos, micro pedaços e, assim conseguem atingir toda a cadeia e são um dos grandes responsáveis por colocar em risco a biodiversidade. 

A grave estiagem verificada no Rio Grande do Sul no verão que ora findou, descortinou uma ilha de lixo submersa no Rio Gravataí. Feito um monstro submergiu às águas, dia a dia as 132 toneladas de resíduos tornaram-se visíveis para espanto das comunidades do entorno, as grandes responsáveis pelo depósito que avançou pelo curso do rio. Em alguns locais, a massa foi represada pela ação de plantas aquáticas que se desenvolveram descontroladamente. A oferta de nutrientes decorrente do esgoto urbano lançado sem tratamento e das condições de luz e do calor intensos, do baixo volume das águas que contribui para concentrar ainda mais os poluentes presentes, criaram condições favoráveis para o crescimento das mesmas. Foram retirados 250 m3 de plantas aquáticas, cerca de 22 caminhões caçamba. 
No meio ambiente, a conexão é plena, total. Um problema influencia outro e mais outro, às vezes, com consequências ainda mais graves do que o primeiro. Todo o material que foi parar, indevida e irresponsavelmente, no leito do rio foi retirado e ainda precisou ser disposto adequadamente. Apenas a retirada custou aos cofres públicos 1,32 milhão de reais. O valor não incluiu os custos de destinação – aterro urbano. As plantas aguardam laudo para a escolha da melhor destinação. Os vegetais como um sistema vivo absorveram os contaminantes presentes no meio, os quais permanecem nas raízes, folhas e outras partes. Esse aspecto precisa ser levado em consideração na seleção de opções.  

Os custos das ações sobre o meio ambiente vão além dos simples dribles. Multas não são suficientes para cobrir os custos totais, muito menos os reais. A destruição da natureza e o esgotamento dos bens naturais são impagáveis, incalculáveis e muitas vezes, irrecuperáveis. Os dribles acentuam a disruptura da espécie humana com os demais seres e com o grande sistema vivo que é o planeta, do qual somos apenas uma parte com igual importância aos demais. 
O agravamento, sobretudo da questão climática é uma prova irrefutável de que podemos estar caminhando em direção ao irreversível. Passa da hora, o entendimento de que sem ambiente saudável não há vida. Dribles ambientais não significam habilidade. Dribles ambientais significam sabotagem para conosco mesmos. Uma cilada! O pouco caso com as consequências atesta o distanciamento do homem com a natureza que fornece os bens necessários sem cobrar nada em troca, exigindo apenas cuidado e respeito aos limites.

Sobre o(a) autor(a)

SVG: autor Por Marta Tocchetto
Doutora em Engenharia. Professora aposentada do departamento de Química da UFSM

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