Inflação e eleições SVG: calendario Publicada em 13/04/2022 SVG: views 2769 Visualizações

Fora de ano de eleições, os problemas que mais preocupam os brasileiros se alternam conforme a conjuntura. Tem ano, que é a falta de segurança; outro é a corrupção e, especificamente, em 2020/2021, a pandemia. Mas, em ano eleitoral, não tem jeito, o que o povo reclama mesmo é da “carestia” e isso se reflete nas urnas. Inflação controlada, voto a favor do governo. Descontrole da inflação, voto contra.  Numa sociedade que prima pela ausência de valores, o mundo real funciona assim. O que vale é o pragmatismo. Discurso político bonito, não leva refeição à mesa.

 Não por outro motivo, Lula está “nadando de braçadas” nas pesquisas eleitorais em 2022. Quando no governo, no primeiro mandato, tratou de administrar bem a herança deixada por FHC – o Plano Real. Eleito, logo tratou de escrever a tal “carta ao povo brasileiro”, na verdade um compromisso de manter a mesma política econômica de FHC, que era, justamente, a estabilidade de preços. Os programas sociais (Bolsa Família, Prouni, Minha casa, minha vida) teriam que esperar até o 2º mandato. Afinal, FHC havia ganho duas eleições no primeiro turno não por acaso. Lula aprendera a lição e agora guiava-se pelo pragmatismo.

Após deixar o governo (em 2010), com mais de 80% de aprovação popular, Lula foi sucedido por Dilma Rousseff que chegou ao final do 1º mandato atravessando grave crise fiscal e política. Ambas as crises se entrelaçaram e Dilma, apesar de reeleita, não conseguiu completar o mandato. Jogo jogado: Dilma ficou no passado e Lula surfa na onda do controle da inflação e emprego dos seus dois governos para liderar as pesquisas. As condenações da “Lava Jato”, que lhe renderam a prisão, foram invalidadas pelo STF. Seu algoz (o ex-juiz Sérgio Moro) acabou considerado “parcial” e, hoje, pula de “galho em galho” para conseguir uma legenda para concorrer a alguma coisa. A “terceira via”, já era. Alguém, lá atrás, acreditaria que Lula iria virar o jogo?

Adivinhe a causa principal da derrota de Bolsonaro, caso venha a acontecer (sempre é bom deixar um espaço para dúvida, num país surpreendente como o nosso)? Apesar de ficar para a história como o pior governo de todos no período pós-ditatura, Bolsonaro provavelmente será derrotado justamente por aquilo que mais se vangloria: “não entender nada de economia”. A julgar pelo que diz, subentende-se que considera a economia um assunto sem importância e nada fez diante dos sinais de descontrole da inflação. Diante disso, não deveria causar surpresa a inflação do mês de março/2022, que, segundo o índice oficial de inflação (IPCA), foi de1,62%, a maior taxa desde a criação do Plano Real (1994). No acumulado de 12 meses, a taxa de inflação ficou em 11,30%.

Em resumo, Bolsonaro jogou fora quase três décadas de esforço de controle da inflação. E, desculpe o trocadilho, vai ter um preço alto a pagar nas urnas. É claro que há atenuantes: a alta dos preços não é fenômeno exclusivamente brasileiro (os EUA têm uma inflação de 7% em 12 meses); tem a pandemia; o aumento do preço das commodities, que encarece o preço dos alimentos; assim como a alta do dólar e, recentemente, a invasão da Ucrânia, que elevou o preço dos insumos e fertilizantes agrícolas. Tudo isso é verdade, mas não muda nada. Para o eleitor médio, a culpa pela inflação é sempre do governo. Segundo pesquisa do Datafolha, realizada no final do mês de março de 2022, 75% dos brasileiros responsabilizavam o governo Bolsonaro pela volta da inflação.

A inflação é o pior imposto de todos, porque atinge principalmente os mais pobres. O próprio governo lucra com a inflação porque a receita é reajustada, mas a despesa não. Essa é a causa da volta do superávit primário do ministro Paulo Guedes (apesar do governo federal ser deficitário, os estados e municípios são superavitários). Para que serve o superávit primário? Para pagar os juros dos detentores de capital: a taxa básica de juros (Selic), em poucos meses, passou de 2% para 11,75% ao ano para acompanhar a inflação. O único instrumento que o Banco Central tem para combater a inflação é a política monetária. Por isso, não será surpresa se os juros voltarem a subir. Quanto mais aumenta os juros, maior é o custo da dívida pública, hoje no patamar de 80% do PIB.

Claro que o governo Bolsonaro poderia usar a política fiscal para combater a inflação, mas, em ano eleitoral e fim de mandato, cortar gastos ou aumentar imposto soa como uma heresia. Os políticos só pensam em “torrar” nas campanhas os 5 bilhões de reais do “fundo eleitoral”. O chamado “teto de gastos” foi implodido pelas emendas parlamentares do “Centrão”. O próximo governo terá uma equação difícil de resolver: de um lado, fazer a inflação voltar para o patamar das últimas três décadas; de outro, diminuir a alta taxa de desemprego. O curioso é que ninguém está discutindo isso entre os presidenciáveis!