A reciclagem e seus antagonismos SVG: calendario Publicada em 17/08/2022 SVG: views 3936 Visualizações

O Brasil gera, anualmente, 82 milhões de toneladas de resíduos, sendo que apenas 3% do que é recolhido pela coleta urbana segue para a reciclagem para ser transformado e voltar como um produto novo, reciclado. De uma forma geral, estudos mostram que os resíduos urbanos são compostos por 50% de resíduos orgânicos, 30 a 40% de resíduos recicláveis e 10 a 20% de rejeitos. O percentual indica que praticamente 60 a 70 milhões de toneladas estão indo para o destino errado. O desperdício é enorme. A ausência de incentivos e políticas públicas que estimulem a indústria de reciclagem contribui para a inexpressiva parcela que retorna. A falta de cobrança da aplicação da logística reversa se soma ao contexto de descompromisso ambiental.

A única parcela que deveria ser destinada aos aterros são os rejeitos formados por materiais, cuja possibilidade de reaproveitamento é inexistente ou inviável, seja por razões econômicas, tecnológicas ou ambientais. Nessa classe citam-se: papel higiênico, papel toalha, guardanapos e lenços de papel, bitucas de cigarro, chicletes, dentre outros.

Os resíduos orgânicos, muitas vezes, são destinados como rejeitos sem sê-los. Esta fração, considerando o gerenciamento adequado, deve ser destinada à compostagem e/ou à biodigestão para que os produtos do tratamento biológico sejam aproveitados como biofertilizante ou como combustível, no caso, biogás. O aproveitamento energético é uma alternativa limpa que vem ao encontro da redução do uso dos derivados do petróleo – combustível não renovável e sujo. O processo de queima de combustíveis fósseis é um importante fator para o agravamento do cenário das mudanças climáticas.  

Os resíduos recicláveis são os plásticos, metais, papéis e vidros. A reciclabilidade depende grandemente do mercado. Muitos materiais, mesmo tendo potencial para retornar ao ciclo produtivo, não voltam por falta de opção tecnológica, pelo aspecto econômico ou por puro desinteresse do mercado. Alguns tipos de plásticos, como os metalizados e o isopor, inclusive os vidros se enquadram nessa situação, a depender da região e da cidade. Isso significa dizer que não basta ser reciclável para ter a reciclagem ou a destinação adequada garantidas. Além de que, o simples fato de ser reciclável pode representar incentivo e/ou despreocupação com o consumo.

Outro aspecto a considerar nesse universo são as trocas de um material por outro. A simples mudança não representa que os benefícios ambientais serão alcançados, pois muitas vezes o tratamento correto inexiste e a única alternativa volta a ser o encaminhamento para aterro. Muitas trocas assemelham-se a seis por meia dúzia. Efetivamente, a boa intenção fica pelo meio do caminho. O mercado atual oferece, a preços competitivos, embalagens biodegradáveis para substituir as de plástico. Essas bastante usadas no ramo da alimentação. Ocorre que na maioria das vezes, os recipientes cuja matéria prima são, por exemplo, fibras vegetais, como cana-de-açúcar, após o consumo, eles poderiam ser encaminhados para tratamento biológico, no entanto, por falta de alternativa acabam nos aterros, como se rejeitos fossem.

Considerando que, os plásticos derivados de petróleo ao serem destinados aos aterros permanecerão lá centenas de anos, alguns por quatrocentos anos, a troca de material é positiva, tendo em vista que a degradação das embalagens de fibras vegetais se dá em poucos meses. Porém, esse não é o melhor destino. Há um desperdício, pois se compostado, o produto da transformação poderia retornar ao solo para melhoramento das suas propriedades, com isso os impactos positivos trazidos pela substituição seriam bem maiores.

É importante que as cidades, por meio de políticas públicas incentivem a compostagem e a biodigestão em pequena escala. Assim, como também disponham ao cidadão, alternativas coletivas para a destinação dos resíduos orgânicos e biodegradáveis, além de, logicamente, para os demais. A ausência de opções é causa importante para a ocorrência mistura de resíduos, fator relevante e que compromete o encaminhamento à reciclagem ou, até mesmo. o próprio processo devido à contaminação. A necessidade de destinação específica para esses resíduos é imperiosa, sob pena da situação verificada nos contêineres laranjas na cidade de Santa Maria se repetir sempre que uma nova tentativa de coleta seletiva for implantada.

Resíduo orgânico não é rejeito. Resíduo orgânico não é lixo. A separação em úmidos – denominação dada à mistura de resíduos orgânicos e rejeitos – incentiva o desperdício, pois faz com que o gerador veja e destine os orgânicos como se eles não possuíssem potencial de reaproveitamento. Esse foi um dos motivos para que a coleta seletiva solidária da UFSM, desde a implantação, incentivasse a separação dos resíduos de características urbanas em três tipos: rejeitos, orgânicos e recicláveis. Cada tipo tem coleta e destinação específicas.

Os rejeitos são recolhidos pela coleta pública, os quais são dispostos pela prefeitura em aterro de resíduos urbanos. Os resíduos orgânicos têm outro tipo de coleta, os quais são encaminhados à unidade de compostagem do Colégio Politécnico para posterior uso no setor de fruticultura da UFSM. Os materiais recicláveis possuem coleta específica. São destinados às associações de catadores para separação, de acordo com o mercado comprador. Os diferentes tipos separados são destinados às rotas de reciclagem específicas. A separação do resíduo urbano em três frações principais é uma forma simplificada e fácil, a qual assegura as melhores alternativas de destinação, podendo ser realizada em qualquer domicílio.

O incentivo à separação correta é mais do que uma questão ambiental, é econômica e sobretudo, social. Econômica porque permite o retorno de muitos materiais ao ciclo produtivo. Ambiental, pois reduzindo a extração de matérias primas da natureza evita a exaustão dessas reservas. Social porque mantém o trabalho e a remuneração daqueles que executam a separação dos resíduos para o encaminhamento à reciclagem. Quanto melhor for a separação, garantida pelas condições adequadas de destinação, maior é a valorização financeira, consequentemente, maiores e melhores serão as condições para os trabalhadores na garantia da sua subsistência e da manutenção das suas famílias.

O momento econômico e o grave desemprego no Brasil têm levado mais e mais pessoas a encontrarem na catação e na venda do material reciclável, alternativas para colocar, minimamente, a comida na mesa. O gerador tem responsabilidade com destinação correta dos resíduos que produz. O fato da cidade de Santa Maria não dispor de coleta seletiva não isenta a nossa responsabilidade individual, portanto é possível identificar uma associação e mesmo um catador para a entrega do resíduo corretamente separado. Há também alternativas para entrega voluntária em pontos de recebimento, como o óleo de cozinha na UFSM, assim como eletroeletrônicos em shoppings da cidade, por exemplo. São alternativas de minimizar a ausência de um sistema municipal que garanta o encaminhamento correto dos resíduos gerados pelos santa-marienses. 

A reciclagem não neutraliza a pegada ecológica dos materiais descartados. Ela apenas minimiza. O problema decorrente da extração, processamento, uso e retorno ao ciclo produtivo dos materiais é reconfigurado. Refletir, recusar e reduzir são essenciais antes de reciclar. O entendimento de que a reciclagem, por si só, assegura nosso modo de consumo é um equívoco. O processo de reciclagem é dependente de água e energia. Dependendo do material, os gastos podem ser ainda maiores. É o caso da reciclagem de alumínio cujo gasto energético é altíssimo, no entanto, torna-se sustentável considerando o grande impacto ocasionado pela mineração da bauxita. O mesmo podemos afirmar em relação à reciclagem dos equipamentos eletroeletrônicos em geral, pois muitos componentes dependem de metais preciosos obtidos pela mineração, como ouro, prata e platina, dentre outros.

O simples questionamento sobre a real necessidade da aquisição de um produto ou de recebimento de alguma embalagem, como uma sacolinha, pode resultar na constatação da não necessidade. O nosso modo de consumo é estimulado pelo mercado que incentiva a todo o momento, a compra e a troca desconsiderando a real necessidade e a alta conta ambiental decorrente. Criam-se datas para garantir o comprar e o comprar. Crescimento econômico é medido pela crescente capacidade de consumo e de compra. Essa lógica está na contramão do uso equilibrado dos bens naturais. Está na contramão da capacidade finita dos bens naturais.

Dia 12 de agosto foi o Dia da Sobrecarga da Terra para o Brasil. O dia não é de comemoração, ao contrário, é de alerta e de preocupação. Dia 12, as reservas naturais destinadas para durarem todo o ano de 2022, acabaram. Assemelha-se ao salário que acaba antes do final do mês. A solução, nesse caso é lançar mão do cheque especial ou de empréstimos. O atendimento de nossas necessidades, considerando o suprimento da natureza, também está no vermelho. Estamos consumindo mais do que a capacidade da Terra se recuperar, se recompor. O déficit aumenta a cada ano. Pode chegar ao limite, ou seja, ao esgotamento dos bens naturais que garantem a sobrevivência na Terra.

Repensar e modificar nosso modo de consumo é essencial. A continuidade desse ritmo pode comprometer a vida no planeta, tornando a Terra inabitável. A substituição de materiais não é suficiente para demonstrar compromisso com o meio ambiente. A mudança tem que ser de comportamento, de atitude. Acredito nas pequenas mudanças. Acredito na reflexão e nas escolhas individuais. Esperar que as grandes empresas e os governantes tomem as ações necessárias pode ser tarde demais. Talvez, as pequenas ações não resolvam o problema como um todo, porém, mudamos de posição, passamos a ser parte da solução.

 

Sobre o(a) autor(a)

SVG: autor Por Marta Tocchetto
Doutora em Engenharia. Professora aposentada do departamento de Química da UFSM

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