Meu mundo criança SVG: calendario Publicada em 04/01/2023 SVG: views 2773 Visualizações

Voltamos à infância da palavra na educação. Não basta pronunciar o mundo antes de ser inventado pelas novas tecnologias – a ordem antiga das coisas. É preciso “saber-expressar” o mundo novamente, e mais, “saber-dialogar” com ele. O excesso de positivação-exposição, criticado por Byung-Chul Han, não é a melhor escolha/caminho. Pois, antes da “aldeia global” era como se estivéssemos andando de maneira nua e crua nas ruas. Havia limites: a criança na rua – olha o carro menino!! O cãozinho de rua, não pertence a ninguém.

Na aldeia global, tudo é público e privado ao mesmo tempo. Agora há novos cuidados para ser/estar no velho-novo mundo. Ele se tornou pequeno novamente (uma nova Idade Média?) na aldeia global. Urge uma nova invenção. Quem sabe a poesia de Manuel de Barros, Mundo pequeno I, seja um prenúncio do tanto que há de vir, cada vez mais. Pois, se o mundo se tornou criança, igual ao que aparece na sua poesia, precisa de uma nova palavra.

Mundo pequeno I

                                  Manoel de Barros (do livro “O Livro das Ignorãças”)

O mundo meu é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Formigas recortam roseiras da avó.

Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.

Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os besouros pensam que estão no incêndio.

Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa.

Ele me rã.

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.

Habitamos uma pequena ilha, por obra e força das novas tecnologias da informação e comunicação. Nela, todos são atores e plateias ao mesmo tempo da aldeia global. Senhores e escravos de nosso próprio destino. Nesse contexto: quem são as “formigas” que “recortam as roseiras da avó”? O que significa dizer que a “casa foi feita de costas para o rio”? Ou então, quem são “as aves” que “todas as coisas já estão comprometidas”?

Traduzindo, arrisco a dizer que os novos rios são fluxos de informações instantâneas que fluem a todo momento. Porém, a nossa casa (antiga habitação, a nossa formação) foi construída de costas para ele. Daí as inversões necessárias: em vez de o peixe ser protagonista do rio, é o contrário. É “o rio que está começando um peixe”. É o rio cósmico e imagético que “dá vida” às coisas (natureza morta), animais (rã) e plantas (árvore). Mas tudo passa por mim, por isso ele “me coisa”, ou seja, são as nossas criaturas, as plataformas digitais e seus algoritmos, que produzem o mundo maravilhoso do virtual, da linguagem imagética, mas também o horror que nos assombra a todo instante. E as crianças que brincavam com suas latas maravilhosas no fundo de quintal, hoje tem seus celulares ou smarts, notebooks, jogos eletrônicos, etc, que lhes põe o mundo todo na palma de suas pequenas mãos. São máquinas maravilhosas também, já que todas voam por cima das distâncias, no mundo virado pequeno.

No entanto, nesse novo universo, “se o horizonte enrubesce um pouco”, ou seja, se temos um prenúncio de violência, por exemplo, “os besouros pensam que estão no incêndio”. Por mínimo que seja o fato, tudo se torna viral, adquire uma importância máxima na aldeia tornada global. Afinal, “Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves”. A informação e o conhecimento adquiriram asas, impulsionados pelo fluxo constante das redes sociais. Os novos empreendedores de aplicativos e plataformas são as novas formigas a recortar a roseira da avó. São multidões em busca do seu alimento diário, desprotegidos de direitos e submetidos à nova autoexploração voluntária do capital.

A infelicidade é que, na nova casa da internet, não há como dar as costas para o rio. Mas há esperança de que à tarde “um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos”. A sabedoria que vem dessas experiências poderá – (com sua flauta mágica?) nos tirar da decadência e da ruína para anunciar um novo começo.

Sobre o(a) autor(a)

SVG: autor Por Amarildo Luiz Trevisan
Professor Titular de Filosofia da Educação. Membro do departamento de Fundamentos da Educação da UFSM

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