Combate à misoginia e ao feminicídio passa pela regulamentação das plataformas digitais
Publicada em
15/04/2026
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‘Não se arrependa de nada’ era a frase estampada em inglês (Regret Nothing) na camiseta de um réu por estupro coletivo, ao se apresentar à Polícia, no início de março, no Rio de Janeiro. A partir desse acontecimento, menções aos termos ‘misoginia’ e ‘red pill’ cresceram na imprensa, já que as notícias sobre o caso explicavam a origem da frase. O interesse dos usuários da internet nessas expressões também cresceu de março para cá, como mostra uma pesquisa rápida que fiz no Google Trends.
Claro que a aprovação do PL da Misoginia no Senado ajudou, e tudo está relacionado, mas o ponto que quero destacar aqui é o da relação que passamos a fazer, enquanto sociedade, entre o crescimento da violência física contra a mulher e os movimentos de ódio e radicalização online que têm como alvo nós, mulheres. Os fomentadores dessa cultura de ódio e violência estão livres para professar suas sandices porque as plataformas digitais fingem nada ter a ver, enquanto lucram muito dinheiro com o engajamento que esses conteúdos geram (1).
De 2025 para cá, temos visto crescer de modo assustador o número de feminicídios no país. Foram 6.904 casos em 2025 contra 5.150 em 2024. Mais de 1.600 crianças ficaram órfãs de mãe nesses dois anos (2). O ano de 2026 mal começou e, apenas no Rio Grande do Sul, tivemos um aumento de 50% desses crimes de ódio nos dois primeiros meses do ano (3). Não dá mais para continuar tratando os movimentos da internet que alimentam essa barbárie como algo descolado da realidade.
O caso do tenente-coronel que matou a esposa, também militar, e tentou simular o suicídio dela, em São Paulo, foi paradigmático ao mostrar que a cultura red pill, misógina, de ódio e desprezo às mulheres, está por trás da violência que estupra e mata - além de ceifar a vida de crianças como modo de destruir mulheres. As mensagens que o marido mandava à mulher, agora públicas, parecem cópia dos discursos dos coachs da machosfera (4). Ele era o macho-alfa provedor, ela devia ser submissa a ele (5). Quando ela se negou a seguir o script, foi morta. O homem que matou os próprios filhos para se vingar da ex-mulher, em Goiás (6), possivelmente tenha bebido na mesma fonte. Há meninos, jovens e homens de todas as idades sofrendo lavagem cerebral em grupos e perfis misóginos na internet, encontrando ali munição para sua pulsão assassina.
Enquanto lia sobre o caso de São Paulo, lembrei que, em 2023, no agora extinto programa de rádio e podcast Sem Trelas, eu e Rejane Miranda entrevistamos a professora Lola Aronovich, da UFC, e fui ouvir novamente o episódio. Nele, Lola conta que há anos (uns 18) sofre ameaças horrorosas de masculinistas, que faziam circular conteúdo misógino nos fóruns da deep web. Graças ao seu trabalho de denúncia no blog ‘Escreva, Lola, Escreva’, a docente deu nome à Lei Lola, de 2018 (7), que foca no ambiente online e permite que a Polícia Federal investigue grupos que defendem a inferioridade feminina. Já o PL recentemente aprovado no Senado, que agora esbarra no conservadorismo do Congresso Nacional, vai além, tornando crime práticas discriminatórias que tenham como motivação a misoginia, não só na internet.
Ao voltar a ouvir a entrevista da Lola, três anos depois, me dei conta que, na época, esse era um assunto quase de nicho, que só interessava às feministas. Agora, que a machosfera está na internet aberta mesmo, surfando na falta de regulamentação das plataformas digitais (que lucram com tudo que atrai o pior do ser humano), o jornalismo da grande mídia parece ter finalmente notado a gravidade do fenômeno. Aqui chego ao cerne da questão: ter a misoginia e os grupos masculinistas da internet como assuntos populares é motivo de esperança.
O jornalismo e a internet falando sobre isso é uma ótima oportunidade para que a sociedade civil organizada não desista de lutar pela regulamentação das plataformas digitais. Se o argumento do combate à desinformação não convence; se a preocupação com a adultização não sensibiliza; se não há consenso que o vício em bets e na rolagem infinita das redes seja culpa das big techs; que a luta seja, então, pelas mulheres, pelas famílias.
Defender que essas empresas poderosas, donas das plataformas, tenham limites legais não tem nada a ver com censura. Não se trata de coibir a liberdade de expressão. Trata-se da vida desse grupo que é mais da metade da população do planeta e do qual o sistema tanto depende. Somos trabalhadoras, mães, avós, irmãs, tias, primas, amigas que nem mesmo em casa têm garantia de segurança, onde tantos homens, às vezes um filho, está sendo ensinado ou incentivado, na internet, a nos menosprezar e subjugar como seres não merecedores de respeito. Nem todo feminicídio foi cometido por um incell, red pill, MGTOW, ou qualquer outro iniciado nesse mundo da misoginia. Mas enquanto esse pensamento extremista calcado no ódio e no desprezo à mulher tiver espaço livre online será muito mais difícil mudar esse cenário.
1- Como mostra o jornalista estadunidense Max Fisher no livro A máquina do caos — Como as redes sociais reprogramaram nossa mente e nosso mundo.
2- Dados do Laboratório de Estudos de Feminicídios – LESFEM: https://sites.uel.br/lesfem/variacao-das-taxas-de-feminicidio-no-brasil-revela-forte-aumento-em-2025/
4- https://www.bbc.com/portuguese/articles/cy90kg5l955o
6- https://www.intercept.com.br/2026/02/25/pai-mata-os-filhos-mas-imprensa-condena-a-mae/
Sobre o(a) autor(a)
Jornalista, doutora em Comunicação. Professora do departamento de Ciências da Comunicação da UFSM